O Caminho continua ...

 

Erwin Kräutler, Bispo do Xingu

domerwin@mac.com

 

O cenário é impressionante, comovente. Mata virgem, milenar! A floresta, do jeito como Deus a fez. Linda! Verde escura. Parece eterna, impenetrável. Altaneiro um jatobá se ergue à nossa frente, mais adiante, de grosso tronco e copa esgalhada, um tamburi. Ao lado desses gigantes um humilde pé de bacaba e, à margem direita da estrada, a rainha das selvas, a majestosa castanheira. Uma estrada corta a mata virgem. Ela é nova, ainda sem sulcos cavados pelas chuvas do inverno tropical. Ascende suavemente ao topo da ladeira, onde se abre numa descida íngreme levemente encurvada para as profundezas de um vale sombrio.

 

Ao chegarmos no local um bando de araras nos saúda com algazarra e batendo asa na copa do Jatobá. É mesmo uma saudação? Ou será que a vozearia dessas aves, tão famosas pela nobre plumagem azul e vermelha, é expressão de sua ira porque rejeitam a presença humana no seu mundo verde? Desconfiam de todos os homens! Os homens derrubam! Os homens destroem! Os homens queimam! Os homens arrasam! Os homens matam! Não deixam nada em pé! A esses homens insensatos, as araras amaldiçoam: “Vão embora, assassinos perversos!”, “Vão embora, depredadores inescrupulosos!” “Vão embora, saqueadores insaciáveis!” A selva tomba, morre, vira estepe! O ruído estridente e dissonante de motosserra é o aviso fúnebre do fim do paraíso. É semelhante a uma sirena de alarme que alerta para a catástrofe. Salve-se quem puder! É preciso voar, fugir! Onde as araras farão seus ninhos, como cuidarão de seus filhotes? Nos morros incinerados ou em meio ao capim-braquiária[1] que os homens semeiam para o boi pastar depois de incendiar a floresta e matar todos os seres vivos, tudo que tem alma e respira, a flora e a fauna? Coitadas das araras! Milhares de suas irmãs já se foram! Essas aí no alto do jatobá ainda sobrevivem. Melancólicas, depois de mais alguns gritos queixosos, fogem agora em busca de sossego numa copa frondosa bem distante. Até quando existirão ainda copas frondosas? Até quando araras?

 

No topo da ladeira, à sombra das grandes árvores, bem no meio da estrada, acariciada suavemente por alguns raios de sol, uma cruz branca! Cercada por um minúsculo canteiro com várias mudas, plantadas há pouco tempo. Uma mulher explica que agora, na estação das chuvas, as plantinhas crescerão rapidamente e o canteiro vai virar jardim. Na cruz branca, na parte horizontal, a inscrição “Dorothy Mae Stang” e na vertical, em cima do nome, uma estrelinha e a data 07/06/31, em baixo uma cruzinha e outra data 12/02/05. Foi aqui que o bárbaro crime aconteceu! Estremeço, fico arrepiado. Este é o lugar onde assassinaram a Irmã Dorothy. Contemplo a cruz. Alva, simples, exalando ternura. O mundo verde ao redor em silêncio. É tão misterioso o silêncio das árvores. Estão fincadas no solo em que deitaram suas raízes. Às vezes o vento as balança e agita seus ramos, faz a copa vibrar, os galhos gemer, as folhas sussurrar. Mas o silêncio das árvores não é mudo. Fala ao coração, toca a alma, afaga o nosso ser. Logo aqui, neste lugar! O que vou dizer? Melhor ficar calado e deixar-me contagiar pelo silêncio. Qualquer palavra neste momento seria uma profanação. Tenho a sensação de pisar em terra santa. É isso mesmo! Terra santificada e consagrada! Terra tingida pelo sangue de uma inocente Irmã, terra que bebeu o sangue de quem fez de sua vida uma doação “até o fim” (Jo 13,1), terra de que Deus ouve o sangue clamar por justiça (cfr. Gn 4,10). Não aquela da vingança, mas a justiça misericordiosa que se compadece do pobre, do excluído, dos sem voz e sem vez. O jatobá, o tamburi, o pé de bacaba, a castanheira, mas também as árvores menores e pequeninas, os arbustos e cipós estavam lá naquele sábado fatídico e presenciaram atônitos a morte cruel da Irmã. Os disparos ressoaram nas entranhas da selva, produzindo uma infinidade de ecos, enquanto os tiros assassinos perfuraram as entranhas da Irmã. De repente, silêncio total! “Tudo está consumado!” (Jo 19,30). Mas o silêncio não é mais de tranqüilidade e paz. Até o vento deixou de sibilar nas folhas! É um silêncio mortal no meio da selva, um silêncio que acusa os homens, o silêncio do sangue derramado que mais uma vez clama a Deus, do solo da Amazônia. Até quando, meu Deus! Tende piedade! Tende piedade! Dai-nos a paz!

 

À margem da estrada, a poucos metros da cruz, uma mesa coberta com uma toalha bordada e dois castiçais com velas brancas em cima dela. A mesa é da casa de seu Vicente que fica a uns trezentos metros de distância. Foi na casa de seu Vicente que Dorothy passou a última noite. Fui ver a habitação que ocupou nas derradeiras horas de sua vida. A pobreza é extrema. É a pobreza da gruta de Belém, é a pobreza do „Filho do Homem“ que “não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20), a pobreza do Getsêmani, do Calvário. Alguém me conta que os assassinos haviam planejado matar a Irmã durante a noite, enquanto dormia. Rondaram a casa, espiaram pelas frestas, mas recuaram diante do choro de uma criança. A noite passou. Outra vez o sol vence as trevas. A meiga aurora pinta o mundo de cores. Cessa o frio úmido da mata, a neblina matutina se dissipa. Irmã Dorothy se despede de seu casebre por volta das sete. Não anda longe. Cícero a vê caminhar sozinha. Sai de seu barraco de lona e segue os passos da Irmã. De repente dois homens aparecem no topo da ladeira. São peões do fazendeiro Tato, apelidados de Fogoió e Eduardo. A irmã os cumprimenta. Entabulam um curto diálogo. Dorothy diz estar consciente de que os dois são apenas “soldados mandados”, mas mesmo assim os adverte que semear capim nesta área seria crime ambiental. “A Sra. está armada?” indaga subitamente Eduardo. “Eu? Armada?” reage Dorothy perplexa, abre a boroca, tira e mostra a Bíblia: “Esta é a minha arma! Ouçam o que está escrito no Evangelho: Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os mansos, porque herdarão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,3.4.6). São suas derradeiras palavras. “Chega de conversa! Desta vez é pra valer!” Fogoió saca de sua arma e abre fogo contra a irmã. Três tiros. Dorothy ergue os braços e cai. Já caída, leva outros dois tiros. A última imagem gravada na retina: dois homens, um deles com a arma em punho, o jatobá, o tamburi, o pé de bacaba, a castanheira, o verde da mata, o barro da estrada. O mundo escurece para Dorothy. Seu coração pára de bater. A luz dos olhos se apaga. Dorothy está morta. São sete e meia da manhã. Sábado, dia 12 de fevereiro de 2005. Concretizaram-se as ameaças que há tempo circularam em Altamira e Anapu. Ninguém acreditou que fossem consumar-se. Consumaram-se. Depois de 23 anos de doação abnegada e dedicação generosa ao povo pobre da Transamazônica, Irmã Dorothy dá sua máxima prova de amor, “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,23).

 

Tudo está preparado para a celebração da Eucaristia. Os cantos escolhidos. As orações e as leituras são do Advento[2]. Luís dá as boas vindas aos presentes. Ele mora aqui perto com sua mulher Francisca das Chagas e seus sete filhos. Vieram do Maranhão. Luís contou-me a sua história, como sofreu nas mãos de Tato que o perseguiu, ameaçou, jurou de morte. Tato, Fogoió e Eduardo infernizaram a vida de sua família. Foi um contínuo pesadelo, noites sem dormir, dias vividos de sobressalto. Mas no dia em que Tato prometeu matar a família toda e já estava de arma na mão, “Deus levantou uma parede entre ele e nós” recorda Luís visivelmente emocionado. “Senti a mão de Deus. Deus é sempre mais forte!” Dona Tonica entoa agora o canto de entrada. Fazemos o sinal da cruz, pedimos perdão. Rezo a oração do Advento. A primeira leitura é tirada do Livro Gênesis (Gn 49,2.8-10) que fala da Justiça com que Deus agirá: „O cetro não será tirado de Judá... até que venha aquele a quem pertencem e a quem obedecerão os povos“. Depois é de novo Luís quem proclama o salmo responsorial. Rezado por ele, este salmo soa diferente, torna-se atual, concreto, palpável, promessa de Deus para Luís e sua família, para todas as famílias deste ramal Esperança: “Nos seus dias a justiça florirá e paz em abundância, para sempre” (Sl 72/71). O Evangelho do dia seria a genealogia de Jesus, segundo Mateus. Desisto, porém, de proclamar o primeiro capítulo de São Mateus. No lugar em que estamos, só cabem as palavras que foram as últimas proferidas pela Irmã Dorothy. Quem a conheceu sabe como essas bem-aventuranças inspiraram a sua vida.

 

“Felizes os pobres em espírito”. Quando, em 1982, Irmã Dorothy se ofereceu para trabalhar na Prelazia do Xingu foram os pobres que a atraíam. “Quero trabalhar entre os mais pobres” afirmava na época e lá foi ela para a Transamazônica Leste. Não fez apenas “incursões” esporádicas para o meio dos pobres. Não! Ela vivia entre os pobres, do jeito dos pobres, ela mesma pobre. Sua opção não tinha nada de romântico. É muito duro viver como ela viveu! Mas assim ela conquistou a confiança dos pobres. Passou a pertencer à família dos pobres.

 

“Deles é o Reino dos Céus” Que Reino é esse que será dos pobres? “Não é deste mundo”, disse Jesus diante de Pilatos que o condenou à morte (cfr. Jo 18,36). Mesmo não sendo deste mundo, começa a concretizar-se neste mundo. O inferno sempre se levantará contra ele e investirá todo o seu poder maligno para destrui-lo, mas jamais prevalecerá. Os apaixonados por Deus se comprometem e não medem esforços porque sabem que no fim triunfará o Reino “eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio de Cristo Rei).

 

“Felizes os mansos, porque possuirão a terra”. A humildade é irmã da pobreza. Ela se baseia num incondicional amor à verdade. É ser transparente, límpido e puro como cristal! Nada de querer aparecer e alimentar vaidades, muito menos inchar-se de orgulho. Pobreza e humildade geram a mansidão, a soberana virtude de quem nunca apela a expedientes escusos para realizar seus intentos. Quem conhecia Dorothy lembra a sua fala “mansa”, embora mansidão nada tenha a ver com o timbre de voz. Mansidão é a perseverança no cumprimento de uma missão. Mansidão é não deixar-se abalar, jamais usar meios violentos, nem sequer altear a voz. É a não-violência a todo preço, não-violência ativa! Mansidão é seguir à risca os ditames morais e legais, nunca procurar subterfúgios, apostar em manobras, inventar arranjos e abrir brechas, tentar adaptar leis e normas, interpretá-las para defender interesses pessoais. Mansidão é recomeçar sempre quando malogros e derrotas acontecem ao longo do caminho. Mansidão é, quando fecham ruidosamente uma porta, pedir licença de entrar por outra, ou então, aproveitar-se de uma janela aberta para dirigir-se aos que estão dentro da sala, já que não deixam entrar. Mansidão é agir, sabendo que a vitória final é garantida. Mansidão é ir ao suplício sem abrir a boca (cf. Is 53,7).

 

“Porque possuirão a terra”. É a Terra de Deus, a terra santa, sagrada, prometida, “terra que mana leite e mel” (Ex 3,8). Terra é sinônimo de Reino de Deus. Não é um reino apenas idealizado, utópico, sonhado!. O Reino de Deus assume formas concretas e tem conseqüências para a sociedade, para o mundo de hoje e sempre! O Reino se estabelece no chão que pisamos e não alhures, num mundo fictício e onírico.

 

Na Terra de Deus não pode haver excluídos, perdedores. Na Terra de Deus não existem milhões de homens, mulheres e crianças banidos, exilados, expatriados, desterrados. “Possuirão a terra” é mensagem salvífica, é promessa de paz e felicidade. Expressões populares como “Não têm onde cair morto”, “Sem eira nem beira”, “A terra que possuo? O sujo debaixo da unha”, “Minha terra? Sete palmos debaixo do chão, quando morro!” provam a ausência da Terra de Deus e revelam a realidade dura de tantos brasileiros e brasileiras deserdados, lançados fora, descartados, tidos como supérfluos. São os “desconectados” do mundo globalizado. Não produzem para o mercado, por isso não contam nem interessam. Mas querem viver! Um pedaço de terra é para eles a única chance de sobreviver com a família. Não nutrem ambições de enricar. Querem somente viver sem ter fome, querem plantar para colher, produzir para o próprio gasto. Contentam-se com o mínimo necessário. Mas no sistema neo-liberal não têm vez. Pelo contrário, são ocupantes indesejados de terras que poderiam ser utilizadas com muito mais proveito. Propriedade familiar não faz sentido. Não rende dividendos, não visa a exportação. O latifúndio é que vale, o agronegócio é produtivo, promete lucro imediato e enriquece o Brasil. Por isso os fazendeiros e madeireiros avançam, com as bênçãos do governo, sobre as terras públicas, promovem a grilagem, devastam as florestas, espalham violência, intimidam e expulsam pobres posseiros. Enviam, de tempo em tempo, seus “gatos” para o Nordeste a fim de arrebanhar algumas centenas de desempregados naquela Região. Como gado são transportados em paus-de-arara para Amazônia onde imediatamente entram no regime de trabalho escravo. É a terra dos homens! E dos demônios!

 

A Terra de Deus encerra um outro projeto, propõe um outro tipo de sociedade. A Terra de Deus é lugar de vida e fraterna convivência, de solidariedade amorosa. A Terra de Deus é como coração de mãe: há lugar para todos os filhos e filhas. A Terra de Deus é o lar que Deus criou para todos e não apenas para uns poucos privilegiados. Dorothy e tantos outros morreram por defenderem esse lar, a Terra de Deus.

 

“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Lucas se refere em seu Evangelho apenas aos que não têm nada para comer (Lc 6,21). Mateus fala de „fome e sede de justiça“. Com isso não exclui os que sentem fome material. Estes, pelo contrário, são os mais injustiçados. Negar o alimento, negar um copo d’água é injustiça levada ao extremo. Mateus coloca fome e sede num contexto mais amplo. A Justiça de Deus é a nossa salvação, é a Misericórdia Divina. A Justiça de Deus desce dos céus e - qual graça de todas as graças! - vem ao nosso encontro, manifestando-se em Jesus Cristo, Filho de Deus, que nos torna herdeiros do Reino. Justiça na Bíblia vai muito além da justa distribuição de bens, da participação eqüitativa no produto nacional bruto. Justiça exige amor. “Aprendei a fazer o bem. Buscai o direito. Corrigi o opressor. Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva!”  (Is 1,17). Justiça requer compromisso, engajamento, também no campo social e político, defender a verdade contra a mentira, a honestidade contra todas as formas de corrupção.

 

Justiça, no entanto, não se refere apenas ao relacionamento interpessoal, intergrupal, internacional. Justiça tem também sua componente ambiental e exige respeito e amor para com o mundo que nos circunda, com a flora e a fauna, com tudo o que Deus criou, exatamente porque “Deus viu que tudo que havia feito era muito bom” (Gn 1,31).

 

A Justiça de Deus, enfim, é a última e a única instância em que os pobres confiam. A justiça humana é falha, unilateral, interesseira. Especialmente na Amazônia o pobre experimenta sempre de novo que não há justiça para ele. Ela não está ao seu alcance. Já o termo “justiça” logo o faz lembrar o dinheiro que ele não tem, para pagar advogado. Quem não tem recursos perde a questão, mesmo tendo razão, e pobre condenado mofa na prisão. Rico condenado logo mais se beneficia de um alvará de soltura ou então “aguarda julgamento de recurso em liberdade”, eufemismo para dizer que, na realidade, o processo está sendo arquivado. O exemplo mais recente deste tipo de justiça, ou melhor in-justiça, é o caso dos condenados pelos crimes de emasculação de meninos de Altamira. Dois médicos e um comerciante, apontados como culpados e condenados a penas que variam entre 35 e 77 anos de reclusão, depois de pouco mais que um ano já se encontraram em liberdade. Seu advogado de defesa deu-lhes a orientação ”que se escondessem bem escondidos“. Onde estamos? A que ponto chegamos! O quarto condenado, um ex-soldado, sem poder pagar advogado que lhe desse orientação para empreender a fuga ou „esconder-se bem escondido“, continuou preso. Nestes dias foi posto em liberdade porque está com câncer, em fase terminal. A “Justiça” o mandou para casa para livrar-se do vexame de assistir a seu falecimento na prisão. Assim pelo menos poderá morrer nos braços de sua pobre mãe. Que justiça é essa? Os desalmados algozes de inocentes crianças estão hoje em liberdade como se nada tivesse acontecido. Graças aos préstimos de seu advogado de defesa vivem agora sossegados em qualquer parte do Brasil, rindo-se da cara daqueles que assistiram ao julgamento e foram convidados a ficar de pé para ouvir a proclamação solene da sentença condenatória que, como se vê, não passou de uma encenação „para  inglês ver“. Que falta de respeito para com as mães e familiares que até hoje choram os seus filhos! A frase que tantas vezes ouvi em minha vida “Para nós não há justiça. Somos pobres!”, infelizmente, é a mais pura verdade!

 

No dia 11 de dezembro, Rayfran (o „Fogoió“) e Clodoaldo (o „Eduardo“) foram condenados a 27 e 17 anos de prisão. Rayfran, porque matou a Irmã Dorothy com cinco tiros, Clodoaldo, por ter „instigado e auxiliado“ Rayfran. Assim fala a sentença. Os três fazendeiros Tato, Bida e Taradão, aguardam o julgamento, sabe-se lá quando. O peão Clodoaldo, empregado de Tato, foi condenado por ter “instigado e auxiliado” o assassino! Por que, até agora, só o Clodoaldo? Aqueles que gritaram: “Essa freira tem que ser eliminada” não „instigaram“ ao crime? Até bem mais do que o Clodoaldo! Não deveriam ser todos eles presos e julgados? Havia até promessa de palanque durante a campanha eleitoral: “Se eleito for, farei a Dorothy desaparecer de Anapu!” Não instigou ao crime quem diante da câmara da TV Globo afirmou em bom e alto som: “O que essa religiosa está fazendo é um acinte!“ e ainda acrescentou: „Existe gente armada que vai reagir!“? Não instigaram ao crime todos aqueles que em reunião secreta, realizada em Altamira, tomaram a decisão de encomendar o crime? Não instigaram ao crime todos aqueles que difamaram a Irmã, acusando-a de distribuir armas aos colonos, atribuindo-lhe o crime de formação de quadrilha? Não instigaram ao crime aqueles vereadores que, da tribuna da Câmara Municipal, atacaram o trabalho da irmã, condenando sumariamente seu engajamento em favor dos pequenos e defendendo os fazendeiros e madeireiros que custearam suas campanhas eleitorais? Não se revelaram „post mortem“ como mentores do crime todos aqueles que queimaram fogos quando souberam da morte da Irmã? Por que ninguém os chama para dar esclarecimento, para depor? Por que pararam os inquéritos? Será que para a “justiça” já bastam dois condenados e os três aguardando julgamento para produzir manchetes, mais uma vez “para inglês ver”? Os verdadeiros instigadores e responsáveis que não foram importunados agradecem encarecidamente. Mais uma vez se safaram! Que justiça é essa?

 

Em que pé está o processo de nosso Dema? Morreu pelas mesmíssimas razões que a Dorothy. Defendeu os pequenos e o meio-ambiente. Levantou sua voz contra o projeto absurdo da hidrelétrica Belomonte e não engoliu as mentiras, reagindo contra a estupidez com que os barrageiros e os políticos de plantão falam desse projeto, escondendo as reais conseqüências para o povo e o meio-ambiente. Foi assassinado na madrugada de 25 de agosto de 2001 diante de sua esposa querida, Maria da Penha, mãe de seus filhos. Ninguém mais fala deste processo!  Não teve a sorte de ter nascido nos Estados Unidos, para sua morte ter repercussão internacional! O processo vai ser arquivado? Ou já foi arquivado, há tempo?

 

“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”  Só a Justiça de Deus será capaz de saciar toda a fome e sede. “A Justiça Divina tarda, mas não falha!”

 

É hora das ofertas. Dona Tonica entoa o canto. A catedral em que celebramos é a floresta. As figuras que adornam o templo são o jatobá, o tamburi, o pé de bacaba, a castanheira e todas as outras árvores e plantas que estão aí mostrando sua beleza verde. As araras voltaram mais uma vez para a copa do Jatobá. Cantam e louvam seu criador à sua maneira! Ofereço pão e vinho, o “fruto da terra e do trabalho humano”, simbolizando nosso empenho, nosso suor, nossa luta, a dor e sofrimento de tanta gente, mas também, apesar de tudo, nossa alegria de estarmos aqui reunidos, irmãos e irmãs uns dos outros, de não termos recuado ou esmorecido diante da prepotência e perversidade dos que se julgam donos da Amazônia, de acreditarmos na Terra de Deus e não na terra dos homens.

 

Mais uma vez repito as palavras sagradas: “Na véspera de sua paixão… Tomai e comei: Isto é o meu corpo que será entregue por vós.” “Tomai, todos, e bebei: Este é o cálice do meu sangue … que será derramado por vós e por todos…”  Quantas vezes já as pronunciei nos mais diferentes lugares e circunstâncias! Sempre de novo o céu e a terra misteriosamente se tocam, o Divino envolve o humano. O que celebramos não é só piedosa recordação, grata lembrança de um fato histórico, mera confraternização entre irmãos e irmãs. É muito mais! É o Corpo entregue, o Sangue derramado de Jesus que se torna sacramentalmente presente, é o “Sacrifício da Cruz … o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento da piedade, sinal de unidade, vínculo da caridade, banquete pascal” (SC 47). Ao erguer as sagradas espécies, vejo diante de meus olhos o corpo da Irmã, esticado na estrada: “Corpo entregue”! Vejo o barro embebido pelo sangue que mana de cinco perfurações: “Sangue derramado”. Lembro as cinco chagas de Jesus!

 

Rezamos, de mãos dadas, o Pai Nosso, a oração do Senhor, e comungamos o Corpo e o Sangue de Cristo. É nosso alimento de peregrinos neste mundo tão conflitivo e perverso, é a força, a energia que dá coragem aos apaixonados pelo Reino, os sustenta e fortalece, lhes dá a graça da mansidão e perseverança no longo caminho. Contemplo novamente a cruz branca da Dorothy. Tantas cruzes à beira das nossas estradas, dos nossos rios e igarapés! Irmãs e irmãos tombaram, derramaram seu sangue, doaram sua vida! Mas sua morte não mudou o rumo do Caminho[3]. Sua morte compele, incentiva-nos no Caminho! O Caminho continua!



[1] Na Amazônia o capim tem que ser semeado. O capim-braquiária é muito resistente. Onde ele é semeado, outro tipo de planta não tem condições de sobreviver. Parece uma erva daninha que sufoca todas as culturas.

[2] É o dia 17 de dezembro de 2005, Sábado da III Semana de Advento.

[3] O modo absoluto de usar o termo “caminho” é peculiar aos Atos dos Apóstolos, designando a Comunidade dos fiéis. Por exemplo:  “pertencendo ao Caminho” (At 9,2); “expuseram-lhe o Caminho” (At 18,26).


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