Dom da vida e a greve de fome

 

José Comblin


O que há no evangelho que pode nos iluminar a propósito dessa atitude? 

Jesus disse: "Quem quiser salvar sua vida perdê-la-á; mas quem perder sua vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á" (Mc 8,35) [1]. Jesus disse: "Se alguém quer vir em meu seguimento, renuncia a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mc 8,34). O que é a cruz? A cruz é a morte. Com a sua cruz Jesus vai para a morte. Seguir Jesus é caminhar atrás dele no mesmo caminho.

 

Jesus disse também: "Se alguém vier a mim sem me preferir ao seu pai, à sua mãe, à sua mulher, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14,26) [2].

 

Estas palavras dizem que há valores mais importantes do que a vida e que a vida não pode salvar-se a qualquer preço, como se fosse o valor absoluto. O próprio Jesus mostrou isso na sua vida. Na véspera da sua paixão, ele podia muito bem ter fugido, seguindo os conselhos dos seus discípulos. Bastavam alguns poucos dias de marcha e ele estava fora do alcance daqueles que o queriam matar. Ele teve que escolher: Fugir ou morrer. Os próprios evangelhos dizem que a tentação foi forte e a luta foi dura, mas ele resolveu ir ao encontro da morte. Sabia que iam matá-lo, e assim mesmo foi ao encontro da morte.

 

Dom Oscar Romero sabia, tinha a certeza de que iam matá-lo. No entanto, era fácil evitar a morte. Bastava tomar o avião e afastar-se do país. Assim o suplicavam os padres, os agentes de pastoral e até as autoridades eclesiásticas. Era muito fácil. Morreu porque quis. Ficou em San Salvador, sem se esconder. Ele se ofereceu à bala do atirador. Porque? Por causa do evangelho.

 

E quantos outros na história? Claro que na mesma situação a grande maioria faz a outra opção e foge. Já foi assim nos primeiro séculos. A grande maioria fugiu, se escondeu e escapou. Outros quiseram ficar e oferecer-se à cruz.

 

Claro está que a opção de Jesus é opção livre. A opção de seguir Jesus é livre.  Cada pessoa pode e deve escolher.

 

Como é que se apresenta a necessidade de fazer uma opção? Não há regras. Não existe um código do martírio. Porque tudo é pessoal e a circunstâncias históricas variam. Onde e quando se pode dizer que a causa do evangelho está comprometida?

 

Dom Oscar Romero achou que na matança e na opressão do seu povo o evangelho estava comprometido e que a fidelidade a Jesus exigia dele que tomasse a sua cruz. Tomou a sua cruz. Não ia ao encontro de um risco de morte. Era uma certeza. Assim como os primeiros cristãos que se negavam a oferecer incenso à imagem do imperador sabiam que isso era a morte.

 

As circunstâncias mudam. Hoje em dia em lugar nenhum se pede incenso para o presidente da república. No entanto, hoje em dia o grande ídolo é o dinheiro. Baixar a cabeça diante dos grandes bancos mundiais é idolatria. Com certeza vão aparecer mártires da luta contra o deus dinheiro.

 

De qualquer maneira não podemos colocar a vida como valor supremo e tudo subordinar à necessidade de salvar a vida. Podemos muito bem descobrir que em casos determinados a defesa dos direitos dos pobres justifica o sacrifício da vida. Quantos morreram porque desafiaram a polícia, os capangas do fazendeiro ou os pistoleiros contratados pelos poderosos?

 

O que pode nos estranhar, é a modalidade. Fazer greve de fome é diferente de colocar-se na frente do atirador para levar um tiro. A forma exterior é diferente, mas isso não muda a natureza moral do ato.

 

A greve de fome é um meio de ação social relativamente novo, mas destinado a um grande futuro na sociedade urbana de comunicação. Os dominadores dizem que a decisão tomada por um Congresso representa as opções da maioria da população porque os deputados são os representantes da nação. Porém, a experiência mostra que isso é pura ilusão. Os deputados não representam o povo, mas certas categorias de interesses. O que aconteceu na Europa, mostrou muito bem a ilusão do sistema chamado de representatividade como se as eleições fossem realmente um sistema democrático. A experiência mostra que os pobres não têm representação, e que os eleitos não levam em consideração nenhuma as expectativas dos eleitores. Quem ganha as eleições, é quem tem dinheiro, salvo poucas exceções. Então os pobres não têm voz.

 

Dizem que os conflitos devem resolver-se pelo diálogo e pelo debate. Ora, quem está presente nos debates? Intelectuais e representantes das classes dominantes. O povo está ausente de todos os diálogos e de todos os debates. Somente pode haver diálogo entre grupos de força igual. Ora os pobres não têm força nenhuma e os ricos têm todas as forças. Como pode haver um diálogo? Somente haverá diálogo quando os pobres tiverem uma força social suficiente e equivalente à força dos bancos, das multinacionais, das grandes empresas. Até lá o diálogo é engano.

 

Acontece que a greve de fome é um gesto destinado a despertar o povo. É quase a única maneira que um povo tem de mostrar a sua presença e de pressionar os poderosos. Todos os canais institucionais estão fechados. Para lembrar a sua existência aos poderosos os pobres precisam de sinais fortes. Sem esses sinais o medo é sempre mais forte.

 

Neste caso o governo conseguiu que o bispo desista da greve, pelo menos de modo provisório. Não creio que o bispo tenha muitas ilusões, mas ele fez um gesto de humildade procurando acreditar no governo. Mostrou assim que era uma pessoa profundamente pacífica. Mas ele é também uma pessoa comprometida.

 

A greve de fome é o último recurso quando não há mais recursos. A outra via é a violência como na Palestina e no Iraque. O bispo mostrou que tinha escolhido o caminho pacífico, o que merece admiração e gratidão. Haveria outro recurso? O Congresso? Os partidos? Os tribunais? Todas estas instituições escutam os clamores  do povo? Para o povo somente existem caminhos fora das instituições e fora das leis. As leis não foram feitas para lhes facilitar a expressão.

 

Sobre a história da greve de fome, conferir Gene Sharp, The Methods of Nonviolent Action, part II of The politics of nonviolent Action, Boston, 1973, p.363-368. Ele cita os exemplos de Danielo Dolci na Sicília depois da 2a guerra mundial e dos nacionalistas irlandeses no tempo das lutas pela emancipação da Irlanda depois da 1a guerra mundial, as vezes com o apoio do episcopado irlandês. Também há o exemplo de Gandhi.

 

Sobre o método de greve de fome como método não violento, ver as apreciações do especialista da não violência, Jean Maria Muller, Stratégie de l’action non-violente, Fayard, Paris, 1972, p.154-159.

 

Sobre o ponto de vista da moral católica, ver E.López Azpitarte- F.J. Elizarri -R. Rincón, Práxis cristã, t. II, ed. paulinas, São Paulo, 1984, p. 98: "não se considera que a greve de fome seja condenável de modo absoluto, ou seja, em qualquer condição e sob qualquer condição e sob qualquer premissa". No hiper-ortodoxo Dictionnaire de Théologie Catholique, A Michel escreve no t. XIV, col. 2748: "O caso da `greve de fome` é particularmente interessante. Fazer greve de fome para conseguir a cessação do cativeiro pode ser lícito se a esperança de libertação tem fundamento e se esta libertação é útil para o bem público. Cf. Ami du clergé, 1920, p. 399-400; 529-531, a propósito do caso do prefeito de Cork".

 

A Nunciatura Apostólica em Brasília publicou uma nota divulgada pela CNBB em que diz o seguinte: Durante a homilia o Núncio Apostólico destacou que a vida é um dom de Deus, da qual não somos donos, mas sim administradores: "Só Deus é o dono da vida e não podemos tirá-la. Segundo a moral católica, o fim não justifica os  meios, mesmo que seja uma nobre causa".

 

Ora, a fidelidade ao evangelho vale mais do que a vida e Deus quer essa fidelidade mais do que a vida. Assim o mostraram os mártires que provocaram a sua morte porque rejeitaram os gestos que podiam salvar-lhes a vida. Puderam escolher e escolheram a morte porque havia um valor superior que era a fidelidade ao evangelho.

 

Quem faz a greve de fome não tira a sua vida, mas pressiona os poderes; cria um risco, mas esse risco existe em outras situações humanas. O padre Damião de Veuster decide permanecer entre os leprosos sabendo que vai morrer. Para ele a caridade valia mais do que a vida e podemos pensar que Deus pensa a mesma coisa. A caridade vale mais do que a vida.

 

Em terceiro lugar, não se aplica o princípio de que o fim não justifica os meios. O meio não é a morte como se a morte fosse o meio de conquistar o fim. O meio é a pressão moral que exerce aquele que faz a greve de fome. Essa pressão moral é um risco. No entanto, há na vida muitas situações de risco. A experiência mostra que em sociedades semi-abertas como no Brasil, os poderosos acabam cedendo porque a pressão popular é muito forte.

 

A mesma CNBB comunica uma carta dirigida pelo cardeal Ré ao bispo Luiz. O cardeal diz o seguinte:

 

"os princípios da moral cristã não permitem que leve adiante a sua decisão. É necessário conservar a vida, dom de Deus e a integridade da saúde".

 

Seja-me permitido também expressar um certo desconcerto. Sua Eminência invoca os princípios da moral cristã. Não dá nenhuma referência. Se consultamos os livros de moral católica não encontramos essa condenação. E o Sr. Cardeal não invoca nenhum texto do magistério.

 

Ou ele se refere de novo ao princípio do senhor Núncio de que a vida é o bem supremo. A mesma dúvida aplica-se aqui.

 

Como conciliar essas posições com os textos evangélicos e com o próprio comportamento de Jesus que não fez da vida o bem supremo, mas sacrificou a vida por uma causa superior?

 

 

Notas:

 

(1) Tradução da Bíblia ecumênica. A tradução da Bíblia de Jerusalém diz: "Aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la;mas, o que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, irá salvá-la". A tradução de Alonso Schökel (Bíblia do peregrino) diz: "Quem se empenha em salvar a vida a perderá; quem perder a vida por mim e pela boa notícia a salvará".

 

(2) Tradução da Bíblia ecumênica. A Bíblia do peregrino traduz: "Se alguém vem a mim e não põe em segundo lugar seu pai, sua mãe, sua mulher e seus filhos,seus irmão e irmãs,e até a própria vida, não pode ser meu discípulo". 


fechar janela