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Inculturação da fé e
pluralismo religioso Faustino Teixeira PPCIR-UFJF
Introdução A
expressão inculturação refere-se a um neologismo específico da linguagem
cristã. Trata-se de um termo típico do linguajar teológico e de recente
utilização no discurso missiológico. Embora tenha uma conotação
antropológico-cultural, este termo distingue-se de outros típicos do léxico
antropológico, como é o caso de aculturação, enculturação e transculturação.[1]
Distingue-se também dos conceitos de adaptação e acomodação, vigentes em âmbito
teológico na década de 50, com repercussões precisas no Concílio Vaticano II
(1962-1965). A afirmação do novo conceito será fruto dos desdobramentos da
elaboração teológico-missiológica ocorrida sobretudo na Ásia e na África. O
Sínodo de 1974, sobre a evangelização no mundo de hoje, expressa já uma
primeira transição, ao reconhecer cidadania para expressões como inserção,
indigenização e encarnação. As intervenções dos Padres da Ásia e da África foram incisivas no diagnóstico da falta de
aculturação da mensagem eclesial em outros quadros culturais que não os
ocidentais, bem como no apelo em favor
da justa autonomia e criatividade da igrejas particulares face aos novos
desafios da pluralidade. A partir da XXXII congregação geral da Companhia de Jesus, ocorrida nos anos de 1974-1975, o termo inculturação passa a fazer parte do repertório usual da teologia e da pastoral. Uma referência importante foi a carta do então Superior Geral dos jesuítas, Pedro Arrupe, sobre a inculturação (1978): A inculturação é a encarnação da vida e da mensagem
cristãs em uma área cultural concreta, de modo que não somente esta experiência
se exprima com os elementos próprios da cultura em questão (o que ainda não
seria senão uma adaptação), mas que esta mesma experiência se transforme em um
princípio de inspiração, a um tempo norma e força de unificação, que transforma
e recria esta cultura, encontrando-se assim na origem de uma “nova criação”[2]
Nesta
clássica definição de Arrupe aparecem de forma nítida três elementos essenciais
da inculturação: a dimensão de encarnação da vida e da mensagem, a dimensão
transformante e pascal e a dimensão pentecostal (re-criativa). Com
respeito ao Magistério pontifício, o termo será acolhido pela primeira vez em
março de 1979, por ocasião da alocução de João Paulo II aos membros da
Pontifícia Comissão Bíblica. A reflexão será retomada na exortação apostólica Catechesi Tradendae, em outubro de 1979,
tornando-se, em seguida, de uso freqüente nos documentos da Igreja católica.
Para João Paulo II, o termo inculturação “ exprime muito bem uma das
componentes do grande mistério da Encarnação”, envolvendo igualmente o domínio
da catequese: A catequese tem de procurar conhecer essas culturas
e as suas componentes essenciais; ela deve apreender as suas expressões mais
significativas; e deve também saber respeitar os seus valores e riquezas
próprias. É deste modo que ela poderá propor a tais culturas o conhecimento do
mistério escondido e ajudá-las a que façam surgir da sua própria tradição viva
expressões originais de vida, de celebração e de pensamento cristãos.[3] Sob
o influxo da reflexão antropológica, percebe-se hoje com clareza que cada
sistema cultural tem sua lógica própria e articulada. Está superada aquela
visão evolucionista e etnocêntrica que enquadrava os sistemas como sucessivos e
não simultâneos, ocasionando graves distorções de enfoque. Apesar de recaídas
esporádicas, tende-se atualmente a considerar como um fenômeno natural a
diversidade das culturas. Mas é igualmente verdade que as culturas são
dinâmicas e não estáticas, estando em contínuo processo de modificação. “Toda
cultura é uma totalidade sensata, mas não uma grandeza fechada e intocável. A
mudança de contexto com seus desafios ou o contato com outras culturas podem
levá-la a transformações, acarretando aprofundamento ou enriquecimento de suas
características próprias”[4].
Mediante o processo ativo da inculturação ocorre um contato que suscita
mudança, mas sempre a partir de dentro da própria cultura. 1.
O duplo
movimento da inculturação A
emergência do conceito de inculturação na reflexão teológica traduz um
considerável avanço com respeito ao projeto de simples adaptação, assim como
expresso em documentos do Vaticano II, como a Ad Gentes 22. Como sublinham os bispos da África e de Madagascar,
em documento de novembro de 1974, há que superar uma certa “teologia da
adaptação” em favor de uma “teologia da encarnação”[5]. Há
igualmente que ultrapassar a concepção que identifica a missão como implantação
da Igreja, entendida como ação do exterior. “A Igreja não é nem sujeito nem
objeto da inculturação. É do encontro entre o dinamismo do Evangelho e uma
cultura particular que nasce uma nova Igreja que traduz uma nova figura
histórica do cristianismo, uma criação inédita do Espírito de Cristo”[6].
O processo de inculturação envolve um duplo movimento, de ruptura e de
continuidade. É ruptura enquanto implica uma proposta evangelizadora que é
novidadeira. Mas há que ressaltar que esta proposta ocorre no pleno respeito à liberdade do ouvinte; não pode
significar imposição, mas deve acontecer no respeito das pessoas e das
culturas, “detendo-se diante do sacrário da consciência”[7]. É
continuidade enquanto resgata e acata os elementos próprios da cultura,
favorecendo surgir de seu próprio interior “expressões originais” da experiência cristã. Na dinâmica deste duplo
movimento é que emerge o anúncio inculturado, não apenas inteligível, mas
igualmente correspondente às aspirações e virtualidades da cultura ou tradição
à qual se dirige, ou seja, como “a Boa-Nova que eles esperavam”.[8]
Se não ocorre este esforço de inculturação, a evangelização deixa de ser o
acontecimento de uma Boa Nova, e transforma-se em “falso escândalo de um
veículo cultural estranho ou ultrapassado”[9]. 2.
Os domínios da
inculturação A concreta inserção da Igreja numa dada área cultural implica um processo ativo de doação e enriquecimento, que envolve os diversos aspectos ou modalidades de vida, expressão, celebração e ensinamento do mistério da fé. Dentre as principais áreas de envolvimento da inculturação podem ser sublinhadas: a liturgia, a espiritualidade e a reflexão teológica. Já o Concílio Vaticano II, no Decreto sobre o ecumenismo, tinha indicado algumas pistas neste sentido, ao abordar a tradição litúrgica, espiritual e teológica dos orientais. No que tange à teologia dos orientais, este documento conciliar reconheceu a singularidade e riqueza da captação pelos orientais de “alguns aspectos do mistério revelado”, cuja apreensão e expressão pode revelar-se, às vezes, de forma mais precisa da que ocorre entre os ocidentais (UR 17). Esforços
significativos de inculturação nestes três âmbitos aconteceram sobretudo nas
Igrejas do terceiro mundo. Infelizmente, a criatividade das iniciativas
implementadas nem sempre receberam o devido estímulo e apoio das instâncias
romanas. No domínio da liturgia, o temor do sincretismo religioso, exerceu
influxo decisivo no estabelecimentos de princípios e normas mais “seguras” para
o exercício da inculturação. No documento da Congregação para o Culto Divino,
sobre a liturgia romana e a inculturação (1994), fala-se a princípio na
necessidade de inculturação, mas logo em seguida afirma-se a exigência da
condução do processo em conformidade com a “unidade substancial do rito
romano”, evitando-se todo e qualquer resquício de sincretismo religioso ou
ambigüidade quanto aos lugares, objetos de culto, vestes litúrgicas, gestos,
leituras e cantos bíblicos.[10] Algo
semelhante ocorreu no campo da espiritualidade, com a carta da Congregação para
a Doutrina da Fé, dirigida aos bispos da Igreja católica, acerca de alguns
aspectos da meditação cristã (1989). Diante do risco de um “pernicioso
sincretismo” na utilização de métodos orientais de oração no mundo cristão e nas
comunidades eclesiais, o documento busca estabelecer “critérios seguros, de
caráter doutrinal e pastoral, que permitam educar para a oração nas suas
variegadas manifestações, permanecendo sempre na luz da verdade revelada em
Jesus, segundo a genuína tradição da Igreja”[11]. Com
a recente publicação da Declaração Dominus
Iesus, da mesma Congregação romana, completa-se o fecho do enquadramento,
agora no campo teológico. Com esta Declaração visa-se questionar as “teorias de
índole relativista” que pretendem justificar um pluralismo religioso de
princípio. Aponta-se, mais uma vez, o risco do subjetivismo e do ecletismo na
pesquisa e produção teológica, da carência de “coerência e conexão sistemática”
e da falta de “compatibilidade com a verdade cristã”. No cerne da preocupação
do dicastério romano está a regulação das pesquisas no campo do diálogo
inter-religioso e a confirmação da centralidade da Igreja católica quanto à
plenitude dos meios de salvação. Sem desconhecer os elementos de religiosidade
presentes nas outras tradições, o documento veda qualquer possibilidade de
atribuição de origem divina às orações e ritos das outras religiões, bem como
de sua eficácia salvífica.[12] A nível mais oficial, o documento que tem
balizado as atuais reflexões sobre o tema da inculturação é a carta encíclica Redemptoris Missio (RM), de João Paulo
II. O documento reconhece a complexidade que envolve o processo de
inculturação. Trata-se de algo que “requer um tempo longo” (n. 52), um processo
difícil, que implica aprendizagem e capacidade de “tradução” da mensagem (n.
53); uma realidade que suscita uma expressão da experiência cristã “em modos e
formas originais” (n. 53). Mas para a RM tal processo “não pode comprometer de
modo nenhum a especificidade e a integridade da fé cristã” (n. 52), daí ter
retomado dois princípios que devem guiar a inculturação: “a compatibilidade com
o Evangelho e a comunhão com a Igreja universal”.[13]
É
sugestivo perceber como estes dois princípios da inculturação reafirmados pela
RM serão sempre sinalizados em documentos posteriores, de forma a relativizar o
papel das Igrejas locais e acentuar a centralidade romana na definição da
inculturação.[14]
Um exemplo concreto neste sentido foi o documento final da IV Conferência do
Episcopado Latino-americano (1992), também conhecido como documento de Santo
Domingo. No documento aprovado pelos bispos,
a tarefa da inculturação estava nas mãos da Igreja local. Com a
posterior revisão romana, acrescentou-se um novo parágrafo com a especificação
dos critérios já estabelecidos na RM, onde se resguarda a harmonia com a Igreja
universal.[15]
Os mesmos critérios serão retomados nas
exortações apostólicas Ecclesia in Africa
(1995) e Ecclesia in Asia (1999)[16]. 3.
Novas
perspectivas para a reflexão O
tema da inculturação veio enriquecido nos últimos anos pelo desenvolvimento da
reflexão teológica e antropológica, que facultou substancialmente uma ampliação
de horizontes. No âmbito particular da teologia das religiões, vale assinalar o
reconhecimento da singularidade e do valor do pluralismo religioso. Importantes
teólogos desta área partilham a viva convicção de um pluralismo religioso de
princípio, que deve ser acolhido como um fator positivo.[17]
O pluralismo ganha a nível teológico uma plausibilidade “de direito”, deixando
de ser visto como um dado conjuntural ou passageiro, uma ameaça ou expressão
da fragilidade missionária da Igreja.
Trata-se, ao contrário, de um fenômeno rico e fecundo, que haure sua razão de
ser no próprio desígnio de Deus, favorecendo a transparência de toda a “riqueza
multiforme” de seu mistério. Tal consciência implica saber acolher a
contingência e estar disponível ao enriquecimento permanente dos dons
oferecidos por Deus mediante a experiência dos outros. O próprio João Paulo II,
em atitude de grande abertura, reconheceu em sua encíclica sobre o empenho
ecumênico que a Igreja católica pode ser enriquecida por certos aspectos do
mistério cristão manifestados de forma mais eficaz em outras comunidades
cristãs.[18] Em
sintonia com a valorização do pluralismo religioso, afirma-se igualmente o
reconhecimento do valor irredutível e irrevogável das outras tradições
religiosas, de algo que jamais será tematizado ou totalizado no cristianismo.
As outras tradições religiosas são portadoras de um verdadeiro “patrimônio espiritual”,
não podendo ser reduzidas a experiências “naturais” ou esforços simplesmente
humanos. Elas são portadoras de dons singulares da sabedoria que o Deus
multiforme “escondeu na criação e na história”[19]. Não
se pode desconhecer a função catalizadora a ser exercida pelo cristianismo, que
deve interrogar o interlocutor com respeito à sua própria verdade, mas por
outro lado, ele deve igualmente “descobrir, em fidelidade à originalidade de
sua religião, novas nuances e virtualidades, que se clarificam no diálogo com
os outros”[20].
O processo de inculturação, que ocorre no desdobramento do contato
evangelizador com uma nova cultura, não se reduz exclusivamente à expressão
nova de uma mensagem singular, mas traduz igualmente a pontuação e
desenvolvimento de aspectos inéditos da verdade, favorecidos pela realidade
desta própria cultura.[21] É
igualmente possível que “certas
riquezas da experiência religiosa vividas em outras religiões possam concorrer
para uma melhor explicitação das riquezas mesmas do Evangelho”.[22] Com
respeito ao aporte da antropologia, há que sublinhar o aprofundamento da
questão da cultura, de sua lógica própria e de seu traço dinâmico; o
reconhecimento da diversidade das culturas como fenômeno natural; a crítica do
etnocentrismo e o desafio da relativização. Pode-se acrescentar ainda as
importantes reflexões feitas nesta área sobre a reformulação da problemática do
sincretismo. De acordo com o novo tratamento, o sincretismo deixa de ser
diretamente identificado com mistura, confusão, paralelismo ou empréstimo, e
passa a ser considerado como uma realidade “universal dos grupos humanos quando
em contato com outros”. Trata-se da transformação de elementos da identidade em
razão do encontro com a alteridade, de uma “tendência a utilizar relações apreendidas
no mundo do outro para ressemantizar o seu próprio universo”[23].
A questão do sincretismo, como apresentada nesta nova reflexão antropológica,
aproxima-se muito do conceito teológico de inculturação. Muitos teólogos tendem
hoje a reconhecer que o cristianismo “pode receber de outras culturas e de
outras religiões elementos que iluminem sua própria identidade”[24],
abrindo-se, assim, à uma recepção mais positiva do conceito de sincretismo e de
seu significado. Como expressou
recentemente o teólogo Mário de França Miranda: “Sem renunciar à preocupação
teológica com a identidade da experiência salvífica cristã, podemos ver o
sincretismo como parte do processo de inculturação da fé.”[25] 4.
A inculturação
como interpretação criadora A
inculturação não constitui uma mera adaptação, nem se resume a uma tradução da
mensagem evangelizadora. Ela implica sempre uma reinterpretação criadora, o
choque de um encontro criador. De acordo com um dos estudiosos mais originais
sobre o tema, o teólogo Claude Geffré, “é necessário reagir contra a linguagem
e a idéia de uma simples adaptação. Crer que se possa traduzir um mesmo
conteúdo de fé numa outra língua sem proceder a uma reinterpretação do
conteúdo, é permanecer no nível de uma adaptação e de uma concepção superficial
e instrumental da linguagem”.[26] Todo
processo de inculturação pressupõe o “risco de uma certa reinterpretação”. A
verdade de qualquer religião, incluindo também o cristianismo, não pode ser
identificada com um corpo estático de proposições imutáveis, mas está aberta a
novos e inusitados dinamismos hermenêuticos. “A religião não é uma simples
mensagem à qual se deve crer, mas uma experiência de fé reproposta como mensagem”.[27]
A inculturação do cristianismo pressupõe e exige a reatualização da experiência
cristã fundamental no novo contexto histórico e cultural onde é convocada a atuar. Desta
reatualização resulta uma “nova figura histórica do cristianismo”[28].
5.
Inculturação e
Diálogo Inter-Religioso O
empenho em favor da inculturação exige um conhecimento aprofundado da cultura
com a qual a mensagem cristã estabelece relação. E uma vez que tal cultura é em
geral portadora de valores religiosos, ou por eles inspirada, torna-se
imprescindível um sincero e aberto diálogo também no campo inter-religioso.[29]
O diálogo verdadeiro com o outro constitui o itinerário essencial para a
compreensão da própria identidade. A passagem pela verdade do outro confere um
significado novo e mais aprofundado para a verdade testemunhada. Para Panikkar,
“aquele que não conhece senão sua própria religião, não a conhece
verdadeiramente”[30].
A auto-suficiência no campo religioso vem identificada por Thomas Merton como
uma “heresia do individualismo”. Para este místico, a realidade do eu se afirma
em maior profundidade na medida em que manifesta a capacidade de acolhida e de
afirmação dos outros. Em texto de grande abertura sinalizava: “serei melhor
católico, se puder afirmar a verdade que existe no catolicismo e ir ainda além”[31].
O
diálogo inter-religioso é sobretudo um ato espiritual de acolhida, respeito e
aprendizado, mas também de comunicação e partilha de vida, experiência e
reflexão: um “intercâmbio de dons”[32]. Não
se trata de diálogo com estranhos, mas com amigos que partilham de uma mesma
viagem fraterna rumo ao horizonte querido por Deus. Em documento da primeira
Assembléia Plenária da Federação das Conferências Episcopais da Ásia (Taiwan –
1974), os bispos de 14 Conferências Episcopais de 18 países da região,
revelaram de forma bem singela as implicações deste diálogo: Somente dialogando com estas religiões poderemos
descobrir ‘as sementes da Palavra de Deus’. Este diálogo nos permitirá tocar
com as mãos as expressões e a realidade do ser mais íntimo de nossa gente, e
nos colocar em condições para encontrar modos autênticos de viver e expressar a
nossa mesma fé cristã. O diálogo nos possibilitará igualmente descobrir muitas
riquezas de nossa própria fé, que talvez não pudéssemos jamais perceber. E
assim, ele poderá tornar-se uma amigável participação na busca de Deus e da
irmandade entre os seus filhos[33] Muitas
das resistências oferecidas pelas outras tradições culturais e religiosas à
dinâmica da inculturação, refere-se à desconfiança ou suspeita face ao que
consideram uma estratégia do cristianismo para melhor se impor em terras estrangeiras.
Tende-se a suspeitar que sob a face de abertura do que se apresenta como
inculturação esteja sendo dissimulada uma estratégia de dominação. Quando
fortalecido e impulsionado pelo diálogo inter-religioso, o processo de
inculturação permanece aberto ao dado da recriação permanente e da
ressemantização do sentido, para além da lógica de uma mera adaptação ou
tradução. Para evitar certos desgastes, os teólogos asiáticos preferem adotar a
palavra “interculturação”, em vez de inculturação, justamente para evidenciar a
dinâmica de mútua fecundação que deve ocorrer na experiência dialogal do
pluralismo. Para eles, a interculturação implica uma nova acolhida, para além
de uma aproximação tangencial da realidade do outro. Trata-se de um ato
religioso “que interpela os dois parceiros de uma maneira radical,
convidando-os a uma nova compreensão de si mesmos, a um processo contínuo de
reinterpretação”[34]. Alguns
desafios permanecem abertos, quando se aprofunda a questão da inculturação e do
diálogo inter-religioso. Um deles refere-se aos desdobramentos que acompanham a
real abertura à fé dos outros. Quais as implicações presentes no esforço de
compreensão, de empatia e de simpatia interior que devem acompanhar a dinâmica
dialogal ? Como articular uma abertura verdadeira ao desafio do outro com a
identidade particular ? Alguns missionários ou místicos cristãos conseguiram
avançar tremendamente neste desafio do mistério do outro, buscando colher a
experiência da alteridade a partir de dentro. Entre os casos mais recentes,
pode-se citar o exemplo de Henry Le Saux (1910-1973), um monge beneditino que
viveu a radicalidade de uma experiência de união entre a “não dualidade”
indiana e a mística cristã; alguém que aceitou viver por 25 anos a tensão
irredutível de uma comunhão, para além das conciliações teóricas. Em carta
escrita em 1970, ele dizia: “a melhor coisa é ainda, creio, manter, embora em
extrema tensão, estas duas formas de uma ‘fé’ única, até que apareça a aurora”[35].
Outros tantos exemplos podem ser apontados neste sentido[36],
levantando uma questão bem concreta: em que medida é possível alguém partilhar
duas fés religiosas diferentes ? Trata-se da delicada questão da dupla
pertença. Avaliando esta questão, o teólogo Jacques Dupuis sinaliza que
a-priori “parece impossível que tal envolvimento absoluto possa se dividir, por
assim dizer, entre dois objetos”. Mas afirmar uma radical impossibilidade de um
cristianismo partilhado “seria contradizer a experiência, já que tais casos não
são raros nem desconhecidos”[37]. Em
perspectiva semelhante, Claude Geffré admite a possibilidade de uma dupla
pertença, entendida como assunção de elementos desconhecidos ao cristianismo
histórico, seja a nível da experiência espiritual, da disciplina corporal e
mental da ascese, bem como na ordem dos gestos de adoração e de louvor.[38] Conclusão Em
todo o andamento da reflexão pôde-se perceber a complexidade que envolve o tema
da inculturação, bem como os desafios que permanecem em aberto. A inculturação
implica aprendizado, mas também a oferta de uma mensagem evangelizadora. Mas
para que seja realmente uma Boa Nova, esta mensagem deve significar um dom que
enriquece a realidade do outro: uma fonte de irrigação, que alimenta sem abafar
a singularidade do outro. Este movimento que faculta o dom é motivado por uma
experiência profunda de amor, que busca partilha, e não simplesmente
decorrência de um mandato: “na medida em que a Igreja e os cristãos têm um amor
profundo pelo Senhor Jesus, o desejo de compartilhá-lo com os outros é motivado
(...) por este mesmo amor”[39]. Os
cristãos não devem omitir no trabalho de inculturação o dom de Jesus Cristo,
mas o modo e a forma de apresentá-lo aos outros não pode significar um
“obstáculo para o diálogo com os irmãos”[40]. Daí
a preocupação presente entre os participantes do Sínodo da Ásia com a pedagogia
da apresentação de Jesus Cristo, com a redescoberta de sua fisionomia asiática.
Falou-se na importância da atenção aos métodos narrativos, que estão melhor
sintonizados com as formas culturais asiáticas; bem como na necessidade de
abertura aos “novos e imprevistos caminhos pelos quais o rosto de Jesus possa
ser apresentado aos habitantes da Ásia”. Imagens significativas foram
sugeridas: Jesus como mestre de sabedoria, libertador, médico, guia espiritual,
ser iluminado, amigo, compassivo do pobre, bom pastor etc.[41]
Esta preocupação dos asiáticos com a pedagogia da inculturação deve animar a
todos os que estão empenhados com a questão, seja onde for, com os desafios
peculiares que cada região apresenta. O
primeiro e grande agente da inculturação é o Espírito Santo, como foi bem
lembrado durante todo o Sínodo da Ásia (1998). Este Espírito é que guia a todos
para as surpresas da verdade de Deus: “ele se encontra já em certa medida
presente, dando aos homens e mulheres de coração sincero a força para vencerem
o mal e as insídias do maligno e oferecendo a todos, embora de um modo que só
Deus conhece, a possibilidade de terem parte do Mistério pascal”[42].
Os evangelizadores não podem jamais perder de vista que o seu anúncio nunca
ocorre num vácuo soteriológico, mas num espaço já habitado pela presença
silenciosa do Espírito, que atua mesmo antes da ação da Igreja se iniciar. Um
sinal desta presença já ocorre na prática sincera das próprias tradições
religiosas.[43] [1] Para tais
distinções, cf. Marcelo de Carvalho AZEVEDO. Inculturação. In: R.LATOURELLE
& R. FISICHELLA (Dir.). Dicionário
de teologia fundamental. Petrópolis/Aparecida: Vozes/Santuário, 1994, p.
464; Id. Comunidades eclesiais de base e
inculturação da fé. São Paulo: Loyola, 1986, p. 263-265. [2] Pedro
ARRUPE. Ecrits pour évangelizer. Paris: DDB, 1985, p. 169-170. [3] JOÃO
PAULO II. A catequese hoje –
Exortação apostólica Catechesi Tradendae.
12 ed. São Paulo: Paulinas, 2000, n. 53 (p. 61). [4] Mário de
França MIRANDA. Inculturação da fé e sincretismo religioso. REB, vol. 60, fasc. 238, 2000, p. 286. [5] Documentation Catholique, n. 1664, 1974,
p. 975. Na mesma linha de reflexão vai a intervenção do teólogo
jesuíta Soosai Arokiasamy, componente do setor teológico da Federação Asiática
dos Bispos (FABC), por ocasião da VII Assembléia plenária da FABC (janeiro de
2000): “A inculturação não deveria significar simplesmente uma adaptação, uma
tradução ou uma diferente expressão da única fé, mas um verdadeiro ‘evento, uma
encarnação da Palavra que cresce e frutifica na vida de um povo’”: Vescovi
dell’Asia. Rinnovamento e missione. Il Regno-Attualità, 4, 2000, p. 123. [6] Claude GEFFRÉ. Mission et inculturation. Spiritus, n. 109, 1987, p. 413. [7] JOÃO
PAULO II. Sobre a validade permanente do
mandato missionário. Petrópolis: Vozes, 1991, n. 39 (Carta Encíclica Redemptoris Missio). [8]
PONTIFÍCIO Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Diálogo e anúncio. Petrópolis: Vozes, 1991, n. 70e. [9] Claude GEFFRÉ. Mission et inculturation. Art.cit., p. 419. [10]
CONGREGAÇÃO para o Culto Divino. A liturgia romana e a inculturação. São
Paulo: Paulinas, 1994, ns. 36, 47 e 48. A propósito, cf. também: Michael
AMALADOSS. À la rencontre des cultures. Paris:
Les Éditions de l’Atelier/Éditions Ouvrières, 1997, p. 21-23. [11]
CONGREGAÇÃO para a Doutrina da Fé. Alguns
aspectos da meditação cristã. Petrópolis: Vozes, 1990, n. 5. Ver também n.
12. [12]
CONGREGAÇÃO para a Doutrina da Fé. Declaração
Dominus Iesus. São Paulo:
Paulinas, 2000, n. 21. Ver também, n. 7. [13] JOÃO PAULO
II. Sobre a validade permanente do
mandato missionário. Petrópolis: Vozes, 1991, n. 54 (Carta Encíclica Redemptoris Missio). Os dois princípios
elencados foram retomados da exortação apostólica Familiaris consortio, n. 10, de 22/11/1981. [14] Com
respeito ao tema da inculturação, a encíclica RM permanece ainda bem tímida,
revelando, como apontou Claude Geffré, um “inconsciente eurocentrismo”:
“fala-se justamente de ‘compatibilidade com a Igreja universal. Mas esta
‘Igreja universal’ identifica-se quase espontaneamente com os dicastérios
romanos”: Claude GEFFRÉ. L’evoluzione
della teologia della missione dalla Evangelii
Nuntiandi alla Redemptoris Missio.
In: G. COLZANI et al. Le sfide
missionarie del nostro tempo. Bologna: EMI, 1996, p. 80-81. [15] José
Oscar BEOZZO. Inculturação, evangelização e libertação em Santo Domingo. REB, vol. 53, fasc. 212, 1993, p. 817. [16] JOÃO
PAULO II. Ecclesia in Africa. Petrópolis: Vozes, 1995, n. 62; Id. Ecclesia
in Asia. In: Sedoc, vol. 32, fasc. 278, n. 22, 2000. Com respeito à
primeira exortação, depois de se sublinhar os dois critérios da inculturação,
acrescentou-se um traço da Propositio 31,
que alertava sobre o “cuidado de evitar qualquer sincretismo”. Para o cardeal
Jozef Tomko, atual prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, tal
acréscimo significou uma “sábia advertência” dos bispos africanos, no sentido
de uma “sã inculturação”: La missione
verso il terzo millenio. Roma/Bologna: Urbaniana University
Press/Dehoniane, p. 270-271. [17] Em
particular: Jacques DUPUIS. Rumo a uma
teologia cristã do pluralismo religioso. São Paulo: Paulinas, 1999, p.
526-528; Edward SCHILLEBEECKX. Umanità la storia di Dio. Brescia:
Queriniana, 1992, p. 217; Claude GEFFRÉ. Profession Théologien. Paris: Albin Michel, 1999, p. 137-138; Id. Le
pluralisme religieux et l’indifférentisme, ou le vrai défi de la théologie
chrétienne. Revue Théologique de Louvain,
31 anné, fasc. 1, 2000, p. 15; Michael AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose. Roma: Arkeios, p. 126. [18] JOÃO
PAULO II. Carta encíclica sobre o
empenho ecumênico. São Paulo:
Paulus, 1995, n. 14 (Ut Unum Sint ).
“Não é raro o Espírito de Deus, que ‘sopra onde quer’ (Jo 3,8), suscitar na
experiência humana universal, não obstante as suas múltiplas contradições,
sinais de sua presença, que ajudam os próprios discículos de Cristo a
compreenderem mais profundamente a mensagem de que são portadores.”: JOÃO PAULO
II. Carta apostólica Novo Millenio
Ineunte, n. 56, jan. 2000. http://www.vatican.va. [19]
SECRETARIADO para os Não-Crentes. O cristianismo e as outras religiões. Sedoc, vol. 17, fasc. 176, n. 22, 1984
(Documento Diálogo e Missão). [20] Claude GEFFRÉ. Profession
Théologien. Op.cit., p. 165. [21] Michael AMALADOSS. Théologie indienne. Etudes, n. 3783, 1993, p. 342. [22] Id. Mission et inculturation. Art. cit., p. 422. Na defesa
de semelhante tese, o teólogo Justin Ukpong questionou os Lineamenta
do Sínodo africano: “no texto a inculturação é entendida, antes de mais
nada, em termos de o Evangelho influenciar as culturas, sem considerar o fato
de que ela envolve também o trazer novas dimensões para a compreensão do
Evangelho”: Justin S. UKPONG. Uma análise crítica dos Lineamenta para o Sínodo
especial africano. Concilium, vol.
239, fasc. 1, 1992, p. 87. Ver ainda: Jacques DUPUIS. Gesù Cristo incontro alle religioni. 2 ed. Assisi: Cittadella
Editrice, 1991, p. 245. [23] Pierre
SANCHIS. Pra não dizer que não falei de sincretismo. Comunicações do ISER, n. 45, 1994, p. 7; Id. Inculturação ? Da
cultura à identidade, um itinerário político no campo religioso: o caso dos
agentes de pastoral negros. Religião e
Sociedade, vol. 20, fasc. 2, 1999, p. 65. [24] Mário de
França MIRANDA. Inculturação da fé e sincretismo religioso. Art.cit., p. 286. [25] Ibidem,
p. 289. [26] Claude
GEFFRÉ. La rencontre du
christianisme et des cultures. Revue
d’Etique et de Thélogie Morale – Le Supplément, n. 1, 1995, p. 86. [27] Edward SCHILLEBEECKX. Il Cristo: la storia de una
nuova prassi. Brescia: Queriniana, 1980, p. 59. [28] Claude GEFFRÉ. La rencontre du christianisme et des
cultures. Art.cit., p. 87. João Paulo II fala da “beleza deste rosto
pluriforme da Igreja” como um “ícone apenas esboçado do futuro que o Espírito
de Deus nos prepara”: Novo Millennio
Ineunte, n. 40. [29] A.A.
Roeste CROLLIUS. Inculturazione. In: PONTIFICIA Università Urbaniana. Dizionario di missiologia. Bologna:
EDB, 1993, p. 282-283. Ver também: Francis ARINZE. A la rencontre des autres
croyants. Paris: MédiasPaul, 1997, p. 81; COMISSÃO Teológica
Internacional. O cristianismo e as
religiões. São Paulo: Loyola, 1997,
n. 26. [30] Raimon PANIKKAR. Entre Dieu et le cosmos. Paris:
Albin Michel, 1998, p. 74. [31] Thomas
MERTON. Reflexões de um espectador
culpado. Petrópolis: Vozes, 1970, p. 166. [32] JOÃO
PAULO II. Ut Unum Sint. São Paulo: Paulus, 1995, n. 28. [33] L’evangelizzazione dell’Asia oggi. In: Documenti
della Chiesa in Asia. Bologna: EDB, 1997, p. 63. [34]
COMUNICADO final do 13 Encontro anual da Associação dos Teólogos Indianos. La
Documentation Catholique, n.
2028, 1991, p. 504 n. 23. Ver também: Pierre de CHARENTENAY. D’une inculturation à une autre. Études, vol. 380, fasc. 2, 1994, p.
211-212. Partindo do modelo da inculturação, o teólogo espanhol Andrés Torres
Queiruga fala em “inreligionação”, no sentido de evidenciar que o cristianismo,
em seu processo de encarnação, assume não apenas os elementos culturais
autóctones, mas igualmente os religiosos. O diálogo não pode pretender anular a
verdade de revelação presente na religião do outro, mas “vivificá-la e
complementá-la com sua própria contribuição (ao mesmo tempo em que se enriquece
e completa com os elementos que essa lhe fornece)”: Um Deus para hoje. São Paulo: Paulus, 1998, p. 37-38. [35] In Jacques DUPUIS. Gesù Cristo incontro alle religioni. 2 ed. Assisi: Cittadella Editrice, 1991, p.
101. Para Henri Le Saux (Abhishiktananda), viver em profundidade um encontro
com a Índia significava ir além das tentativas de adaptação exterior das formas
de vida e de liturgia, ou dos esforços teológicos de diálogo inter-religioso.
Para ele, era necessário ir além, unindo em sua vida pessoal as duas experiências:
Ibidem, p. 95. [36] Podem
ser igualmente citados os exemplos de Beda Griffiths, Cornelius Tholens e, no
Brasil, François de l’Espinay, que viveu nos últimos anos a paradigmática
experiência de “ministro de Xangô”, associada ao seu ministério de padre católico. [37] Jacques
DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã do
pluralismo religioso. Op.cit.,
p. 518. [38] Claude GEFFRÉ. Profession
Théologien. Op.cit., p. 242. [39] Diálogo
e Anúncio, n. 83. [40] Ut Unum Sint, n. 36. [41] Ecclesia in Asia, n. 448-450. [42]Ibidem, n. 21. [43] Diálogo
e Anúncio, n. 68 e 29. |
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