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PEDRAS NO CAMINHO Perspectivas de diálogo inter-religioso desde cenários de conflito[1] Paulo
Suess
Os países latino-americanos são
uma “democracia racial” como são uma "democracia política". Ambas as
“democracias” favorecem desigualdades pela origem étnica e o lugar social do
nascimento e dificultam, desde o tempo da colonização, o diálogo. Ser índio,
negro ou branco determina as oportunidades sociais no país e limita a
possibilidade de dizer a sua palavra. Nesta constelação, fronteiras
étnico-culturais e religiosas são, ao mesmo tempo, fronteiras de desigualdade,
exclusão e não-reconhecimento. Na primeira parte deste texto
são apresentados alguns cenários que, com suas rápidas mudanças, se assemelham
ao roteiro de um documentário cinematográfico. O "roteiro" articula o
passado com o presente e permite o livre trânsito (transdisciplinaridade!)
entre filosofia e história, entre antropologia e teologia. Na segunda parte,
procuro – a partir da discussão em torno da Teologia Índia – mostrar que as
pedras no caminho do encontro com o outro e a outra não são algo historicamente
superado. As pedras apontam para uma tarefa urgente, a assunção da diversidade
e o reconhecimento da alteridade. As pedras podem tornar-se pedras preciosas,
desde que lembram as igrejas de sua origem pluricultural em Pentecostes. A memória e a prática desta diversidade, como parte integrante da
identidade eclesial, é o pressuposto de uma diálogo inter-religioso como dom e
tarefa. I. Cenários
A partir da diversidade
étnico-cultural, de fato, constata-se uma certa supervalorização de uma unidade
metafísica que encontra a sua origem em Atenas. O impacto da civilização grega
sobre o cristianismo fez este importar certos preconceitos contra a
diversidade, muitas vezes qualificada como “barbárie”, “confusão babilônica” ou
“mundo as avessas”. Cenário 1: Jardim Itápolis
Na frente do Museu da
Independência, em São Paulo, passa, de quinze em quinze minutos, um ônibus que
é um lembrete da diversidade cultural da cidade, com o nome: “Jardim Itápolis”.
“Jardim” lembra a herança ibérica do país; “itá”, em guarani, significa “pedra”
e aponta para a herança indígena, e “pólis” representa o berço da civilização
ocidental em Atenas. “Jardim Itápolis": "Jardim Cidade de Pedra”. Os
nomes das ruas de nossas cidades, as estações de metrô, as estátuas e,
sobretudo, as pessoas – tudo está prenhe de diversidade cultural e religiosa,
prenhe do prazer e das tensões da diversidade em nível real e simbólico. Nas ruas paulistanas,
estátuas de Anchieta e de Anhangüera[2]
disputam a atenção dos transeuntes. A Grande São Paulo é atravessada por uma
"Via Anchieta", por uma "Via dos Bandeirantes" e uma
"Raposo Tavares", lembrando o chamado "ciclo de caça ao
índio". O povo herdou a alquimia de sua sobrevivência dos índios
colonizados, homenageia seus anjos da guarda e respeita seus demônios porque
sabe como pode ser útil acender uma vela a Deus e outra ao diabo. O embate do
bem contra o mal – tantas vezes invocado nos autos de Anchieta e recentemente
nos discursos pseudo-messiânicos contra o terrorismo –, o povo o enfrenta nas
ruas, onde a violência real supera a imaginação alegórica dos missionários
quinhentistas. Hoje, os interlocutores
principais de Anchieta são "outros" desaparecidos, e lembram o pecado
histórico das missões, a redução da diversidade. Falar da diversidade cultural
na América Latina significa falar de desaparecimentos, de exclusão e redução,
de mestiçagem e sincretismo e de luta contra o esquecimento. A memória dos
desaparecidos pode-se tratar na arqueologia, na história, na antropologia ou na
teologia. A invocação desta memória dos desaparecidos pode significar:
chegou a “hora da verdade”, verdade no
sentido original de “não-esquecimento”. Cenário 2: Atenas explica Na mitologia grega, o rio Lete (lhqh) é o rio que atravessa o reino dos mortos. Quem bebe de
suas águas perde a memória de si mesmo. Portanto, “a-lete” – alhqeia (a-letheia) que significa no grego, na língua do
Novo Testamento, verdade - é “não-esquecimento” e memória. E essa memória pode
significar lembrança e saudade, mas também indignação que visa à ruptura com a
barbárie contemporânea. Os missionários quinhentistas
chegaram às Américas despreparados para o reconhecimento da alteridade, ou melhor,
chegaram teologicamente preparados para o não-reconhecimento do outro. A
questão do reconhecimento da “diversidade cultural” estava hipotecada pelo
tratamento filosófico que a questão da unidade e multiplicidade
historicamente recebeu. Em toda idade média - e a teologia dominante da
conquista era medieval -, o valor da unidade e multiplicidade
estava marcada pelo pensamento metafísico, com sua origem na Academia da pólis
na Grécia.[3]
Desde Constantino que
transformou o cristianismo marginal do Império Romano em religião oficial, a
Igreja assume progressivamente estruturas imperiais. Suporte ideológico para
esta transformação forneceu o pensamento metafísico que tem as suas raízes em
Platão: como o unum representa o totum, assim a ponta da pirâmide
administrativa representaria o essencial de todo o corpo social da Igreja. Agostinho (354-430) e seus
seguidores se apropriaram das especulações metafísicas de Platão (427-347 a.C.)
até Plotino (205-270), pensamento esse que reduziu a realidade a uma
origem e/ou substância: unum est totum (o Uno é o Todo). Hoje diríamos,
os teólogos inculturaram a teologia na filosofia de Atenas e os canonistas
inculturaram a administração eclesial nas práticas administrativas do Império
Romano. Se o Uno é o Todo, o múltiplo carrega em si deficiências do “ser” e da
“substância”. O múltiplo representa a depravação do uno. A doutrina da origem única
desqualificou a diversidade dos caminhos como desvios. Portanto, os
missionários consideravam o passado dos povos autóctones não só irrelevante
para a história de sua salvação; o consideravam um estorvo para a transmissão
da "verdadeira religião". Para os catequistas da conquista e sua
teologia ainda inspirada pelo neoplatonismo e a relativa unidade do mundo
medieval, o plural das vozes e dos modos de ser encontrados nas Américas
representava um afastamento da verdade única e padronizada nas experiências
históricas e expressões culturais da Europa. Cenário 3: Desencontros em Porto Seguro
Se a multiplicidade é viciada
por deficiências do ser, também a alteridade é impregnada por uma falta
substancial. Os missionários compreenderam, por conseguinte, seu trabalho como
redução da multiplicidade e como incorporação na própria identidade. Fazer do
outro alguém que é semelhante ou igual ao pregador europeu parecia uma proposta
generosa. A primeira Missa celebrada no Brasil – em Porto Seguro - por Frei
Henrique de Coimbra, reflete este pensamento mimético, nas palavras do cronista
Pero Vaz de Caminha que destaca os índios como aqueles que fazem tudo como nós: "Ali estiveram conosco, assistindo a Missa, perto de cinqüenta ou
sessenta índios, assentados todos de joelhos, assim como nós. E quando
se chegou ao Evangelho, ao nos erguermos todos em pé com as mãos levantadas,
eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao
fim; e então tornaram a assentar-se, como nós. E quando levantaram a
Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram todos assim como nós
estávamos."[4] Ao concluir a descrição do
evento de Porto Seguro, Pero Vaz resume: "E segundo o que a mim e a todos
pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã do que
nos entenderem, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós
mesmos."[5] 500 anos mais tarde, 22 de abril
de 2000, a Polícia Militar tentou impedir a marcha dos povos indígenas e dos
seus aliados do movimento popular de Porto Seguro a Coroa Vermelha. Os índios
que se recusaram a fazer tudo como nós, foram violentamente reprimidos,
com bombas de efeito moral, numa operação militar sem precedente. Algumas cenas
daqueles dias de “jubileu” jamais esqueceremos: Gildo Terena tentando impedir a
repressão contra os índios, colocando-se de joelhos em frente à tropa de
choque; um grupo Kayapó, rasgando as roupas que vestiam, num grito de revolta
contra a humilhação; Matalawé (Jerri Adriani dos Santos), Pataxó sobrevivente
da região, no dia 26 de abril, interrompe a missa oficial de comemoração do
descobrimento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com um
pronunciamento contundente: "Hoje é um dia que poderia ser um dia de alegria para todos nós.
(...) Onde vocês estão pisando vocês têm que ter respeito porque essa terra
pertence a nós. (...) quinhentos anos de sofrimento, de massacre, de exclusão,
de preconceito, de exploração, de extermínio de nossos parentes, aculturamento,
estupro de nossas mulheres, devastação de nossas terras, de nossas matas que
nos tomaram com a invasão. (...) Estamos de luto. Até quando?"[6] Porto Seguro 2000: massacraram o
encontro e substituíram a festa por seu simulacro. A comemoração pode ser uma
maneira sofisticada de reprimir a memória histórica e de fazer esquecer. O
culturalmente correto e lembrado, as respectivas ondas de uma época, o padrão
de santidade que serve, em correspondência com determinadas prioridades
políticas e espirituais de um pontificado, para as canonizações, e o mainstream
da ciência são afluentes do rio Lete. O que não foi publicado em inglês, de
alguns anos para cá e em determinadas revistas de renome, recebe o carimbo do forget
it. Mártires e hereges, pobres e excluídos, outros e minorias que são a
memória evangelicamente significativa de cada época, questionam a conveniência
política do forget e delete. Cenário 4: Confusão babilônica
A diversidade lingüística
encontrada nas Américas, os missionários quinhentistas a comparavam, muitas
vezes, com a confusão babilônica. O padre José de Acosta (1540-1600), primeiro
provincial dos jesuítas no Peru, por exemplo, constata em seu tratado De
procuranda indorum salute (1576) com uma certa resignação: "Dicen que
en otros tiempos con setenta y dos lenguas entró la confusión en el género
humano; mas estos bárbaros tienen más de setecientas (...)".[7]
A redução da diversidade é uma
luta antibabélica. A redução ao Uno era interpretada como a “recapitulação” em
Jesus Cristo, da qual São Paulo fala. Salvação significava, portanto, reverter
a confusão e dispersão de Babel. Frente às exigências de uma origem e de
um caminho único e frente à diversidade cultural dos povos autóctones
das Américas, os termos "tutela" e "redução" se tornaram
palavras chave da "conquista espiritual". A "tutela" - o cuidado
com as ovelhas perdidas no mundo! - foi praticada ou na forma branda do
paternalismo de um Frei Mendieta para quem os seus confrades franciscanos são
os "padres desta mísera nacion"
(Mendieta, 522) de índios; ou na forma mais severa de Juan de Zumárraga,
inquisidor e primeiro bispo do México, admoestado pela rainha, em carta de 26
de junho de 1536, para moderar a sua maneira de castigar os neófitos. O termo "redução"
podia significar redução da pluralidade cultural e religiosa aos padrões
europeus em "doutrinas" mais ou menos abertas ou em
"missões" fechadas. A "redução" como experiência
missionária não transformava uma multiplicidade arbitrária em diversidade
articulada; não gerava, em reposta a uma suposta confusão babilônica, um novo
pentecostes. Gerava, sim um abrigo contra "excessos" de violência
estrutural ("sistema colonial") ou individual, pago com a perda da
liberdade e da diversidade dos povos indígenas. Cenário 5: Mundo às avessas
Ao atravessar o Equador com 44
companheiros, no dia 22 de fevereiro de 1691, o jesuíta Antônio Sepp anota em
sua carta-diário “Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos”[8]:
“Costuma-se mudar tudo sobre o equador. A água apodrece, a carne fica
fedorenta, morrem percevejos, pulgas e outra bicharia.” A agulha magnética da
bússola, porém, não se desloca. Ela continua apontando “fiel e exatamente para a Estrela Polar. A diferença está toda em nós
mesmos, que precisamos modificar nosso conceito. Quando é meio-dia na Europa, é
meia-noite aqui entre nós. (...) O vento norte gélido da Europa é aqui bem
morno. Tudo às avessas. (...) Em dezembro e janeiro, quando na Europa tudo
gela, comemos figos e colhemos lírios. Numa palavra, tudo aqui é diferente, e
está a cunhar a expressão, chamando a América de ‘mundo às avessas’. (...) No
dia 28 de fevereiro entramos para o jejum quaresmal, aliás de acordo com o
calendário, e não com a realidade.” Como organizar calendários
supostamente universais de acordo com a realidade, ao mesmo tempo cosmológica e
local? Como aprender que o “mundo às avessas” é um mundo culturalmente
diferente que participa de um universalismo moral com toda a humanidade (Kant)?
Como transformar o imaginário do visitante para que caiba nele o “bárbaro” como
outro e o outro como irmão? Como potencializar a sabedoria dos contextos para
que o mundo globalizado não ameace a sua identidade, mas fortaleça suas raízes
e amplie seus horizontes? Não se trata aqui de uma oposição entre “tradicional”
e “moderno”, mas entre alteridade hegemônica com fantasias de universalidade e
alteridade cooperativa que tem consciência dos seus limites regionais. A
ideologia dominante, hoje é contestada por causas que lutam contra o monopólio
e a hegemonia, como o feminismo, o comunitarismo e o pos-modernismo, as lutas
indígenas e afro-americanas, as causas das minorias étnicas e das maiorias
sociais marginalizadas ou excluídas. Cenário 6: Exclusividade do poder
Os missionários que atuavam na
microestrutura tentavam reproduzir a constelação do uno que representa o
todo. Em nome da "salvação integral" lutavam pelo poder total,
chamado policía mixta[9]
(poder temporal e espiritual) e pela reconstrução do mundo no singular. "Por ser esta gente tan mísera y baja,
que si con ellos no se tiene toda autoridad, no se tiene ninguna; y si no los
tienen muy debajo de la mano y subjetos, no hay mano para con ellos",
escreve Gerónimo de Mendieta a Francisco de Bustamante, comissário geral dos franciscanos
nas Índias.[10] Os motivos para a reivindicação
do poder espiritual e temporal pelos religiosos eram nobres: proteção dos
índios da cobiça do conquistador e colonizador. Em certas circunstâncias
históricas poder-se-ia delegar o poder ao braço secular; nunca, porém,
poder-se-ia repartir este poder com o Estado, com os conquistados ou com os
quadros subordinados da própria Igreja, representados, aos olhos da hierarquia
nascente, pelos religiosos. Estes alegavam, perante os bispos, o direito do
primogênito das Américas e o poder de privilégios papais bem circunscritos no
Breve Exponi nobis, de 1522, logo chamado de "bula Omnimoda".[11]
A reconstrução de um mundo no singular com uma origem única exclui também a
possibilidade da repartição do poder no interior da Igreja. Na cristandade, a
reivindicação de “participação interna” na Igreja significava desrespeito da
ordem divina. II. Perspectivas de diálogo: Tikal e Roma
Tikal,
um complexo de pirâmides dos povos maya, na Guatemala, simboliza, neste
contexto, a causa indígena
que se procura articular na Teologia Índia; Roma
está para o discurso institucional do cristianismo em sua vertente católica
oficial. “Tikal” realizou na cidade de Asunción, no Paraguai, de 6 a 10 de
maio de 2002, o “4o Encontro Ecumênico Latino-americano de Teologia Índia”. Os
170 participantes deste Encontro eram em sua maioria indígenas procedentes de
45 povos diferentes e enraizados, além de suas
culturas, em diferentes Igrejas cristãs. O tema do evento, “Em
busca da Terra sem Mal”, permitiu aos participantes trabalhar as diferentes
utopias contidas em seus mitos. Resumiram sua visão desta maneira: “A Palavra Antiga, palavra de nossos antepassados, que nos acompanham
no presente, o mito, é uma palavra carregada de sonhos e esperança, que orienta
o caminhar de nossos povos à Terra sem Mal, à Terra Florida. Da terra nos vem o
alimento, dela brotam as ervas que nos curam, dela brota a água que nos dá
vida, ela é a Mãe das árvores e das pedras e da humanidade e de todos os seres.
Segundo nossas tradições o que a terras nos dá está destinado a toda a
humanidade, na economia da reciprocidade.”[12] Sob o olhar crítico de suas
igrejas, os índios enfatizaram, sobretudo em textos publicados, a continuidade
e complementaridade entre suas tradições e o cristianismo, entre sua cultura
oral e a cultura letrada, entre a lógica mítico-simbólica e a lógica ocidental.
Os índios avaliaram a atuação de suas igrejas não por seus enunciados
essencialistas, mas pela sua competência vivencial. “Se as crenças e a fé se
orientam à vida desde dentro, desde o coração”, então não têm dificuldades em
ser índio e cristão”, afirmaram. “Nesta orientação para a vida é que os mitos,
ritos e símbolos indígenas dialogam com a proposta de suas igrejas.” Os índios
descreveram seu 4o Encontro de Teologia Índia como um novo Pentecostes: Nestes
dias “pessoas de todas as raças, línguas e nações se sentaram juntos como
irmãos na mesa comum, dando glória ao Deus da criação, da infinita gratuidade,
da salvação universal que é o mesmo Deus de Jesus Cristo.” A aparente harmonia dos
pronunciamentos e documentos deste 4o Encontro, esconde o conflito causado pela
apropriação de um instrumento, chamado “teologia”, que é controlado por
instâncias do governo central da Igreja Católica. Na Reunião Plenária da
Pontifícia Comissão para América Latina, de 20 a 23 de março de 2001, na Cidade
do Vaticano, o Presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde, o
arcebispo emérito de Zacatecas, México, Javier Lozano Barragán, deu – desde o
magistério romano - um quadro geral sobre autores, métodos, tipos e pontos
nevrálgicos da Teologia Índia.[13]
Entre as diferentes objeções contra essa reflexão teológica dos povos indígenas
se entrelaçam questões formais (mito x logos), questões de autoria (teólogos x
povos indígenas) e questões doutrinárias propriamente ditas. 1. O mito Uma Teologia Índia, que
recorre ao mito, dizem algumas autoridades eclesiásticas, seria mitologia, não
teologia. A superação do mito (grego, romano, germânico) teria sido a grande
vitória do logos, compreendendo o mito como uma fase pré-racional na
evolução humana. Mas, o mito dos povos indígenas já passou pelo esclarecimento
moderno que o resgatou do fundamentalismo. O mito indígena, no início do século
XXI, tem a força de metáfora e sonho. Quando os índios da Taraumara, por
exemplo, interpretam a “cobra devoradora” como “neoliberalismo” que sacrifica
os pobres, fazem do mito um uso histórico-político. Lévi-Strauss chama a
atenção de um fenômeno importante: “Se nas sociedades sem escrita os conhecimentos
positivos estavam muito aquém dos poderes da imaginação e cabia aos mitos
preencher esse espaço, nossa própria sociedade se encontra na situação inversa
(...) que leva aos mesmo resultado. Entre nós, os conhecimentos positivos transbordam
de tal forma os poderes da imaginação que esta, incapaz de compreender o mundo
cuja existência lhe é revelada, tem como único recurso voltar-se para o mito.
Em outras palavras, entre o especialista que atinge pelo cálculo uma realidade
inimaginável e o público ávido de captar algo dessa realidade cuja evidência
matemática desmente todos os dados da intuição sensível, o pensamento mítico
volta a ser um intercessor, único meio para os físicos de se comunicar com os
não-físicos.”[14]
O mundo quântico é um
mundo real, mesmo se ainda não encontrou uma linguagem comum. A própria ciência
propõe o mito como uma ponte para a compreensão da realidade, quando nos fala
do complexo de Édipo, do “gato” de Schrödinger, ou do big bang. “Do modo
mais inesperado, é o diálogo com a ciência que torna o pensamento mítico
novamente atual”[15],
adverte Levi-Strauss. 2. Os autores O discurso da Teologia
Índia, enquanto teologia cristã, não é, segundo certas instâncias eclesiásticas,
um discurso dos índios, mas de teólogos que procuram ressuscitar a Teologia da
Libertação, considerada morta desde 1989. É óbvio que um discurso que envolve o
projeto de um povo não pode separar o discurso de libertação do discurso de
redenção. Ambos os discursos – ancorados na memória histórica dos respectivos
povos, na luta por seus territórios, na articulação de suas organizações e na
defesa de seu projeto de vida e na organização de suas esperanças – têm
dimensões políticas. O discurso dos povos indígenas não é pré-moderno, nem
simplesmente moderno ou pós-moderno, mas integral (holístico). A festa vale
mais que o trabalho. Não existia, entre os Guarani, a palavra “pecado” nem a
palavra “fome” entre os Aymara. Enquanto o discurso indígena aponta para um
projeto holístico no interior de uma evolução histórica, o discurso de setores
céticos, frente à capacidade dos povos indígenas, aponta para um projeto
identidário sem evolução. Esse discurso dispensa o outro para seu
auto-conhecimento. Seu problema de fundo não é o pluralismo, mas a alteridade. Cabe a pergunta: Porque os
índios estão se apropriando de uma arma tão perigosa, como a teologia?
Certamente, a teologia é uma plataforma de afirmação étnica no interior das
igrejas. Ela é relevante sob o aspecto da inculturação e do diálogo
inter-religioso porque rompe com modelos de adaptação e assimilação. Se o
projeto de vida dos povos indígenas não pode ser terceirizado, tampouco a sua
reflexão teológica sobre suas práticas - onde o religioso e o político ainda
convivem num holismo original - pode ser simplesmente assumida de outras
experiências históricas. A Teologia Índia é uma teologia
dos povos indígenas? Certamente é mais indígena do que a teologia colonial e
“moderna” que a precedeu, e certamente é mais indígena do que a teologia que
pretende substituí-la. Tikal não dispensa Atenas, mas também Atenas e Roma não
podem insistir na irrelevância de Tikal para a produção teológica. 3. A doutrina As grandes objeções
contra a Teologia Índia ajudarão, a longo prazo, a auto-compreensão do
cristianismo em seu conjunto. Trata-se da questão - da “história da
salvação”, desligada da história concreta dos povos, - da “revelação” fechada
com a morte do último apóstolo, - da mediação exclusiva
e universal da salvação em Jesus Cristo. No diálogo
inter-religioso ninguém precisa “sacrificar” as suas razões em benefício das razões
de uma outra religião. Ninguém é obrigado a renunciar à própria experiência e
tradição. O diálogo acontece num âmbito de auto-estima, de tolerância e
aprendizado, não de conversão. Um exemplo deste diálogo religioso possível era
o encontro de múltiplas religiões em Assis, onde o catolicismo tradicionalmente
é hegemônico. As religiões, como mostra o “Decálogo de Assis para a Paz”[16],
assinado por representantes Sikh da Índia e diversas religiões tradicionais da
África, por representantes do Cristianismo, do Islã, do Budismo, do Hinduísmo,
do Confucionismo, do Zoroastrismo e do Jansenismo, estão, segundo seus
princípios, unidas contra a violência e o terrorismo ad extra (contra
terceiros) quando condenam “qualquer recurso à violência e à guerra em nome de Deus
ou da religião”. Mas, nem sempre conseguem secar o lago da violência de setores
fundamentalistas nas próprias fileiras. A possibilidade do
diálogo inter-religioso com os povos indígenas exige transformações estruturais
das igrejas. Um novo modelo eclesial que passou pelas aporias da
prémodernidade, da modernidade e da pósmodernidade vai definir – na contra-mão
do respectivo espírito da época - seu projeto a partir dos pobres e dos outros,
da comunidade e do caminho. Na conversão através da passagem pelas realidades
concretas dos povos surguirão igrejas que brilham pela leveza de suas
estruturas e pela competência de suas leituras da alteridade. [1] Publicado in: Vida y Pensamiento, San José,
Costa Rica, v. 22, n. 2, p. 93-109, Segundo Semestre 2002. [2]
Anhangüera significa Diabo Velho, nome dado pelos índios ao bandeirante
Bartolomeu Bueno da Silva. [3] Cf. J. Habermas,
La unidad de la razón en la multiplicidad de sus voces, in IDEM, Pensamiento
postmetafísico. Madrid: Taurus, 1990, p. 155-187. [4] S.
CASTRO (ed.), A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM, 1985, p. 95. [5] Ibidem,
p. 96. [6] Cf. Porantim XXII/225 (Maio 2000): 18. [7]. J. de
ACOSTA, De procuranda indorum salute. In: Obras del padre José de
Acosta. Madrid: Atlas
(B.A.E. 73), 1954, p. 399 (liv. 1, cap. 2). [8] A. SEPP,
Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos. Belo Horizonte/São
Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1980, p. 73, 82, 85. [9]. Cf. V. de QUIROGA, Información en derecho
(1535). México: Secretaría de Educación Pública, 1985, p. 175s. [10]. Carta del padre Fray Gerónimo de Mendieta (1562). In:
J. GARCÍA ICAZBALCETA, Coleccion de documentos para la historia de México.
Vol.
2, México: Porrúa, 1980, p. 519. - Tb. integralmente em port. in: P. SUESS, A
conquista espiritual da América Espanhola. 200 documentos – século XVI.
Petrópolis: Vozes, 1992, p. 884-903, aqui 887 (Doc. 184). [11]. Cf. P. TORRES, La bula Omnimoda de Adriano VI. Madrid:
Instituto Santo Toribio de Mogrovejo/C.S.I.C. (Bibl. "Missionalia
Hispanica"), 1948. O breve Exponi nobis, mais conhecido como "bula
Omnimoda", concedeu extraordinários poderes espirituais às ordens
mendicantes, poderes que logo causaram conflitos com os respectivos prelados. -
Texto integral em port. in: P. SUESS, A conquista espiritual da América
Espanhola, l.c. p. 256-258 (Doc. 36). [12] Mensagem
Final. Os documentos do 4o Encontro Ecumênico Latino-americano de Teologia
Índia encontram-se na seguinte home-page: www.missiologia.org.br [13] Cf.
PONTICÍCIA COMISSÃO PARA AMÉRICA LATINA. Reunião Plenária, Cidade do Vaticano,
20 – 23.2001, Actas. Realidades,
problemas, perspectivas o propuestas pastorales en orden a la Nueva
Evangelización, a la luz de la Exhortación Apostólica ‘Ecclesia in America’. Ciudad
del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2001, p. 159-175 (La teología india)
e p. 308 (Conclusión n. 3). [14]
LÉVI-STRAUSS, Claude, História de lince, São Paulo: Companhia Das
Letras, 1993, p. 10 [15] Ibidem,
p. 12. [16] Cf. Home-page
da Santa Sé (www.vatican.va). |
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