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CAUSA INDÍGENA E FÓRUM
SOCIAL MUNDIAL 2003[1] de Paulo Suess 1. Lógica de acumulação A lógica do capitalismo é a
lógica de acumulação. Acumulação significa: tudo o que se produz é para poucos,
distribuído numa rede de privilégios, prestígio e poder. O regime de acumulação
subordina todos os projetos populares e os projetos indígenas a esta lógica. A
lógica de acumulação, portanto, é uma lógica de subordinação, de exclusão e de
eliminação (massacres). É a lógica dos “acumuladores”, do latifúndio. O projeto
popular e os projetos dos povos indígenas estão cercados por quatro
latifúndios: - pelo latifúndio da terra, - pelo latifúndio do capital
financeiro, - pelo latifúndio dos meios
de comunicação, - pelo
latifúndio do saber (20 milhões de analfabetos). A lógica da acumulação, como
lógica da subordinação, subordina (e suborna) a política e a polícia, a cultura
e a religião. 2. Religião civil americana Como funciona esta subordinação
neoliberal no campo da religião? A
providência divina, neste mundo desencantado e secularizado, escolhe seus
instrumentos, que são os vencedores no campo material (os que conseguiram
acumular). A acumulação acompanha o sentimento triunfal de uma escolha
providencial que o indivíduo ou a Nação assumem. Neste momento histórico, o
poder hegemônico, os Estados Unidos, vestem esta camisa da escolha
providencial, através de uma espécie de “religião civil americana” que garante
uma escolha de Deus e uma missão providencial. Nesta base funciona a parceria
entre Estados Unidos e Israel, funciona a guerra no Iraque, no Afeganistão, em
qualquer parte do mundo. Como se trata de uma “guerra santa”, cujos heróis são
ungidos, não com o óleo de crisma, mas com o petróleo, esta guerra não é só uma
guerra de defesa. É uma guerra apocalíptica, antecipatória da vitória final. Na
perspectiva desta lógica, Bush declara a guerra preventiva contra inimigos que
sempre estão perto das fontes do petróleo. Os crentes desta “religião
civil” se compreendem encarregados pela divina providência para trazer ao resto
da humanidade um determinado modelo civilizatório que corresponde ao plano de
Deus. Dois eixos caracterizam a “religião civil americana”: a democracia
liberal e the american way of life. No Oriente Médio, são os Estados
Unidos e Israel que agem como os executivos deste plano de Deus. Israel, o
antigo “povo escolhido por Deus” e os Estados Unidos, o “novo povo escolhido
por Deus”, se apresentam como os protagonistas da luta do bem contra o mal:
Bush e Sharom contra Jasser Arafat e Saddam Hussein. Os fundamentalistas da “religião
civil” têm uma visão dicotômica do mundo. A esquerda e o cristianismo têm uma
visão dialética da história e do mundo: o trigo se encontro no meio de joio. A “religião civil americana”,
com seus códigos religiosos secularizados de eleição e predestinação,
se tornou a ideologia de “guerra santa” para manter a hegemonia, para a
conquista do petróleo, para expulsar o povo da Palestina de sua terra e para
dominar o mundo. A hegemonia, com sua visão imperialista do mundo, é o
monopólio do poder, esse monopólio que dizem não aceitar na economia, onde
pregam e simulam a “livre concorrência”. 3. Micro-estrutura dos
territórios indígenas O que está acontecendo na
macro-estrutura, se repete na micro-estrutura dos territórios indígenas. A luta
antiimperialista está presente na guerra contra Afeganistão e contra o povo da Palestina, contra o MST e
no massacre de Carajás; está presente na perseguição dos povos indígenas e nas
lutas dos Zapatistas em Chiapas, nas ruas de Argentina e da Venezuela. A lógica da acumulação cria
vítimas, excluídos e massacres, como os assassinatos só deste mês de janeiro
mostram: - Marcos Veron, cacique
guarani-kaiová com 72 anos, que morreu 13 de janeiro, espancado em confronto
com peões na fazenda Brasília Sul, município de Juti (MS); - Leopoldo Crespo, Kaingang de
77 anos, morto a chutes por três rapazes em Miraguaí (RS), quando estava
dormindo em uma calçada, depois de um dia andando para buscar a sua
aposentadoria; - Aldo da Silva Mota, Makuxi com
52 anos, assassinado por dois tiros, e cujo corpo foi encontrado, dia 2 de
janeiro, a poucos metros de uma fazenda cujo dono é inimigo tradicional dos
makuxi, em Roraima. Na lógica do capitalismo, nesta
lógica da acumulação, com sua agravante neoliberal, não existe um lugar para os
povos indígenas, a não ser, como produtores para o mercado concorrencial. 4. Porque viemos a Porto Alegre? Viemos a Porto Alegre, não para
propor melhorias do sistema capitalista, numa perspectiva reformista,
social-democrata e neokeynesiana (mercado social) que aceita a lógica
capitalista em si. Estas melhoria, essas medidas compensatórias, prometidas por
10 anos, fracassaram. O antigo economista chefe do Banco Mundial, Joseph
Stiglitz, admite o fracasso de tudo aquilo que ele antes defendeu (cf. o dito
de FHC: “esqueçam o que escrevi antes!”). Num livro que ele publicou há poucos
meses, com o título significativo “A grande desilusão” propõe um novo consenso
“pós-Washington”. E o especulador-mor do capital financeiro, em nível mundial,
George Soros, lançou um livro, com um mea culpa a meio caminho, “A crise
do capitalismo mundial – O integrismo dos mercados”, onde ele propõe “salvar o
capitalismo do neoliberalismo”. Hoje, o Banco Mundial procura
cooptar as ONGs e as Igrejas com um discurso de “luta contra a pobreza”, mas, é
claro, sempre no interior do capitalismo. Por isso, propõe – com medidas
compensatórias - melhorias, correções – cestas básicas do capitalismo - e um
controle moderado pelo Estado. Para a
supressão do direito, para o roubo da terra, para a desterritorialização, para
o roubo do futuro e da palavra não existem medidas compensatórias. Podería-se
resumir essa estratégia das “medidas compensatórias”: “mudar para continuar”.
Assistimos um enquadramento sistêmico dos “rebeldes” e da rebeldia social pelos
aparelhos privados de hegemonia que atuam, por exemplo, através das grandes
ONGs na América Latina. O apelo a “medidas
compensatórias” (mini-cestas básicas para a população arrasada de Afeganistão),
diante da crise do capitalismo, é a variante soft, geralmente articulada
com a variante hard que é a exploração crescente da classe operária e
dos pequenos produtores, e a guerra. Neste momento de crise do capital, Bush
apela –como muitos antes dele já fizeram - à guerra. A guerra era, no passado,
o grande animador da economia mundial (inovação tecnológica!, reconstrução
daquilo que foi destruído). Nós viemos a Porto Alegre não
para mudar o visual do capitalismo. Viemos a Porto Alegre para dizer que o
desaparecimento do mundo bipolar, com a queda do Muro de Berlim (1989) e o
desaparecimento da antiga União Soviética não é o fim da história, nem o fim do
socialismo. Viemos a Porto Alegre para
dizer, o capitalismo não é o fim da história, mas uma parêntese. Nós do
movimento de apoio aos povos indígenas, viemos a Porto Alegre para procurar
aliados. Aliados, não parceiros. Parceria se faz até com o diabo. Parceria visa
o próprio lucro. Parcerias utilizam o outro para estabelecer o próprio projeto.
Por isso, cuidado com parcerias! Para o projeto popular e para os povos
indígenas, a burguesia não vai além de uma parceria utilitarista. Procurar
aliados significa procurar estabelecer alianças no interior do projeto
popular-indígena. Os aliados potenciais são todos aqueles que rejeitam a lógica
da acumulação. Por isso faço também às Igrejas
essa pergunta: Vocês são parceiros ou aliados dos povos indígenas? Vocês estão
dispostas a fechar esse parêntese do capitalismo, com todo seu irracionalismo
anti-evangélico e suas contradições ou estão contentos de estabelecer - no meio
da vida alienada, da desigualdade e da acumulação - ilhas de uma vida boa,
novas reduções espirituais e casas de caridade, no meio do mundo em chamas?
Essa pergunta aponta aos mais diferentes setores que convivem hoje no interior
das Igrejas. A contradição do capitalismo está também presente na casa de Deus.
Cada ação do sistema capitalista produz uma contradição não só no interior do
movimento popular, mas também no interior das Igrejas. Viemos a Porto Alegre para dizer
a todos que afirmam, como a senhora Thatcher insinuou, “uma alternativa não
existe”, viemos para dizer: uma, não, mas muitas alternativas existem e os
povos indígenas fazem parte deste outro mundo das alternativa que é possível: - pela visão da terra que têm,
não visando lucro, mas a festa - pela visão da vida, não
acumulação: o que tem valor: papagaio na casa em chamas - pela visão do outro, não é
cliente, nem concorrente, mas irmão e irmã, - pela visão da natureza, que é
irmã. 5. Uma outra visão da terra A terra representa o núcleo de
um outro modelo de vida. O movimento indígena e tudo o que acontece na aldeia
tem uma plus-valia pedagógica. Se a "retomada do sistema educacional"
pelos povos indígenas significa assumir a escola para construir uma sociedade
que não produz menores abandonados nem drogados, a retomada das terras
indígenas - além de ser uma vitória contra o latifúndio e a reparação de uma
injustiça - é um projeto pedagógico que mostra como "produzir para
viver" em vez de "viver para produzir". Em plena euforia de
desterritorialização do capital, vivemos uma reterritorialização emergente e
real a partir das retomadas das terras indígenas. Algo semelhante acontece com
o movimento dos sem-terra que representa a memória histórica da reforma agrária
negada. Num momento que relativiza a territorialidade pela virtualidade sem
solidariedade, o movimento popular retoma territórios geográficos, ideológicos
e imaginários e encrava seu logotipo “um mundo para todos” nas agendas
políticas. Os povos indígenas rompem,
ciclicamente, o círculo de giz da normalidade do absurdo. As retomadas de terra
são saídas das molduras com as quais os governantes colocaram os povos
indígenas na parede para comemorar seu passado e negar seu futuro. O pulo das
molduras do imaginário oficial à realidade histórica caracteriza a passagem da
tutela à autodeterminação.Saídas do
mundo-mercado globalizado ou, no caso de muitos povos indígenas, a não-entrada
nesse mundo, visam uma espécie de exterioridade
ao sistema hegemônico. Essa exterioridade aponta para transformações radicais
que resgatam a dimensão universal inerente a cada causa particular. Aponta para
a universalidade como participação de todos em contrapartida à globalização
excludente. Os povos indígenas vivem o que a
física quântica nos mostrou, recentemente. A vida é um monte de padrões de
probabilidades de conexões e relações. Essas probabilidades e possibilidades
não são probabilidades de coisas e, sim, são possibilidade de conexões e
relações. Uma partícula é, essencialmente, um conjunto de relações que se
estendem para se conectarem com outras partículas que são também conexões. A
natureza essencial da matéria (da terra) não está nos objetos e na sua
materialidade, mas nas relações de sua subjetividade material. 6. Sonho, rebeldia, rito de
iniciação Num sonho apareceram Kant, Freud
e Marx, numa fila diante da porta do céu, disputando sobre a possibilidade se
Deus existe atrás daquela porta. Não conseguiram um consenso. Kant achou que
Deus é uma instância ética superior; Freud achava que Deus é resultado de uma
projeção, causando neuroses, e Marx qualificou Deus como o dono do ópio, porque
a religião seria o ópio do povo. Na frente dos três se encontrava a sua
ex-empregada Maria. Chamaram a empregada e perguntaram a ela sobre a
possibilidade de Deus existir ou não. A empregada retrucou: “Tem nome?”
Disseram que sim. “Se tem nome, então existe”, respondeu a Maria. Estamos aqui, como num rito de
iniciação numa aldeia indígena. Neste rito, a criança recebe um nome. O pajé
dos Guarani recebe o nome da criança num sonho. Estamos aqui para dar o nome ao
“outro mundo que é possível” e assim afirmar a sua existência. Sonhamos com
muitos nomes, nesta noite do neoliberalismo. Alguns destes nomes são “paz”,
“aliança”, “solidariedade”, “resistência”, “articulação” e “esperança”. Estamos
aqui para continuar a marcha com novas inspirações. As marchas para Porto
Seguro e Porto Alegre foram ensaios para a marcha maior contra o império, um
gigante com pés de barro. Porto Alegre, 24.1.2003 [1] Texto
apresentado no FSM, Porto Alegre, na Oficina “Terra, território e autonomia
indígena”, no dia 24.1.2003. |
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