|
A lógica da festa de Paulo Suess A
gratuidade do Evangelho não se encaixa na racionalidade ocidental. Mas, existe
outra racionalidade? Quem trabalha com os povos indígenas ou com grupos
populares sabe que, de fato, existem outras racionalidades. Racionalidade e
lógica têm sempre uma cor cultural.
No cristianismo da conquista estavam inscritos os vestígios da racionalidade
ocidental que dificultaram o trabalho da evangelização. Por causa desta
racionalidade, diz Max Weber em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo, o cristianismo não consegue realizar a sua proposta de
gratuidade e fraternidade. ‘Fazer
economia’ e ‘ganhar tempo’ são os eixos da racionalidade ocidental que não
admite desperdício. O cristianismo, sobretudo em sua vertente protestante,
considera estes eixos virtudes. O tempo, os bens da terra e a capacidade de
aumentar estes bens e produzir outros pelo trabalho são instrumentos cedidos
por Deus para a salvação de cada um. A única finalidade do tempo e dos bens é a
salvação. Aversão ao desperdício e ânsia pela economia do tempo são
conseqüências da ética cristã de trabalho. Após poucos meses ter chegado no
Brasil, Manoel da Nóbrega na Bahia já encomendou relógios e sinos para
cronometrar o tempo do mundo indígena. A virtude da racionalidade recomenda
“reservas” (poupança!) e “pressa” (time is money). A generosidade da
natureza pode falhar e a vida é curta. O quê
fazer com o tempo e os bens economizados? Rezar, trabalhar e investir. Ora
et labora (“reze e trabalhe”), era o lema dos monges beneditinos cuja Regra
influenciou as comunidades religiosas e sua prática missionária. O tempo
economizado deve-se gastar com virtude, portanto, com trabalho e oração. A
preguiça é a mãe de todos os vícios e trabalhar significa participar da criação
do mundo novo. Aplicar os bens economizados significa investi-los
diligentemente, e aumentá-los, como os talentos que cada um recebeu do seu
criador. A economia de tempo e de bens, e a aplicação diligente ao trabalho
produzem riqueza. Onde aplicar os bens economizados? Com obras de misericórdia
no meio dos pobres e nas obras da missão. Mas, os pobres são produto desta
racionalidade econômica. Os beneditinos, como tantas outras ordens religiosas,
se tornaram latifundiários. Praticamente todas as ordens religiosas tinham seus
escravos. A escravidão, enquanto ‘escola de trabalho’, se tornou um benefício.
Quando aumenta a riqueza, baixa o fervor religioso e cresce a inveja daqueles
que não participam desta riqueza. Sucessivas reformas da vida religiosa se
fizeram necessárias. A racionalidade ocidental desequilibrou a mensagem
evangélica. No
século 13 surgiram os mendicantes como movimento de reforma. A vida em
comunidade, pobreza e itinerância tornou-se a bandeira de uma vida alternativa.
Com este propósito os franciscanos acompanharam a Conquista. Vieram à México
conquistado para inaugurar o “Terceiro Milênio” protagonizado por Joaquim de
Fiore, o milênio do Espírito Santo e dos pobres. Segundo o Salmo 59.7, os
franciscanos consideravam os povos indígenas das Américas como os “convertidos
de última hora”: convertentur ad vesperam. Com a urgência apocalíptica
da “conversão na véspera” da história, os religiosos desculparam a violência de
Cortés que consideravam o Moisés do Novo Mundo. Este “Terceiro Milênio” teria
sido viável mediante uma ruptura política e cultural: a ruptura com o sistema
colonial e a ruptura com a racionalidade ocidental. Essa ruptura permitiria
acolher a sabedoria e a lógica das culturas indígenas como núcleo norteador de
uma “nova evangelização”. Depois desta ruptura político-cultural os frades
teriam condições de questionar o preconceito central da sociedade colonial e da
cristandade, o preconceito do índio preguiçoso e atrasado. Mas,
evangelizar na América conquistada significou ensinar a trabalhar e acumular
sabedoria ocidental que produziria um “progresso” sem projeto comunitário. O
progresso ocidental nunca era para todos. Destruiu o mais valioso que os povos
indígenas tinham para oferecer ao cristianismo, a igualdade que emergiu da
festa. A festa, na maioria das culturas indígenas, é o epicentro da economia de
reciprocidade que produz igualdade. Para muitos povos indígenas, como para os
povos Guarani do Paraguai, Bolívia e Brasil, o trabalho só faz sentido, sendo
realizado em função da festa. Viver só faz sentido a partir da festa. Quando os
missionários proibiram as festas dos índios, cujos ‘desperdício’ não
corresponderam à virtude da racionalidade ocidental, os índios se recusaram a
trabalhar, e a fome se espalhou pelas aldeias. A
proibição da festa era uma intervenção na economia de reciprocidade e
significava o início da acumulação e da desigualdade. ‘Pobre’, para os povos
Guarani, é aquele que não pode praticar a reciprocidade; ‘pecador’ é aquele que
não quer praticar a reciprocidade porque colhe e produz para acumular. A
acumulação, porém, impede a realização da festa. Muitos povos indígenas
conseguiram até hoje reproduzir sociedades igualitárias. Qual é o segredo
destas sociedades? Nenhum segredo, nenhuma magia, apenas outras prioridades: o
investimento nas pessoas e na educação para a igualdade e para a partilha em
vez de uma educação para a inserção no mercado de trabalho. Racionalidade
ocidental e empresa colonial se complementaram perfeitamente no controle da
prática missionária. Quando os franciscanos do México, na comunicação diária do
Colégio de Santa Cruz de Tlatelolco, substituíram o castelhano pelo latim e
grego, não conseguiram, com esta medida, como era a sua intenção, excluir o
‘espírito colonial’ e livrar seus neófitos da cobiça e da servidão dos colonos.
A escrita aprendida no Colégio serviu, por um lado, para guardar parte
significativa da memória indígena, ao mesmo tempo não conseguiu consolidar essa
memória como base de uma nova liberdade em Jesus Cristo. Pelo contrário, como
diz Lévy-Strauss em Tristes Trópicos, a função primária da escrita foi
sempre a de facilitar a servidão e fortalecer a dominação. Atenas era a cidade
de sábios servidos por escravos. E a Missão funcionou, historicamente, como a
linguagem de Atenas (Platão, Fedro), como pharmakon num tríplice
sentido de remédio, veneno e cosmético. O trabalho missionário do Cimi procurou
destrinchar estes três significados nas práticas missionárias de ontem e hoje.
Num momento histórico marcado pela competição, acumulação e infantilização a
Nova Evangelização aponta para a lógica da solidariedade, da partilha e do
protagonismo. A utopia
da ‘divina abundância’ do projeto de vida dos povos indígenas não exige mais
esforços ou mais racionalidade. Exige, sobretudo, outros
esforços, outra racionalidade e outras prioridades. Não
precisamos ensinar e aprender a trabalhar mais para acumular mais. Precisamos
aprender a repartir o trabalho. Não precisamos aprender a ‘ganhar tempo’, mas a
gastar tempo na gratuidade. O horizonte da utopia emerge como graça do primeiro
dia da Nova Criação. A Ressurreição precede à Cruz e a festa precede ao
trabalho. A realização da Festa é a condição e o horizonte de um novo projeto
de sociedade onde os bens do planeta terra são partilhados entre todos. |
|
fechar janela |