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Para uma antecipação das
utopias na Paulo
Suess 1. Em
seus sonhos a humanidade imagina tempos e territórios diferentes, melhores ou
até perfeitos. Esses territórios poderiam ser ilhas, como a “Utopia” de Thomas
Morus, cidades ideais, como a “Cidade do Sol”, do frade dominicano Tomás
Campanella ou um “Admirável Mundo Novo”, que Aldous Huxley
descreveu, não como ideal, mas como advertência. Hoje, propostas utópicas com
visões que apontam para horizontes além do capitalismo perderam sua
atratividade para os partidos de esquerda, seus tradicionais gestores. As
utopias se deslocaram para movimentos sociais ligados à questão da terra, como
o MST e o movimento indígena. A América Latina se urbaniza cada vez mais, mas
nas grandes cidades nasceram apenas alguns movimentos sociais reformistas, além
dos sindicatos que, faz tempo, se organizaram como pequenas empresas. As
inspirações para mudanças mais radicais vêm do campo. Lula e Stedile são
transitoriamente seus respectivos protagonistas. O sindicalista Lula nunca
entendeu, a fundo, a questão “terrá-território” indígena. Um sindicalista
entende de produção, mas entende também de pressão social, de greves, marchas e
povo na rua. 2. Semelhante
ao que ocorreu nos anos anteriores, também em 2005 o Fórum Social Mundial
configura uma peregrinação para a Meca dos sonhos perdidos, um must para
a esquerda mundial. Como as montadoras de carros, às vezes, são obrigadas a
fazer um recall desse ou daquele modelo que saiu da fábrica com falhas,
Porto Alegre é o recall dos sonhos e das utopias, alguns já arquivados,
outros com pouco prestígio, porém ainda em circulação, sonhos da eterna paz,
mundos sem violência, com cidadãos sujeitos de seus plenos direitos, ilhas sem
ameaças dos maremotos do mercado. Porto Alegre expressa a experiência coletiva
da necessidade antropológica de sonhar. Nessa experiência está incluída a
intuição difusa da necessidade de se fazer alguns reparos nos sonhos de ontem.
Os reparos se fazem necessários, por um lado, por causa de uma certa
incapacidade dos militantes de reconhecer os limites entre realidade histórica
e idealização infantil; por outro lado, por causa de um descuido metodológico
com a relação entre o caminhar e o chegar, entre meios e fins.
O sonho da chegada é importante, mas nunca o realizamos. A caminhada é a
antecipação da chegada. A chegada já está na própria caminhada. 3. Outrora,
para muitos que defenderam uma “causa” — a causa indígena ou a dos pobres, a
causa do Reino ou a causa do socialismo —, a chegada à sua realização parecia,
com muitos sacrifícios, historicamente possível. O porto do “bom fim” haveria
de ser o prêmio da caminhada. Muitos cemitérios estão dedicados a Nosso Senhor
do Bonfim. Na obsessão de chegar ao fim e a bons resultados, o céu não era só
dos mártires que sacrificaram sua vida, mas também dos que sacrificaram a vida
dos outros. A causa coletiva era considerada maior do que a vida do indivíduo,
e a vitória final mais importante do que o procedimento ético em todas as
etapas da caminhada. Não só no cristianismo, também no socialismo muitas
gerações se sacrificaram ou foram sacrificadas pela tirania dos fins, que
prometeu tempos melhores para depois da morte ou futuras gerações. 4. O recall
das utopias se refere à ética e aos métodos de sua construção. Às
vezes existe uma grande distância entre o modelo-horizonte de chegada e o
caminhar no cotidiano. As mudanças substanciais prometidas para o novo modelo
de sociedade não estão presentes na ética e nas relações que configuram o
dia-a-dia da caminhada. Concretamente dito: à sociedade fraterna como núcleo
utópico do Reino não correspondem geralmente as estruturas hierárquicas ou
burocráticas das igrejas. Também a sociedade sem classes ou a utopia socialista
dificilmente se reconhece nas brigas das elites partidárias e nas manipulações
de circuitos internos de influência. É preciso embutir a utopia da chegada na
própria caminhada do grupo, no cotidiano do aqui e agora, e no interior da
pessoa. A promessa do Reino é inacreditável se ela não está presente na vida
cotidiana. Esse é o significado do Evangelho quando diz: O Reino de Deus está
no meio de vós e dentro de vós (cf. Lc 17,21). 5. O
essencial da utopia não são novos paraísos, mas novas relações. Novas relações
têm dimensões estruturais e pessoais. Essas novas relações entre as pessoas e
entre tudo o que foi criado devem estar presentes no cotidiano de sua
construção. Ao aceitar o absurdo como mal inevitável para chegar a um final
feliz que dá, na retrospectiva, sentido à caminhada — no caso extremo, andando
sobre cadáveres, e no caso light, os velhos critérios seletivos,
hierarquias e corporativismos no interior dos movimentos —, não haverá sentido
final. Não haverá uma sociedade solidária e fraterna, sem solidariedade
embutida em cada instante de vida cotidiana, sem fraternidade em cada passo e
decisão da caminhada. 6. Novas
relações apontam para uma nova ética, que na práxis cotidiana pode antecipar a
vida verdadeira no meio da vida falsa. As estruturas antiutópicas do
capitalismo dificultam, porém, não impedem — por instantes de graça — a
realização das utopias. O primeiro passo fundamental dessa realização está na
construção e vivência de relações que, apesar de não serem perfeitas, não estão
em contradição flagrante às promessas das respectivas utopias. No meio das desigualdades discrepantes que fazem parte da lógica
neoliberal e no meio de um mundo concorrencial que produz em todos os níveis
competidores privilegiados, existe a possibilidade de viver
relampejos de gratuidade e fraternidade de um outro mundo realizável. 7. Cada
ação produz contradição. Isso não vale só pelas contradições do capitalismo,
mas também pelas contradições dos construtores de caminhos novos. Esses se
movem entre duas contradições fundamentais. Primeiramente, entre a negação de
qualquer colaboração com o sistema que atenta estruturalmente contra a vida dos
pobres, e as parcerias aparentemente vantajosas para ambas as partes que o
sistema oferece. Até onde podemos ou não podemos compactuar com os construtores
da vida falsa e com seus métodos? Segundo, entre o cultivo do trigo e a
eliminação da erva daninha. Não cultivamos o trigo junto com o joio, mas
sabemos que, ao querer arrancar o joio em sua totalidade do campo histórico, se
corre o perigo de um novo pensamento hegemônico, único, totalitário e
maniqueísta. Inquisição e cristandade eram algumas dessas tentativas de
eliminar o joio, o socialismo de Stalin e Pol Pot eram outras.
Existem variantes históricas, como o fundamentalismo, o racismo, o
nacionalismo, o imperialismo e o fascismo. 8. Ao
caminhar para Porto Alegre todos os setores carregam as suas utopias em vasos
de barro. Não adianta ter propostas bonitas, soluções definitivas e
politicamente corretas sem novas atitudes. Da convivência com movimentos
sociais, trago a lembrança de como é difícil abrir mão do corporativismo, da
hegemonia, da eficácia funcional e da lógica de custo-benefício. Estamos ainda
longe da transparência dos fins nos meios, nas pequenas práticas cotidianas, na
ética e no caminhar. A construção de um outro mundo possível passa pela
desconstrução de lógicas neoliberais que se encarnaram em atitudes,
desconstrução que passa pela ação ética, pela vigilância comunitária, pela
participação indígena e pela militância de todos que acreditam que um outro
mundo é possível. |
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