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DESAFIOS HISTÓRICOS E CONTEMPORÂNEOS DAS IGREJAS NA AMÉRICA LATINA FRENTE À DIVERSIDADE CULTURAL[1] Paulo
Suess
O Brasil é uma “democracia
racial” como é uma "democracia política". Ambas as democracias
favorecem desigualdades pela origem étnica e o lugar social do nascimento. Ser
índio, negro ou branco determina as oportunidades sociais no país. Nesta
constelação, fronteiras étnico-culturais são, ao mesmo tempo, fronteiras de
desigualdade e exclusão social. Fronteiras étnico-culturais não são,
necessariamente, fronteiras de exclusão. Podem também marcar - como certos
condomínios ou bairros da classe A – espaços
privilegiados da classe dominante. As fronteiras sociais não são
naturais, nem fatais. São historicamente construídas, a partir de interesses
econômicos e ideológicos. Onde as fronteiras sociais são conjugadas com as
fronteiras étnico-culturais, podem ser indicadores de etnocentrismo e racismo.
A classe socio-politicamente dominante, geralmente, considera-se a "raça
superior". O presente texto busca trabalhar a questão da
diversidade cultural a partir da "comunidade de argumentação"
eclesial latino-americana. Em sua primeira parte são apresentados oito cenários
que, com suas rápidas mudanças, se assemelham ao roteiro de um documentário
cinematográfico. O "roteiro" articula o não-contemporâneo com o
contemporâneo e permite o livre trânsito (transdisciplinaridade!) entre
filosofia e história, entre antropologia e teologia, entre arte cinematográfica
e poesia. Na segunda parte, procura-se em cinco passos traçar perspectivas que
permitem à já mencionada "comunidade de argumentação", as igrejas,
assumir a diversidade cultural como parte integrante de sua identidade. I. Cenários
Cenário 1: Jardim Itápolis
Na frente do Museu da
Independência, em São Paulo, passa, de quinze em quinze minutos, um ônibus que
é um lembrete da diversidade cultural da cidade e do país, e isso não pela
diversidade dos passageiros, mas pelo shiboleth na sua testa: “Jardim
Itápolis”. “Jardim” lembra a herança portuguesa do país; “itá”, em guarani,
significa “pedra” e aponta para a herança indígena, e “pólis” representa o
berço da civilização ocidental em Atenas. “Jardim Itápolis": "Jardim
Cidade de Pedra”. Os nomes das ruas de São Paulo, as estações de metrô, as
estátuas e, sobretudo, as pessoas – tudo está prenhe de diversidade cultural e
religiosa, prenhe do prazer e das tensões da diversidade em nível real e
simbólico. Nas ruas paulistanas,
estátuas de Anchieta e de Anhangüera[2]
disputam a atenção dos transeuntes. A Grande São Paulo é atravessada por uma
"Via Anchieta", por uma "Via dos Bandeirantes" e uma
"Raposo Tavares", lembrando o chamado "ciclo de caça ao
índio". O povo herdou a alquimia de sua sobrevivência dos índios colonizados,
homenageia seus anjos da guarda e respeita seus demônios porque sabe como pode
ser útil acender uma vela a Deus e outra ao diabo. O embate do bem contra o mal
– tantas vezes invocado nos autos de Anchieta e recentemente nos discursos
pseudo-messiânicos contra o terrorismo –, o povo o enfrenta nas ruas, onde a
violência real supera a imaginação alegórica dos missionários quinhentistas. Cenário 2: Atenas explica Os missionários quinhentistas
chegaram às Américas despreparados para o reconhecimento da alteridade, ou
melhor, chegaram teologicamente preparados para o não-reconhecimento do outro.
A questão do reconhecimento da “diversidade cultural” estava hipotecada pelo
tratamento filosófico que a questão da unidade e multiplicidade
historicamente recebeu. Em toda idade média - e a teologia dominante da
conquista era medieval -, o valor da unidade e multiplicidade
estava marcada pelo pensamento metafísico, com sua origem na Academia da pólis
na Grécia.[3]
Desde Constantino que
transformou o cristianismo marginal do Império Romano em religião oficial, a
Igreja assume progressivamente estruturas imperiais. Suporte ideológico para
esta transformação forneceu o pensamento metafísico que tem as suas raízes em
Platão: como o unum representa o totum, assim a ponta da pirâmide
administrativa representaria o essencial de todo o corpo social da Igreja. O
que pôde parecer uma certa historização do pensamento
metafísico-transcendental, de fato foi uma espécie de alegorização e
mitificação dos mistérios da fé na história. Um exemplo para esta mitificação
alegorizante: Assim como para o povo yanomami, no norte do Brasil e na
Venezuela, a casa representa a sua cosmologia mitológica, as estruturas sociais
da Igreja representariam o universo metafísico de sua cosmologia religiosa.
Esta Igreja, representante do unum, do uno metafísico e histórico, se
entendeu como sujeito do poder espiritual e temporal. Seguindo os precedentes
políticos, Agostinho (354-430) e seus seguidores se apropriaram das
especulações metafísicas de Platão (427-347 a.C.) até Plotino (205-270),
pensamento esse que reduziu a realidade a uma origem e/ou substância: unum
est totum (o Uno é o Todo). Hoje diríamos, os teólogos inculturaram a
teologia na filosofia de Atenas e os canonistas inculturaram a administração
eclesial nas práticas administrativas do Império Romano. Se o Uno é o Todo, o
múltiplo carrega em si deficiências do “ser” e da “substância”. O múltiplo
representa a depravação do uno. A doutrina da origem única
desqualificou a diversidade dos caminhos como desvios. Portanto, os
missionários consideravam o passado dos povos autóctones não só irrelevante
para a história de sua salvação; o consideravam um estorvo para a transmissão
da "verdadeira religião". Para os catequistas da conquista e sua teologia
ainda inspirada pelo neoplatonismo e a relativa unidade do mundo medieval, o
plural das vozes e dos modos de ser encontrados nas Américas representava um
afastamento da verdade única e padronizada nas experiências históricas e
expressões culturais da Europa. Cenário 3: Os encontros de Porto Seguro e a mesmice
Se a multiplicidade é viciada
por deficiências do ser, também a alteridade é impregnada por uma falta
substancial. Os missionários compreenderam, por conseguinte, seu trabalho como
redução da multiplicidade e como incorporação na própria identidade. Fazer do
outro alguém que é semelhante ou igual ao pregador europeu parecia uma proposta
generosa. A primeira Missa celebrada por Frei Henrique de Coimbra na Terra da
Santa Cruz, reflete este pensamento mimético, nas palavras do cronista Pero Vaz
de Caminha que destaca os índios como aqueles que fazem tudo como nós: "Ali
estiveram conosco, assistindo a Missa, perto de cinqüenta ou sessenta índios,
assentados todos de joelhos, assim como nós. E quando se chegou ao
Evangelho, ao nos erguermos todos em pé com as mãos levantadas, eles se
levantaram conosco e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e
então tornaram a assentar-se, como nós. E quando levantaram a Deus, que
nos pusemos de joelhos, eles se puseram todos assim como nós
estávamos."[4] Ao concluir a descrição do
evento de Porto Seguro, Pero Vaz resume: "E segundo o que a mim e a todos
pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã do que
nos entenderem, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós
mesmos."[5] Procuraram evitar o pior, o
encontro, 500 anos mais tarde, 22 de abril de 2000. A Polícia Militar baiana
tentou impedir a marcha dos povos indígenas e dos seus aliados do movimento
popular de Porto Seguro a Coroa Vermelha. Os índios que se recusaram a fazer
tudo como nós, foram violentamente reprimidos, com bombas de efeito
moral, numa operação militar sem precedente. Algumas cenas daqueles dias jamais
esqueceremos: Gildo Terena tentando impedir a repressão contra os índios,
colocando-se de joelhos em frente à tropa de choque; um grupo Kayapó, rasgando
as roupas que vestiam, num grito de revolta contra a humilhação; Matalawé
(Jerri Adriani dos Santos), Pataxó sobrevivente da região, no dia 26 de abril,
interrompe a missa oficial de comemoração do descobrimento da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil com um pronunciamento contundente: "Hoje
é um dia que poderia ser um dia de alegria para todos nós. (...) Onde vocês
estão pisando vocês têm que ter respeito porque essa terra pertence a nós.
(...) quinhentos anos de sofrimento, de massacre, de exclusão, de preconceito,
de exploração, de extermínio de nossos parentes, aculturamento, estupro de
nossas mulheres, devastação de nossas terras, de nossas matas que nos tomaram
com a invasão. (...) Estamos de luto. Até quando?"[6] Porto Seguro 2000: massacraram o
encontro e substituíram a festa por seu simulacro. Mesmo indo a pique a bordo
de um navio com mastro quebrado, levantam as suas taças com cachaça e sangue,
dando vivas à morte dos índios sem terra. Apenas uma réplica. Mesmice, nada
original. Cenário 4: Confusão babilônica
A diversidade lingüística
encontrada nas Américas, os missionários quinhentistas a comparavam, muitas
vezes, com a confusão babilônica. O padre José de Acosta (1540-1600), primeiro
provincial dos jesuítas no Peru, por exemplo, constata em seu tratado De
procuranda indorum salute (1576) com uma certa resignação: "Dizem que
em outros tempos com 72 línguas entrou a confusão no gênero humano; mas estes
bárbaros têm mais de 700 línguas (...)".[7] Também o padre Antônio Vieira
(1608-1687), em seu Sermão da Epifania, aponta entre as dificuldades
para a catequese dos índios a questão lingüística. "Na antiga Babel houve
setenta e duas línguas; na Babel do rio das Amazonas já se conhecem mais de
cento e cinqüenta, tão diversas entre si como a nossa e a grega; e assim,
quando lá chegamos, todos nós somos mudos e todos eles surdos".[8]
A redução da diversidade é uma
luta antibalélica. A redução ao Uno era interpretada como a “recapitulação” em
Jesus Cristo, da qual São Paulo fala. Salvação significava, portanto, reverter
a confusão e dispersão de Babel. Frente às exigências de uma origem e de
um caminho único e frente à diversidade cultural dos povos autóctones
das Américas, os termos "tutela" e "redução" se tornaram
palavras chave da "conquista espiritual". A "tutela" - o cuidado
com as ovelhas perdidas no mundo! - foi praticada ou na forma branda do
paternalismo de um Frei Mendieta para quem os seus confrades franciscanos são
os "pais desta mísera nação" de índios; ou na forma mais severa de
Juan de Zumárraga, inquisidor e primeiro bispo do México, admoestado pela
rainha, em carta de 26 de junho de 1536, para moderar a sua maneira de castigar
os neófitos; O termo "redução"
podia significar redução da pluralidade cultural e religiosa aos padrões
europeus em "doutrinas" mais ou menos abertas ou em
"missões" fechadas; podia significar redução da "margem da
humanidade" ao centro e redução da complexidade social entre conquistados
e conquistadores no interior de uma cristandade única. A "redução"
como experiência missionária não transformava uma multiplicidade arbitrária em
diversidade articulada; não gerava, em reposta a uma suposta confusão babilônica,
um novo pentecostes. Gerava, sim um abrigo contra "excessos" de
violência estrutural ("sistema colonial") ou individual, pago com a
perda da liberdade e da diversidade dos povos indígenas. Cenário 5: Mundo às avessas
Ao atravessar o Equador com 44
companheiros, no dia 22 de fevereiro de 1691, o jesuíta Antônio Sepp anota em
sua carta-diário “Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos”[9]:
“Costuma-se mudar tudo sobre o equador. A água apodrece, a carne fica
fedorenta, morrem percevejos, pulgas e outra bicharia.” A agulha magnética da
bússola, porém, não se desloca. Ela continua apontando “fiel e exatamente para a Estrela Polar. A
diferença está toda em nós mesmos, que precisamos modificar nosso conceito.
Quando é meio-dia na Europa, é meia-noite aqui entre nós. (...) O vento norte
gélido da Europa é aqui bem morno. Tudo às avessas. (...) Em dezembro e
janeiro, quando na Europa tudo gela, comemos figos e colhemos lírios. Numa
palavra, tudo aqui é diferente, e está a cunhar a expressão, chamando a América
de ‘mundo às avessas’. (...) No dia 28 de fevereiro entramos para o jejum
quaresmal, aliás de acordo com o calendário, e não com a realidade.” Como organizar calendários
supostamente universais de acordo com a realidade, ao mesmo tempo cosmológica e
local? Como aprender que o “mundo às avessas” é um mundo culturalmente
diferente que participa de um universalismo moral com toda a humanidade (Kant)?
Como transformar o imaginário do visitante para que caiba nele o “bárbaro” como
outro e o outro como irmão? Como potencializar a sabedoria dos contextos para
que o mundo globalizado não ameace a sua identidade, mas fortaleça suas raízes
e amplie seus horizontes? Não se trata aqui de uma oposição entre “tradicional”
e “moderno”, mas entre alteridade hegemônica com fantasias de universalidade e
alteridade cooperativa que tem consciência dos seus limites regionais. A
ideologia dominante, hoje é contestada por causas que lutam contra o monopólio
e a hegemonia, como o feminismo, o comunitarismo e o pos-modernismo, as lutas
indígenas e afro-americanas, as causas das minorias étnicas e das maiorias
sociais marginalizadas ou excluídas. Cenário 6: Inocência
perdida O que o jesuíta André João
Antonil escreveu no início do século XVIII, ainda hoje encontra seus reflexos no
espelho da realidade. Existem três Brasis, escreve Antonil: O Brasil inferno, o
Brasil purgatório e o Brasil paraíso. Estes três Brasis são povoados e
dominados, leiloados e repartidos segundo a cor e a origem cultural dos seus
habitantes. Escreve o jesuíta italiano em Cultura e opulência do Brasil
(1711): “O Brasil é inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos
mulatos e das mulatas”.[10] O
religioso, ainda muito distante de uma “Pedagogia dos Oprimidos” de Paulo
Freire, nos deixou também outras palavras de efeito, como por exemplo: “Para o
escravo são necessários três PPP, a saber, pau, pão e pano”.[11]
Sem entrar no mérito da questão de quem estaria mais perto do purgatório, do
inferno ou do paraíso, pode-se afirmar que, desde a conquista do Brasil, a
diversidade cultural perdeu a sua inocência paradisíaca. Ser índio, negro ou
branco não só determina as oportunidades sociais no país, mas também - pelo
menos pela leitura que nosso teólogo de colonização faz - as chances de -
salvação. A luta social acoplada à diversidade cultural está na cara do povo e
nas ruas de cada cidade. Mas, também os
apologetas dos 500 anos como apologetas da "salvação possível"
perderam a sua inocência. A partir de sua convivência com os Tupinambá,
Anchieta tinha boas condições de conhecê-los em sua originalidade. Conhecer, no
paradigma ocidental, significa "objetivar". Anchieta tinha - assim os
apologetas - poucas possibilidades de reconhecê-los em sua alteridade
subjetiva. A teologia colonial dissocia o conhecimento do reconhecimento. É
claro, não podemos cobrar-lhe leituras antropológicas e chaves hermenêuticas do
século XXI. Mas, em todas as épocas encontramos pessoas que romperam com o
cerco etnocêntrico de tradições, na respectiva época, culturalmente corretas. A
consciência quinhentista possível encontramos, por exemplo, na consciência
leiga de Montaigne e Gil Vicente.[12] Cenário 7: Exclusividade do poder
Os missionários que atuavam na
microestrutura tentavam reproduzir a constelação do uno que representa o
todo. Em nome da "salvação integral" lutavam pelo poder total,
chamado policía mixta[13]
(poder temporal e espiritual) e pela reconstrução do mundo no singular.
"Pois esta gente (os índios) é tão mísera e baixa que, se não tem com eles
toda autoridade, não tem nenhuma", escreve Gerónimo de Mendieta a
Francisco de Bustamante, comissário geral dos franciscanos nas Índias.[14]
E Antônio Vieira lamentou um século mais tarde: "Querem que tragamos os
gentios à fé, e que os entreguemos à cobiça; querem que tragamos as ovelhas ao
rebanho, e que as entreguemos ao cutelo". Como se pode ver, os motivos
para a reivindicação do poder espiritual e temporal pelos religiosos eram
nobres: proteção dos índios da cobiça do conquistador e colonizador. Vieira
resume em seguida a ideologia da cristandade em poucas palavras: "Acabe
de entender Portugal que não pode haver cristandade nem cristandades nas
conquistas, sem os ministros do Evangelho terem abertos e livres estes dois
caminhos, que hoje lhes mostrou Cristo. Um caminho para trazerem os Magos à
adoração, e outro para os livrarem da perseguição: um caminho para trazerem os
gentios à fé, outro para os livrarem da tirania: um caminho para lhes salvarem
as almas, outro para lhes libertarem os corpos. Neste segundo caminho está toda
a dúvida, porque nele consiste toda a tentação. Querem que aos ministros do
Evangelho pertença só a cura das almas, e que a servidão e cativeiro dos corpos
seja dos ministros do Estado. (...) Querer dividir estes caminhos e estes
cuidados, é querer que não haja cuidado, nem haja caminho. Ainda que um destes
caminhos pareça só espiritual, e o outro temporal, ambos pertencem à Igreja e
às chaves de S. Pedro, porque por um abrem-se as portas do céu, e por outro
fecham-se as do inferno. (...) Que importa que Pedro tenha chaves das portas do
céu, se prevalecerem contra ele e contra a Igreja as portas do inferno? Isto
não é fundar nova Igreja, é destruí-la em seus próprios fundamentos."[15] Em certas circunstâncias
históricas poder-se-ia delegar o poder ao braço secular; nunca, porém,
poder-se-ia repartir este poder com o Estado, com os conquistados ou com os
quadros subordinados da própria Igreja, representados, aos olhos da hierarquia
nascente, pelos religiosos. Os religiosos, por sua vez,
alegavam, perante os bispos, o direito do primogênito das Américas e o poder de
privilégios papais bem circunscritos no Breve Exponi nobis, de 1522,
logo chamado de "bula Omnimoda".[16]
A reconstrução de um mundo no singular com uma origem única exclui também a
possibilidade da repartição do poder no interior da Igreja. Na cristandade, a
reivindicação de “participação interna” na Igreja – que configuraria uma
espécie de democracia - é suspeita como "poder paralelo" e
desrespeito da ordem divina. Cenário 8: Desaparecidos, não esquecidos
Hoje, os interlocutores
principais de Anchieta, Vieira e Antonil são "outros" desaparecidos,
e lembram o pecado histórico das missões, a redução da diversidade. Falar da
diversidade cultural no Brasil significa falar de desaparecimentos, de exclusão
e redução, de mestiçagem e sincretismo e de luta contra o esquecimento. A
memória dos desaparecidos pode-se tratar na arqueologia, na história, na
antropologia ou na teologia. A invocação desta memória dos desaparecidos pode
significar: chegou a “hora da verdade”,
verdade no sentido original de não-esquecimento e memória. O rio Lete (lhqh), na mitologia grega, é o rio que atravessa o reino dos
mortos. Quem bebe de suas águas perde a memória de si mesmo. Portanto, “a-lete”
– alhqeia (a-letheia) que
significa no grego, na língua do Novo Testamento, verdade - é
“não-esquecimento” e memória. E essa memória pode significar lembrança e
saudade, mas também indignação que visa à ruptura com a barbárie contemporânea.
A comemoração, como vimos, pode ser uma maneira
sofisticada de reprimir a memória histórica e de fazer esquecer. O
culturalmente correto e lembrado, as respectivas ondas de uma época, o padrão
de santidade que serve, em correspondência com determinadas prioridades
políticas e espirituais de um pontificado, para as canonizações, e o mainstream
da ciência são afluentes do rio Lete. O que não foi publicado em inglês, de
cinco anos para cá e em determinadas revistas de renome, recebe o carimbo do forget
it.[17]
Mártires e hereges, pobres e excluídos, outros e minorias que são a memória
evangelicamente significativa de sua época, questionam a conveniência política
do forget e delete. II. Perspectivas
1. Modernidade,
ilustração e secularização questionaram certas premissas metafísicas (unum
est totum) do trabalho missionário. Após um tempo vivido como
não-contemporaneidade ou exílio, a Igreja aderiu, através do Vaticano II, ao
mundo moderno e suas conquistas de igualdade, liberdade, solidariedade, de
autodeterminação e participação democrática. Os anos de ‘70 forjaram uma nova
sensibilidade e lucidez eclesial. O Cimi, a CPT e as CEB’s são reflexos desta
nova sensibilidade sócio-cultural no Brasil. As Igrejas descobriram que estão
diante dos mesmos desafios como a maioria da humanidade, diante da dialética do
progresso ilustrado e contraditório, diante dos desafios da pauperização, da
migração, do racismo, das questões da terra e da ecologia, do multiculturalismo
e, desde a queda do muro de Berlim, em 1989, da hegemonia do Império. A partir da segunda
metade do século XIX, a antropologia cunhou o conceito “cultura” para descrever
a experiência humana. Originalmente, a noção de cultura era aplicada no
singular, quase idêntica com o conceito de “civilização ocidental”. Hoje, o
conceito “culturas”, quase sempre usado no plural, nos permite observar e
pensar positivamente a diversidade das experiências humanas. O conceito “cultura” modificou
para uns e substituiu para outros o conceito “filhos e filhas de Deus”
vinculado a uma visão teológica monogenista que presumiu - na origem de toda a
humanidade - um casal perfeito, criado por Deus (Adão e Eva). O monogenismo
bíblico induziu a ler as diferenças humanas em chave de degeneração (causada pelo pecado original) e rebeldia contra a lei de Deus, inscrita na natureza e na ordem
cosmológica imutável; em chave de perda
(do estado de graça) e de castigo
(expulsão do paraíso e confusão babilônica), de desvios do caminho único traçado por Deus na Igreja Católica (fiéis
versus hereges e infiéis). A partir de uma visão mais ampla e científica
da evolução da vida, hoje prevalece na antropologia e na teologia a visão
monogenista, não a partir de um casal primordial perfeito, mas a partir de um ramo da linha evolutiva da vida. 2. A reflexão sobre os legítimos
protestos contra o pensamento unitário que exclui, sob o ângulo da utilidade e
da eficácia, a diversidade das vozes, a alteridade dos projetos e a
multiplicidade das experiências religiosas, não dispensa a reflexão sobre o
resgate dos legítimos anseios da universalidade de projetos de vida diferentes.
Isso obriga a recorrer à distinção entre uma universalidade hegemônica e uma
universalidade articulada (agir piramidal versus agir em rede). O
contextualismo míope (“paroquialismo”, “tribalismo”, “fundamentalismo”),
incapaz de fazer convergir processos sociais e projetos de vida para uma
articulação maior que poderá configurar uma utopia partilhada, pode ser tão
destrutivo como o universalismo hegemônico. Frente ao projeto de Jesus de
Nazaré – Reino de Deus como “utopia partilhada” -, tanto a universalidade
hegemônica como o contextualismo míope configuram o anti-projeto e a tentação
histórica de cada época. 3. No mundo pós-moderno e
pós-metafísico de hoje, o antigo pensamento unitário e seu substrato
autoritário é denunciado como totalitarismo do “grande relato”. A Pax Romana é,
como a Pax Americana, uma forma peculiar de guerra que elimina as pequenas
histórias, despreza o saber local e esmaga os contextos. O sofrimento dos
pobres e dos outros apontam para o núcleo provincial da civilização ocidental e
sua racionalidade destrutiva. Quando esta racionalidade produziu uma
civilização capitalista mundial que coopta as culturas e corrompe a convivência
através da redução de tudo ao “lucro logo existo”, percebemos, definitivamente,
que as corujas de Atenas – símbolos desta racionalidade – são pássaros da
noite, cegos, como a justiça que dá aos ocupantes de terras indígenas todos os
recursos sofisticados de protelação (cf. o Decreto 1775!), enquanto despeja os
índios de suas terras com “mandatos de insegurança”. 4. A herança de Israel
lembra uma outra racionalidade e uma outra justiça. Para o Deus da Bíblia
lembrar – sobretudo lembrar-se dos pobres - é uma questão de verdade. Sua
palavra é verdade e sua verdade é não-esquecimento (a-letheia) e
memória, não doutrina ou letra morta. Ele não particulariza, nem privilegia;
não exclui, nem esquece. Sua universalidade cresce com sua proximidade que é
"cognitiva" em sua memória, "sensitiva" em seu olhar e em
sua escuta, e "emocional" em sua compaixão. Razão, religião e justiça
sem compaixão são capazes de andar, não sobre as águas, mas sobre cadáveres
(“guerra santa”). Lembrar é a essência da "verdadeira religião". O
cultivo da memória é a melhor herança que os cristãos receberam de Israel. A universalidade que tem
a sua raíz na memória (verdade) universal de Deus não pode ser uma
universalidade hegemônica ou piramidal pregada pela “missão clássica”, na
perspectiva de incorporação, submissão ou triunfo da fé do “povo escolhido”
sobre os demais. A escolha do novo povo de Deus significa escolha da
memória do Êxodo e do Exílio para o serviço de um mundo sem êxodo e exílio, sem
exclusão e sem hegemonia. Já no Antigo Testamento
surge a perspectiva profética que rompe com o exclusivismo privilegiado do povo
de Deus: “Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e
reconduzir os fugitivos de Israel. Vou fazer de ti a luz das nações para
propagar minha salvação até os confins do mundo” (Is 49,6). “Ser luz das
nações” numa dimensão de responsabilidade universal da fé não significa
necessariamente uma universalidade representativa que faz de Israel ou,
mais tarde, dos cristãos os representantes da salvação no mundo. “Ser luz das
nações” aponta para uma universalidade participativa e articulada.
Portanto, a universalidade
da fé não exige a inclusão do outro, mas a sua não-exclusão. Os profetas
mostram que não é impossível viver na “vida falsa” do sistema que exclui, uma
“vida autêntica” (contra Adorno). Mas, a “vida autêntica” ainda não é a “vida
plena”. A reversão da exclusão não aponta para a vida heróica na “vida falsa”
(depois da inclusão), mas para rupturas sistêmicas através da articulação entre
iguais com projetos de vida (culturas) diferentes. Os acontecimentos de Porto
Seguro representam uma destas rupturas. Os povos indígenas romperam as molduras
das imagens do indigenismo oficial e pularam da parede do museu para o chão da
história. Com suas reconquistas, mas também com seu “comunitarismo” mexem,
diariamente, com fronteiras étnico-culturais impostas. A própria leitura
bíblica perde, através dos povos indígenas, seu autoritarismo monocultural e
ganha autoridade profética. Nesta perspectiva pode-se fazer a leitura de Isaías
à luz de Amós: “Ó filhos de Israel, disse Jahvé, não sois para mim como os cuchitas
(etíopes)? Se tirei Israel do Egito, não tirei também os filisteus de Cáftor e
os sírios de Quir” (Am 9,7)? Êxodo, exílio, libertação aqui não são privilégios
de Israel, mas experiências paradigmáticas ou arquetípicas de todos os povos
oprimidos.[18]
O Deus de Israel se inclina também a outros povos como, mais tarde, o Deus de
Jesus de Nazaré. Nesta nova compreensão da universalidade como articulação e
não como representação ou integração ao caminho único, a missão não é mais
incorporação ao próprio, mas, a partir do próprio, articulação de uma
peregrinação macroecumênica ao monte de Javé. A partir do Evangelho
compreendemos a unidade como diversidade de núcleos de vida articulados,
relacionados e conectados na construção de um projeto de vida que inclui a
todos numa caminhada para o novo. 5. O cristianismo eurocêntrico e
monocultural que se copulou, pelo preço da amnésia, no vôo cego da coruja, hoje
se junta ao vôo da gaivota que simboliza sua origem no Espírito Santo.
Pentecostes, onde todas as vozes convergem para um projeto – a unidade no
Espírito Santo -, representa a universalidade contextualizada e articulada
entre razão, lógica e memória locais com um projeto que prevê a partilha
simétrica dos bens da terra e as chances do futuro. Hoje, uma das condições prévias
da fraternidade é a recuperação da memória dos esquecidos e a abolição da
tutela sobre os excluídos, mesmo na forma sutil do porta-voz dos sem-voz. A
recuperação e articulação da multiplicidade das vozes dos oprimidos de ontem é
um ato de justiça para com os injustiçados e os excluídos da memória oficial e
da vida real de hoje. Os povos indígenas guardam na particularidade de seus
projetos os anseios de um mundo novo. Carregam em seus projetos de vida a
memória de toda a história. Vejo nos ciscos de esperança em seus olhos a
promessa de um mundo novo para todos. [1] Seminário Nacional: Fronteiras étnico-culturais e fronteiras
da exclusão. O desafio da interculturalidade e da equidade. Tema: A etnicidade
no contexto de uma sociedade intercultural, Campo Grande/MS, Universidade Católica Dom Bosco, 16 a 19 de setembro
de 2002. O texto foi apresentado na Mesa: “Diversidade cultural no Brasil”, no
dia 17.9.2002. [2]
Anhangüera significa Diabo Velho, nome dado pelos índios ao bandeirante
Bartolomeu Bueno da Silva. [3] Cf. J. Habermas,
La unidad de la razón en la multiplicidad de sus voces, in IDEM, Pensamiento
postmetafísico. Madrid: Taurus, 1990. Orignialmente („Die Einheit der
Vernunft in der Vielfalt ihrer Stimmen“) in: J. Habermas, Nachmetaphysisches
Denken. Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 153-186. [4] S.
CASTRO (ed.), A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM, 1985, p. 95. [5] Ibidem,
p. 96. [6] Cf. Porantim XXII/225 (Maio 2000): 18. [7]. J. de
ACOSTA, De procuranda indorum salute. In: Obras del padre José de
Acosta. Madrid: Atlas
(B.A.E. 73), 1954, p. 399 (liv. 1, cap. 2). [8] A.
VIEIRA, Sermão da Epifania (1662). In: Sermões. Porto: Lello & Irmão,
1959, p. 24 (vol. 1, tomo 2, I/4). [9] A. SEPP,
Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos. Belo Horizonte/São
Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1980, p. 73, 82, 85. [10] A. J.
ANTONIL, Cultura e opulência do Brasil (1711). Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/USP, 1982, p. 90 (livro I, cap. 9). [11] Ibidem,
p. 91. [12] Cf. P.
SUESS, José de Anchieta – Enigma e paradigma frente à alteridade
tupinambá. In: Actas do Congresso Internacional Anchieta em Coimbra -
Colégio das Artes da Universidade, tomo III, Porto: Fundação Eng. António
Almeida, 2000, p. 1119-1132. [13]. Cf. V. de QUIROGA, Información en derecho
(1535). México: Secretaría de Educación Pública, 1985, p. 175s. [14]. Carta del padre Fray Gerónimo de Mendieta (1562). In:
J. GARCÍA ICAZBALCETA, Coleccion de documentos para la historia de México.
Vol.
2, México: Porrúa, 1980, p. 519. - Tb. integralmente em port. in: P. SUESS, A
conquista espiritual da América Espanhola. 200 documentos – século XVI.
Petrópolis: Vozes, 1992, p. 884-903, aqui 887 (Doc. 184). [15]. A.
VIEIRA, Sermão da Epifania, l.c. p. 32s. [16]. Cf. P. TORRES, La bula Omnimoda de Adriano VI. Madrid:
Instituto Santo Toribio de Mogrovejo/C.S.I.C. (Bibl. "Missionalia
Hispanica"), 1948. O breve Exponi nobis, mais conhecido como "bula
Omnimoda", concedeu extraordinários poderes espirituais às ordens
mendicantes, poderes que logo causaram conflitos com os respectivos prelados. -
Texto integral em port. in: P. SUESS, A conquista espiritual da América
Espanhola, l.c. p. 256-258 (Doc. 36). [17] Cf. H. WEINRICH, Lete. Arte e
crítica do esquecimento, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.
293ss. [18] Cf. M.
Walzer, Zwei Arten des Universalismus. Babylon. Beiträge zur jüdischen
Gegenwart, 7 (1990): 7-25, aqui 10. |
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