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CIMI 30 ANOS – CONTEXTO, ORIGEM, INSPIRAÇÃO[1] “É bom que tenhais participado na minha festa. Assim deve ser, pois os
nossos antepassados disseram: ‘A vossa vida é fraca e vós não podeis ser
fortificados a não ser pelo conselho dos bravos’. Vocês aconselharam-me... Isso
para mim é vida”. (M. Mauss, Ensaio sobre a dádiva, p. 192). I. No
oitavo ano da ditadura militar no Brasil, cinco anos depois da extinção do
Serviço de Proteção aos Índios (SPI) por corrupção, sadismo e massacres de
tribos inteiras a dinamite, metralhadoras e açúcar misturado com arsênio
branco, quatro anos depois de Medellín e do Ato Institucional n. 5, três anos
depois de Neil Armstrong pisar no solo da Lua, no terceiro ano do terceiro
general-presidente, Emílio Garrastazu Médici, no período mais repressivo da
história do Brasil, e um ano depois das denúncias do “espírito faraônico das
missões”, pelos antropólogos de Barbados I, na véspera da denúncia de uma
“Biafra brasileira” no Vale do Guaporé, onde toda a população nambiquara menor
de 15 anos morreu de sarampo, naquele ano de 1972 -
quando os Estados Unidos retiram as suas tropas do Vietnam, -
quando o presidente Sadat, do Egito, ordenou a saída imediata de todos os
conselheiros e técnicos militares soviéticos de seu país, -
quando em Estocolmo se realiza a Primeira Conferência do Meio Ambiente, -
quando o conflito do Oriente Médio alcança os Jogos Olímpicos, em Munique, onde
oito palestinos fazem 11 reféns entre os integrantes da comitiva de Israel,
exigindo a libertação de 200 Feddayns, presos em Telaviv (11 reféns e cinco
palestinos mortos), naquele ano de 1972 -
quando a Doutrina da Segurança Nacional dos Estados Unidos criou uma
insegurança total na América Latina, -
quando se inicia no Brasil a construção da usina nuclear Angra I, -
quando a Transamazônica (BR 230) que vai destruir 29 territórios indígenas, é
inaugurada e celebrada como símbolo do desenvolvimento (investimento de 500
milhões de dólares emprestados!) e do “milagre brasileiro” (27.8.), - quando
Emerson Fittipaldi é o campeão mundial da Fórmula 1, e o Palmeiras campeão
brasileiro de futebol, naquele ano de 1972 -
quando o governo brasileiro criou a Telebrás, lembrando o Patrono das
Comunicações no Brasil, o Marechal Rondon, fundador do Serviço de Proteção aos
Índios (SPI), -
quando a TV brasileira passa a transmitir suas imagens censuradas em cores, -
quando, oficialmente, morreram 38 jovens brasileiros, barbaramente torturados
nos porões da ditadura, -
quando o Exército Brasileiro chega à região do Araguaia (PA) para combater
supostos guerrilheiros (12.4.), - um
dia depois de chegarem os restos mortais de Dom Pedro I ao Brasil, naquele ano de 1972 um
pequeno grupo de 25 missionários e missionárias, convocados pelo secretário
geral da CNBB, D. Ivo Lorscheiter, se reúne em Brasília para discutir o projeto
de Lei n. 2328 que tramitava na Câmara e dispunha sobre o Estatuto do Índio. Este
grupo se constituiu em “Conselho”, oficiosamente ligado à CNBB, “com o fim de
ser centro coordenador das atividades dos missionários que labutam entre os
índios (sempre muito pretensioso e patético, este Cimi!). Será finalidade deste
Conselho: -
promover a pastoral missionária, -
dar assistência jurídica aos missionários, -
promover sua formação teológica e antropológica, -
criar o espírito missionário na população brasileira, -
promover o relacionamento com a CNBB, com os órgãos governamentais, mormente
com a Funai, e dos missionários entre si (...).” Assim
reza a primeira ata, escrita a 23 de abril de 1972, por D. Geraldo de Proença
Sigaud, então bispo de Diamantina (MG), e assinada por outros 25 participantes,
entre eles os bispos Ivo Lorscheiter, Henrique Froehlich, Luís Gomes de Arruda,
Eurico Kräutler, Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Estevão Cardoso de Avelar,
e os missionários Tomás de Aquino e Sílvia Wewering. Foi o nascimento do Cimi,
dez anos depois do início do Vaticano II, e quatro anos depois de Medellín. II. Os 30 anos do Cimi devem ser vistos no contexto de uma
constelação de vários jubileus: 500 anos de conquista, 40 anos do início do
Concílio Vaticano II e quase 35 anos de Medellín. Perguntado sobre o
significado do Concílio, João XXIII abriu, num gesto simbólico, as janelas do
seu quarto. Os padres conciliares entenderam este gesto e rejeitaram, logo no
início do Concílio, todos os esquemas preparados pela Cúria Romana. A coragem
dos bispos resgatou a coragem espiritual que fervilhava no interior do povo de
Deus; a coragem do movimento litúrgico e do movimento dos padres operários, a
opção pelos pobres de um Abbé Pierre (hoje com 90 anos!), fundador do movimento
dos maltrapilhos-construtores de Emmaús; resgatou a opção pelos operários de um
José Cardijn, fundador da Juventude Operária Católica (JOC) e da Ação Católica,
em 1925, com seu método da “revisão de vida” (ver, julgar, agir), e a opção
pelos outros, de um Charles de Foucauld (1858-1916). O
Vaticano II autorizou e estimulou um novo olhar sobre a história, o mundo
moderno e a realidade social. A partir deste olhar aberto para a realidade, a atividade
missionária tomou novos rumos no interior de uma Igreja que se tornou cada vez
mais Igreja local e mundial. A pastoral indigenista do Cimi
se apropriou destes eixos da localidade e da mundialidade,
através dos paradigmas da inculturação
e da libertação. O novo olhar sobre a
realidade fez o Cimi procurar, contar e reunir os sobreviventes de uma guerra
prolongada de extermínio, de 500 anos. Identificou forças pro-índio e forças
anti-indígenas no Brasil e na América Latina. O paradigma da inculturação gerou uma nova presença nas
aldeias que permitiu valorizar a realidade histórica. A partir de uma nova
ética profissional, @s missionári@s começaram a
aprender línguas indígenas e compreender as diferenças culturais, não na
perspectiva pós-moderna, fechada em colméias, mas com seus desdobramentos em
articulações específicas no campo de pastoral, saúde e educação. O paradigma da libertação
deu à questão indígena os contornos de uma “causa”, cujos horizontes são
universais e, portanto, partilhados com outras causas. Desde seu começo, o Cimi
costurou alianças, com outros setores da sociedade brasileira, que soube
distinguir de parcerias vinculadas a interesses oportunistas. Impulsionou
articulações latino-americanas e teceu uma rede de solidariedade internacional.
A inserção da Igreja do Vaticano II no mundo moderno
colocou o Cimi frente à questão da subjetividade.
Quem é esta Igreja que se definiu “povo de Deus”? Qual é a relação entre
destinatários e sujeitos da missão? Pode-se ainda manter essa distinção entre
objeto (destinatário) e sujeito (missionário) da atividade missionária? Seguindo a opção pelos pobres, de Medellín (1968) e Puebla
(1979), o Cimi delineou, em suas prioridades pastorais, a opção pelos povos
indígenas através do paradigma da autodeterminação
ou, mais tarde, pelo protagonismo dos
povos indígenas. Mais de uma década antes da Constituição de 1988, o Cimi
refutou o “regime de tutela” ao qual o Estado brasileiro submeteu os povos
indígenas, denunciou a hegemonia dos impérios e o paternalismo das elites. Durante a ditadura militar, o Cimi foi considerado um
refúgio de resistência. Os seus amigos o apontaram como a “voz dos sem voz”.
Muito cedo, porém, @s missionári@s do Cimi aprenderam a não confundir a sua
própria voz profética em defesa dos povos indígenas (veja, por exemplo, os
documento Y-Juca-Pirama, de 1973, os Documentos Finais das Assembléias,
o Porantim), com a voz dos povos indígenas. Estes encontraram em suas
Assembléias – a primeira realizada em Diamantino/MT, em 1974 - um instrumento
coletivo para a denúncia de sua situação colonial e a articulação de seu
projeto. Sempre, quando a política indigenista oficial deu novos sinais de
continuísmo colonial, o Cimi convocou uma Assembléia dos povos indígenas. Assim
aconteceu frente ao projeto da “emancipação”, em 1976, da “estadualização”, em
1980, na preparação da Constituinte e no debate dos “outros 500”. No interior das Igrejas, o protagonismo dos povos
indígenas até hoje não é pacífico. Forjou um debate em torno do “povo de Deus
indígena”, da possibilidade e configuração de uma “Igreja indígena” e “Teologia
Índia”. “Porque”, alguém perguntou, “os índios estão se apropriando de uma arma
tão perigosa, como a teologia?” Mas, o que não é perigoso para os povos
indígenas na convivência com a sociedade nacional? A democracia de Brasília é
perigosa. O exercício de um mandato político é perigoso. Um cargo na Funai é
perigoso. Também a ordenação sacerdotal de um índio e a canonização de outro,
na Igreja Católica, podem ser perigosas. Os jovens militantes se perguntam:
“Devemos atravessar ‘o sistema’ ou combatê-lo de fora?” Tudo que o Estado e a
Igreja oferecem aos povos indígenas pode se tornar um instrumento de cooptação
e uma brecha de libertação. Certamente, a teologia pode ser uma plataforma de
afirmação étnica no interior das igrejas. Ela é relevante sob o aspecto da
inculturação e do diálogo inter-religioso porque rompe com modelos importados
de assimilação. A bandeira do protagonismo dos povos indígenas é o protesto
contra qualquer tentativa de terceirização do seu projeto. É óbvio que a sua
prática religiosa e reflexão teológica não podem ser simplesmente assumidas ou
copiadas a partir da experiência histórica de outros povos. A proximidade aos povos indígenas (inculturação), a universalidade
de sua causa (libertação) e seu protagonismo como sujeitos históricos
(subjetividade) – eis o tripé que permanece o fundamento da pastoral do Cimi.
Estes três eixos da nova prática missionária colocaram o Cimi, permanentemente,
em zonas de conflito. É o conflito no “mundo dos privilegiados” pela
distribuição da terra, do capital e das oportunidades, no mundo da monocultura
e dos predadores do meio-ambiente, no mundo da voz hegemônica do anti-projeto e
do pós-tudo”. Neste mundo, a flexibilização total – ascender uma vela para Deus
e outra para o diabo - se torna o fundamento de uma nova moral ou, melhor, de
uma amoral de ação. A inculturação que por um momento encontrou uma grande
receptividade eclesial, hoje, começa a ceder território ao paradigma da
transculturalidade sem fundamento evangélico e sem compromisso com o respectivo
povo. Assistimos, nos últimos anos, um grande esforço para desmontar o
significado do paradigma da libertação e enterrá-lo na vala comum da geração
pós68, do tempo pós89 (queda do muro de Berlim) e pós-utópico. Emergiu uma
parceria entre pré- e pós-modernos. Os adeptos do fundamentalismo pré-moderno
dispensam o outro para seu auto-conhecimento, aprisionam a missão em suas obras
e reduzem o projeto missionário à “salvação de almas”. A indiferença
pós-moderna substitui o “projeto” por sua representação e encenação (show e
marketing!). Diante o abraço entre o fundamentalismo pré-moderno e a
indiferença pós-moderna, o Cimi, com sua fé na causa dos povos indígenas, com
sua visão da história e da realidade e com seu horizonte evangélico, semeou
vento e colheu tempestades – 30 anos. III. Luta e luto. Assassinatos, CPI’s, cobranças, por vezes
ingênuas, por vezes justas, no interior das Igrejas, denúncias maliciosas pelos
representantes políticos do latifúndio. Estivemos presentes no enterro de Simão
Bororo e Rudolfo Lunkenbein, primeiros Conselheiros do Cimi, que cumpriram sua
Missão martirizados, lutando pela terra, defendendo a vida (15.7.1976).
Acompanhamos Marçal Tupã’i Guarani, neste encontro histórico com o Papa João
Paulo II, em Manaus (1980), e choramos, três anos mais tarde, seu assassinato
(25.11.1983) na sua aldeia de Campestre (MS). Testemunhamos e lutamos, nos
Tribunais de Justiça, para que a voz dos nossos companheiros tombados,
indígenas e missionários não-indígenas, não fosse calada. Encontramos os restos
mortais de Vicente Cañas, missionário junto aos Enawenê-Nawê (MT), um mês
depois de ter sido barbaramente assassinado por madeireiros (6.4.1987).
Estivemos, naquela madrugada fria no Hospital Regional da Asa Norte, de
Brasília, com Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe, índio queimado vivo numa parada de
ônibus (20.4.1997). Acompanhamos os rituais de sepultamento de Chicão Xucuru,
na aldeia Pedra D’Água (PE), assassinado por causa de sua luta pela recuperação
da terra do seu povo (20.5.1098). Mas, os ossos ressequidos dos oprimidos se revestem,
novamente, com carne. Os povos indígenas preparam suas naus em Porto Seguro e
Porto Alegre para sair em alto mar. As delegações indígenas que vêm ao
Congresso dos 30 anos do Cimi, não vêm, como os magos do Oriente, ao presépio.
Estão de passagem por nossa festa. Nos fazem lembrar que a missão a partir das
“fortificações” e das “fortalezas” acabou. Nos advertem para a difícil passagem
do ter para o ser. Não temos mais missões, mas somos missionári@s que, nestes 30 anos, abriram
janelas, derrubaram muros, mexeram com a cerca do latifúndio. Nossa bagagem
tornou-se mais leve. A hora é favorável para sair novamente em alto mar e para
acompanhar os povos indígenas na travessia. Depois
de 20 anos de convivência das Irmãzinhas de Jesus de Charles de Foucauld com o
povo Tapirapé, no rio Araguaia, no oitavo ano da ditadura militar no Brasil,
cinco anos depois da extinção do SPI por corrupção, sadismo e massacres a
dinamite e metralhadoras, quatro anos depois de Medellín, na véspera da
denúncia de uma “Biafra brasileira” no Vale do Guaporé dos Nambiquara, no
terceiro ano do terceiro general-presidente, Emílio Garrastazu Médici, no
período mais repressivo da história do Brasil, naquele ano de 1972 25
missionárias e missionários se reuniram em Brasília, seguidos por uma multidão
de testemunhas “da grande aflição” (cf. Apc 7,14). Não participaram da corrida
aos diplomas, nem acumularam títulos para sustentar sua auto-estima ou ter
êxito social. Fizeram de sua vida uma marcha de solidariedade. Lançaram
sementes de esperança e forjaram a possibilidade de vida nova pelas demarcações
de territórios e a abertura de horizontes. E
nós, “doces bárbaros” que tantas vezes derrubamos o império, orgulhosamente,
podemos dizer que participamos desta marcha. Assistimos o ressurgimento de
muitos povos dos seus esconderijos no campo e na cidade. Pularam das molduras
de quadros exóticos e das vitrinas do museu ao centro da história onde
desafiaram e desafiam a civilização do desperdício e da desigualdade que esgota
o planeta, as pessoas e o sentido da vida. Desafiaram,
como a própria modernidade, nossos conceitos obsoletos de evangelização. Não há
uma reconciliação light e fast, como Santo Domingo e Porto Seguro
procuraram ensaiar. Como o evolucionismo pósDarwin, a física quântica e a nova
cosmologia, os povos indígenas esvaziaram nossas antigas metáforas, como “céu”,
“inferno”, “pecado original” e nossa própria “imagem de Deus”. A convivência
com os índios nos fez repensar conceitos, categorias e métodos. Através da
nossa convivência e na nossa relação evangelizadora com os povos indígenas
percebemos que tudo é e será diferente: O valor das coisas, do tempo, do espaço
e o sentido da vida. Muitas vezes sentimos, no meio dos povos indígenas, a
presença de Deus e a verdade profética da palavra de S. Paulo (cf. Is. 52,15):
“Vê-lo-ão aqueles a quem não foi anunciado, e conhecê-lo-ão aqueles que dele
não ouviram falar” (Ro 15,21). Ao defender os projetos históricos dos povos
indígenas, redescobrimos o Deus da Bíblia, que faz Aliança com os pobres; o
Deus, cuja justiça favorece as vítimas; o Deus do despojamento e da gratuidade,
da proximidade e da libertação. No mundo de hoje não basta ser “crente”.
Precisamos ser acreditáveis! Ao fazer o sonho do Reino, historicamente,
relevante para a causa dos povos indígenas, o Cimi contextualizou o Vaticano II
e contribuiu para a credibilidade da Igreja no Brasil e no mundo. |
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