SÍNTESE DAS CONTRIBUIÇÕES DA IGREJA NO BRASIL À CONFERÊNCIA DE APARECIDA

        

 

Nota introdutória

 

Este texto é a síntese das contribuições da Igreja no Brasil à Conferência de Aparecida. Ele é o resultado das respostas dadas, em nível diocesano, às questões do roteiro de estudo do Documento de Participação, elaborado pela CNBB e recolhidas pelos 16 Regionais da Conferência. Além disso, estão aqui sintetizadas também, contribuições enviadas diretamente à CNBB por Institutos de Teologia, Congregações religiosas, Movimentos eclesiais e Organismos de pastoral em nível nacional.

Devido à grande quantidade de contribuições dadas a partir de questões abertas, a Equipe de Síntese da CNBB optou, não por uma tabulação quantitativa, mas pela elaboração de uma síntese qualitativa. Procurou ser fiel, o mais possível, ao conteúdo das contribuições, condensando-as num texto bem sintético para facilitar seu uso posterior, seja pela equipe de síntese do CELAM, seja pelos delegados da CNBB à Conferência de Aparecida.

Cabe ressaltar que, nas contribuições enviadas, aparece uma insistência de muitos segmentos eclesiais para que a Conferência de Aparecida não perca de vista o método de reflexão da Ação Católica, assumido pelo Vaticano II na Gaudium et Spes e, depois, base do método da teologia latino-americana:  ver-julgar-agir. Em vista disso, acolhendo a recomendação destes segmentos, a Equipe de Síntese da CNBB optou pela apresentação das contribuições recebidas, ordenando os Capítulos do Documento de Participação segundo este método, com o cuidado de, junto a cada capítulo da presente Síntese, indicar o capítulo correspondente ao Documento de Participação. Convém, entretanto, registrar que outros segmentos apreciaram a orientação metodológica do Documento de Participação, que parte do desejo de felicidade e das perguntas do coração.

 

 

CAPÍTULO I

SOCIEDADE E IGREJA NA ATUALIDADE

 (Síntese referente aos Cap. I, II.a e IV do Documento de Participação)

 

1.            A realidade brasileira no contexto latino-americano (Cap. IV do DocPart)

a)      Somos uma Igreja no Mundo e para o Mundo, pelo mandato do próprio Senhor a anunciar e fazer discípulos seus (Mt 28,18ss), conscientes de que "as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem", mais particularmente, do povo latino-americano e caribenho, continuam sendo "as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (cf. GS 1).

b)      Em nossa realidade, trata-se de seguir Jesus, num Continente marcado pelo contraste entre os muitos valores que caracterizam o povo latino-americano e caribenho, tais como a religiosidade, a capacidade de partilha, a alegria, a resistência, a esperança, a solidariedade e, infelizmente, a extrema pobreza em que vive a maioria da população nos diversos países.

 

1.1         Uma realidade de contradições e disparidades

a)      No campo social, verifica-se o crescimento da desigualdade social e o número dos marginalizados preocupa; nota-se o fechamento das pessoas no seu eu e o esquecimento de sua natureza relacional; o individualismo, levado às últimas conseqüências, desumaniza, gera drogados, menores de rua, doentes mentais, mendigos, famílias desorientadas, etc.

b)      No plano econômico, supervaloriza-se o crescimento da produção em detrimento do crescimento humano. Cresce a busca pela eficiência e o lucro, ferindo a dignidade humana.

c)      Os interesses sócio-econômicos levam à concentração de poder nas mãos dos que têm o controle tecnológico e o arsenal bélico, provocando o desemprego estrutural. 

d)      Uma causa da injustiça social é a má distribuição da renda, que gera uma “ordem” econômica mundial perversa, aprofundando sempre mais o abismo entre ricos e pobres. 

e)      Economicamente, não existe mais soberania absoluta: o capital especulativo invade a economia dos países mais frágeis, com seus cerca de 13 trilhões de dólares em giro permanente. A Amazônia, por exemplo, pela biopirataria, está na mira de uma internacionalização. 

f)       No campo político, durante as campanhas eleitorais, dada a falta de consciência e de conhecimento dos direitos civis, os candidatos manipulam e defraudam a esperança do povo. Os pobres são usados como produto descartável.

g)      As maiores distorções e sofrimentos, em nossos países, se manifestam: na ignorância política do nosso povo; na falta de opções frente as eleições; na corrupção eleitoral; no sofrimento e a humilhação daqueles que dependem da previdência social e da saúde pública; no baixo investimento feito em educação; na morosidade da justiça; na falta de segurança pública; na má e distorcida qualidade dos meios de comunicação; na má distribuição de renda;  na falta de oportunidades e perspectivas; no narcotráfico e o alcoolismo; na emigração desordenada e irregular; no tráfico de seres humanos.

h)      No campo religioso, apresentam-se ofertas religiosas de toda índole, que prometem felicidade fictícia e mágica, baseada na prosperidade material, na saúde física e psíquica, sem o compromisso com uma ação processual e transformadora.

i)        São características da religiosidade atual: o fundamentalismo, o apego a ritos e fórmulas, assim como um sentimento religioso light, que se expressa em sincretismos imanentistas, resultado da busca de felicidade imediata.

j)        Diante disso, não podemos perder de vista o valor e a proposta do Evangelho, colocando-o a serviço da vida. É nele que os desprovidos do elementar para viver encontrarão uma resposta não enganadora e eficaz.

 

1.2         A Globalização

a)      A globalização tem seu lado positivo, na medida em que, por exemplo, com a rapidez e fluência dos meios de comunicação, pode levar aos recônditos do planeta a Boa Nova a um número cada vez maior de pessoas (“Ide pregai o Evangelho a todos os povos...”), visibilizando a presença do Reino de Deus, numa Fraternidade Universal.

b)      Uma evangelização “globalizada”, pode gerar o intercâmbio de Ong’s, Associações Internacionais e outros órgãos Católicos, na difusão dos princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) entre os povos, principalmente o da solidariedade.

c)      A globalização propicia uma acelerada integração entre povos e países do mundo, o acesso à informação, assim como a interação de culturas e grupos étnicos ameaçados, criando extensas redes de defesa de seus direitos.

d)      Contudo, ela tem seu lado negativo: a cultura materialista por ela veiculada impele as pessoas ao consumismo e a endividar-se com coisas supérfluas, desfazendo lares e gerando dependência de interesses alheios a seu bem-estar. O afã pelo lucro, explora a mão-de-obra e promove a aceleração do fluxo de bens e de capital de modo absurdamente desproporcional à movimentação das forças de trabalho, gerando o problema da mobilidade humana. 

e)      A ciência e a tecnologia da comunicação passam por uma revolução jamais vista, mudando as relações entre as pessoas e criando uma nova geração de usuários. Já não há privacidade, nem para o próprio endereço, exposto de todo tipo de mensagens.

f)       A mídia constitui-se em muito mais do que simples instrumento de comunicação, configurando a atual cultura, modificando comportamentos e transformando o horizonte simbólico das pessoas.

g)      Entre outros, a globalização altera a identidade cultural dos povos, os quais, vítimas do individualismo, do consumismo e do hedonismo, perdem de vista ideais como os de solidariedade, família, dignidade da mulher, heterossexualidade, casamento e sacralidade da vida.

 

1.3         Efeitos da globalização e mazelas históricas

a)      A criminalidade aumenta entre os jovens de todas as classes sociais, em especial entre os envolvidos com o tráfico de drogas. Nas favelas, reina o trabalho informal. Frente a isso, as autoridades parecem anestesiadas, pois não esboçam nenhuma reação substancial e conseqüente com a solução do problema.

b)      Continua o problema do acesso à terra, justificando a necessidade urgente de uma reforma agrária, o que reduziria a migração interna e externa,  assim como minoraria  o problema do trabalho escravo e infantil.

c)      As migrações são um fenômeno crescente. Já são centenas de milhões os que se movem dentro dos países e para fora deles, em busca de melhores condições de vida.

d)      Nos tempos atuais, a pobreza estampa novos rostos, conseqüência da crescente segregação econômica, racial e religiosa, bem como de conflitos internos regionais, o que não impede os pobres, entretanto, de sonhar e buscar um outro mundo possível.

e)      Bradam aos céus as condições degradantes da vida dos presidiários, cada vez mais numerosos, tratados como a escória da sociedade.  Os presídios parecem mais universidades do crime do que verdadeiros lugares de recuperação.