”Nascer
já é caminhar”[1]
Aparecida
confirma a caminhada da pastoral indígena
Paulo SuessO enfoque da causa indígena sobre “Evento e Documento Aparecida” (EDA) não capta toda sua riqueza e complexidade. A visão da realidade (33-115), a opção pelos pobres (143, 405-413), os poucos mas decisivos parágrafos sobre as Comunidades Eclesiais de Base (193-195, 295d), o enfoque da questão da biodiversidade e da ecologia (83-87, 141s, 493c), o fio condutor do seguimento dos discípulos-missionários, a transversalidade da missão e alguns silêncios oferecem ainda muitos outros aspectos e desdobramentos que fazem do EDA um tapete colorido e político-pastoral de grande importância para as igrejas locais do continente. I. O contexto: pluralismo cordialForam setores eclesiais muito diferentes que se reuniram em Aparecida
para traçar os caminhos da Igreja latino-americana. O setor “Remanescentes da
Teologia da Libertação” colaborou com o setor “Bom Pastor”, e o setor “Cúria
Romana” estava geralmente mais ao lado do setor “Movimentos”, como “Legionários
de Cristo”, “Opus Dei” e “Sodalício”, querendo fazer dos discursos papais um
quinto evangelho e respaldados pela agência noticiosa de Asiprensa. No meio
destes havia um grupo de “Navegantes independentes” que votava, conforme o caso,
com um ou outro grupo. Nas votações, geralmente, apareceram dois blocos, os
pastoralistas, com sua experiência contextual, e os doutrinários, com suas
propostas pastoralmente mais distantes. Nas votações, a maioria era geralmente
dos pastoralistas, mas nem sempre se reflete essa maioria no Documento
Aparecida (DA), porque no lugar onde atuava em Puebla e Santo Domingo um D.
Luciano Mendes, com sua santa prudência, agora os redatores finais são, em sua
grande maioria, pessoas trazidas de Roma, cuidadosamente escolhidas e
devidamente informadas sobre determinados temas proibidos (neoliberalismo,
reforma ministerial, Teologia Índia, por exemplo), com teologias que não
passaram pela peneira das mediações históricas e antropológicas do lugar. Apesar do ar condicionado, que deixou muitos delegados acamados com
febre, o clima, agora já num sentido mais amplo, foi bom no subterrâneo da
Basílica de Aparecida, onde a Conferência se reuniu. Por fim, quase todos se
disseram satisfeitos com o evento de Aparecida que foi além do DA. Do evento
faziam parte, além da visita do papa, os milhares de romeiros, a Tenda dos
Mártires, o Seminário Latino-Americano de Teologia, organizado pelo Conselho
Nacional do Laicato do Brasil, em Pindamonhangaba/SP, a romaria das Comunidades
Eclesiais de Base e muitos encontros na margem da V Conferência. Alguns bispos
do setor mais progressista disseram, sem resignação: “Para que brigar por
palavras, como Teologia da Libertação, se seus conteúdos, a opção pelos pobres,
as CEBs, o protagonismo dos índios e afro-americanos e seu método ver-julgar-agir, estão garantidos?”. Quem
participou das articulações sabe do enorme esforço, nem sempre bem-sucedido,
necessário para que temas óbvios constassem do texto e avaliações caducadas
saíssem dele. II. O
texto: apoio à causa A questão indígena aparece mais explicitamente em dois lugares do DA: na análise da realidade (n. 88-95) e nas indicações pastorais (548-550). Em outras partes do texto, os povos indígenas e suas culturas são genericamente mencionados, em geral junto com os afrodescendentes, em afirmações de estima e apoio (n. 56, 65, 75, 101, 112, 143, 416, 473, 492). O DA respalda os eixos principais da pastoral indígena do Cimi. O fio condutor do documento é o seguinte: Os povos indígenas têm uma história milenar e vivem atualmente numa situação em que sua vida está profundamente ameaçada (1); nessa situação a Igreja dá todo seu apoio, sobretudo à defesa dos seus territórios e de sua identidade (2); o apoio não se sobrepõe ao protagonismo dos próprios indígenas, mas o incentiva (3); o trabalho específico da Igreja é a evangelização inculturada que inclui denúncia, anúncio e diálogo (4); os povos indígenas vivem valores que podem ser considerados como o núcleo de um outro mundo possível (5). 1. Vida ameaçada A vida dos povos indígenas está ameaçada em sua existência física, cultural e espiritual (90). Seus modos de vida, sua identidade e projetos correm grandes perigos. Uns vivem em terras insuficientes, outros são expulsos de suas terras e vivem como migrantes, outros encontram seus territórios invadidos e degradados. A globalização ameaça a todos com suas mudanças culturais impostas (90). Os indígenas configuram uma nova categoria de pobres e excluídos (416) entregues à marginalização sociocultural. Dessa situação emerge um grito dos povos indígenas que precisa ser ouvido por toda a América Latina (89, 473). 2. Defesa dos direitos e territórios A V Conferência se comprometeu com as igrejas locais a acompanhar os
povos indígenas em suas lutas pelos seus direitos e cobrar das sociedades
latino-americanas o respeito e o reconhecimento de sua alteridade (89). Em
conseqüência do modelo econômico dominante e da devastação ecológica, muitos
indígenas são hoje expulsos de suas terras e empurrados para a periferia das
grandes cidades (492). Por isso a defesa dos territórios dos povos indígenas
faz parte do serviço à vida que os discípulos-missionários prestam 3. Protagonismo indígena Em vários lugares o DA fala dos povos indígenas como novos autores
sociais que, junto com outros setores, possam contribuir para o fortalecimento
de uma democracia participativa. Ao tomar consciência de seu poder, podem gerar
transformações sociais importantes e reverter sua situação de exclusão (75). O
protagonismo dos povos indígenas é um sinal de esperança que agradecemos a
Deus, reza o DA (143). Ele emerge na sociedade civil e no interior das Igrejas
onde reivindicam a sua participação. A diversidade de suas cosmovisões, valores
e identidades pode forjar um novo Pentecostes eclesial (91), capaz de
significar uma refundação da Igreja. A Igreja estimula a participação dos povos
indígenas na vida eclesial (94) e procura fortalecer sua identidade e suas
organizações (549). Um fato concreto que sublinhou esse protagonismo foi a crítica
indígena ao discurso inaugural do papa, falando da beleza da evangelização sem
mencionar as mediações históricas adversas. Dez dias mais tarde, 4. Evangelização inculturada A participação na vida eclesial e o anúncio da Boa-Nova do Reino
dependem de uma evangelização mais inculturada (112), com seu desdobramento na inculturação
litúrgica (101), e da assunção das línguas indígenas como veículos de
comunicação (tradução da Bíblia). Também o trabalho vocacional e, portanto, sua
participação nos ministérios ordenados dependem de avanços nos processos de
inculturação que cuidam das raízes indígenas (94, 339). A evangelização
inculturada denuncia situações de pecado, anuncia a Boa-Nova do
Reino e incentiva o diálogo intercultural, inter-religioso e ecumênico
(95). 5. Vida alternativa A evangelização não acontece num terreno vazio. Os povos indígenas têm
uma experiência religiosa milenar, que conservam até hoje e que lhes deu
identidade e raízes. Essa experiência é histórica e não deve ser destruída pelo
cristianismo, mas pode ser enriquecida por ele (548). As “sementes do Verbo” e
o “próprio Verbo” estavam presentes de maneira misteriosa nas religiões
indígenas antes da chegada dos missionários. Isso aponta para sua relevância
salvífica. Em sua base religiosa, os povos indígenas vivem muitas vezes uma
religiosidade amalgamada com o cristianismo, com valores próprios, resistentes
à secularização modernizante. O DA fala da abertura para a ação de Deus e do
caráter sagrado da vida indígena (93); valorizam a família, vivem a
solidariedade e co-responsabilidade em trabalhos comunitários. O DA assume
muitas reflexões de Santo Domingo explicitamente. (SD 17, 243ss). Nas culturas
indígenas, vive-se um amor profundo à terra (56). Terra indígena é terra para
viver e terra comunitária. Esses dois itens impedem a transformação da terra em
latifúndio ou em objeto de contratos de compra e venda ou de incorporá-la no
agronegócio. Na visão que os povos indígenas têm da terra está presente a
utopia de um outro mundo possível. Chamam de sua mãe a terra e a natureza
porque os alimentam; sua casa comum, porque os protegem, e seu altar, onde
partilham a vida (491). Enquanto os romeiros – esse povo pobre e simples – rezava na Basílica,
os delegados da V Conferência estavam reunidos no subterrâneo dessa Basílica,
como numa incubadora, torcendo “para que todos tenham vida”. Depois das dores
de parto, o que interessa é a criança. E nós, Igreja local e pastoral, estamos
aqui para cuidar dela, fazer engatinhar, levar a Igreja subterrânea para cima
ao encontro do povo, para que cuide dessa vida “Severina” dos povos indígenas,
bela “porque corrompe com sangue novo a anemia, infecciona a miséria com vida
nova e sadia”. [1] Ver:
J. Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Ao falar de Aparecida,
falamos da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que se
realizou de |
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