2.1. A MISSÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

 

Sergio Bensur

 

 

1. RESUMO E OBJETIVO

 

 

Resumo

Levando em consideração o AT como um todo, constata-se que o conceito de “missão” não aparece senão marginalmente. Com efeito, o povo de Israel desde as suas origens até o período do exílio (VI séc.) não mostrou nenhuma tendência a difundir o conteúdo e a prática de sua fé entre os outros povos. Somente no período pós-exílico o povo de Israel começou a desenvolver uma visão mais universal que já estava presente em tradições mais antigas, e que incluía também as nações como destinatárias do mesmo projeto de salvação do Deus de Israel. No entanto é bom lembrar que o AT não fala explicitamente de “missão” em sentido atual.

 

Objetivo

Sob a forma de um “esquema de aula”, a análise sumária de um texto bíblico significativo quer destacar alguns elementos importantes que manifestam a constante tensão ao longo de toda a história de Israel, entre a eleição do povo de Deus de um lado, e a vocação universal da humanidade do outro.

 

 

 

2. TEXTO CENTRAL - ISAÍAS 2,2-4:

SIÃO, CENTRO DO REINO UNIVERSAL DE YHWH.

 

 

Trata-se de um texto tardio que parece resumir a tendência de várias tradições do AT a respeito da função que Israel deve desempenhar pela salvação das outras nações. Esse texto não só pressupõe uma tradição a respeito da centralidade de Jerusalém, mas inaugura uma série de oráculos segundo a perspectiva escatológica. Com efeito, podemos observar desde já alguns elementos importantes:

1o: a assembléia dos povos, nos últimos tempos, vai acontecer em Sião, na montanha de Yhwh;

2o: os povos vem vindo a Jerusalém para compreenderem a Palavra de Yhwh.

3o: não existe nenhuma perspectiva propriamente “missionária”: Israel não deve sair ao encontro das nações, mas ao contrário são elas que se concentram em Jerusalém.

4o: é interessante notar que é Yhwh quem marcou o lugar de encontro da humanidade inteira (Israel e as nações): o encontro não acontecerá nas extremidades da terra, mas em Jerusalém e precisamente no Templo de Yhwh!

 

v. 2: E acontecerá que nos últimos dias, a montanha da casa de Yhwh será firme, sobre o cume das montanhas, e será elevada sobre as colinas, e a ela afluirão todas as nações.

 

v. 3: Virão em marcha muitos povos dizendo: “Vinde, subamos à montanha de Yhwh, à casa do Deus de Jacó. Ele nos ensinará seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas. Pois de Sião sairá a Torah, e a palavra de Yhwh de Jerusalém.

 

v. 4: Ele julgará entre as nações, ele arbitrará para muitos povos. De suas espadas forjarão relhas, e de suas lanças, podadeiras. Não levantará mais a espada nação contra nação, e não se aprenderá mais a guerra.

 

 

 

3. COMENTÁRIO

 

 

O texto paralelo de Miq 4,1-5 levanta a questão do autor, que não é possível resolver aqui, pois sem entrar em muitos detalhes podemos destacar o seguinte:

  1. O autor apresenta uma visão universal, mas concentra a sua atenção em Jerusalém e no templo, pondo em relevo a função que a cidade deverá desenvolver nos últimos tempos. Jerusalém é o centro do universo e o lugar da concentração de todos os povos porque lá Yhwh manifesta a sua soberania, e porque lá, no Templo, está o centro de irradiação da Torah e da Palavra de Yhwh.
  2. Por que o autor atribui a Jerusalém esta função? Por vários motivos: lá está situado o monte do templo; é o centro da terra prometida; é o lugar da presença de Yhwh no meio do seu povo; o templo é o lugar de oração onde se venera a Torah e a palavra de Yhwh. Por isso o autor vê Jerusalém como ponto de convergência das nações. Talvez  o pano de fundo seja litúrgico-cultual: a lembrança de alguma solenidade faz com que o autor imagine uma procissão gigantesca em que Israel juntamente com todas as nações do mundo se dirigem ao templo cantando os “salmos de peregrinação” ou das “subidas”.
  3. O autor desse texto não é o primeiro a falar de Jerusalém e da montanha da casa de Yhwh como centro do mundo. A tradição mais antiga remonta ao tempo de Davi em que ainda era uma cidade cananéia (dos Jebuseus). No entanto, Jerusalém deve a sua existência unicamente a Yhwh desde os tempos primordiais (Sl 93,1; Is 14,32); ele a tornou sólida e inabalável (Sl 46,6) para sempre (Sl 48,9) e a escolheu para lá “fazer habitar o seu nome” (Dt 16,2), pois “a sua moradia está em Sião” (Sl 76,3). Exatamente neste lugar, Yhwh manifesta a sua soberania universal (v. 4a) como juiz do universo.
  4. O monte do Templo, centro de irradiação da Torah e da Palavra de Yhwh e de sua soberania, determina também uma nova ordem mundial alicerçada na justiça e na paz. Com efeito, o governo justo de Yhwh sobre Israel e todas as nações exige a eliminação da guerra e a transformação das armas em ferramentas de trabalho e, portanto, de vida para todos.

 

 

 

4. CONCLUSÃO

 

 

Dentro dessa perspectiva universalista alguns elementos se destacam com clareza:

1.          Se a tensão entre Israel e as nações é determinada pelas circunstâncias históricas, o encontro de todos com Yhwh, é situado para além da história, no fim dos tempos. É importante notar que Jerusalém e o templo desempenham a função de centro de referência, mas o seu futuro depende unicamente da iniciativa de Yhwh. É Ele quem provocará uma reviravolta para fazer da cidade santa o lugar de irradiação de sua glória que ilumina o mundo inteiro.

2.          Nesse texto Jerusalém fica totalmente passiva: é Yhwh quem toma a iniciativa de marcar o encontro das nações no templo de Jerusalém. Com efeito, elas sobem à montanha, atraídas pelas intervenções que Yhwh fez na história de Israel.

3.          É interessante observar também que as nações sobem em peregrinação ao templo não para oferecerem sacrifícios, mas para receberem a instrução da Torah e da Palavra de Yhwh, mas cabe exatamente a Jerusalém desempenhar esta “missão”!

4.          Através da Torah e da palavra de Yhwh, as nações aprendem a reconhecer a soberania de Yhwh como juiz e árbitro universal, mas nem por isso se tornam israelitas! No entanto o julgamento de Yhwh deixa intacta a identidade dos povos, mas transforma totalmente a situação: tudo aquilo que era expressão de agressividade, de destruição e de morte, deve ao contrário construir uma paz universal e servir de instrumentos necessários para proporcionar a todos uma vida plena.

5.          Enfim Jerusalém e o templo podem ser considerados como instrumentos mediante os quais Yhwh se faz conhecer entre as nações. Pelo testemunho e pela mediação dos seus fiéis subindo em peregrinação ao templo Yhwh vai oferecer sua comunhão de vida a todas as nações. Não é o povo de Israel que deve sair ao encontro dos povos, mas deve deixar sair de dentro dele (de sua vida concreta) a “Torah e a palavra de Yhwh”. Nesse sentido a sua “missão” consiste unicamente em ser “testemunha” da soberania universal de Yhwh.

 

 

 

5. PERGUNTAS

 

 

Escolher e analisar outros textos do AT procurando descobrir:

. Qual é a relação entre Israel e as nações?

. Qual é a função que Israel desempenha em relação aos outros?

. Qual a importância das outras nações?

. A abertura universal é fruto da iniciativa divina? Das circunstâncias históricas? Da pressão dos outros povos?

 

 

 

6. BIBLIOGRAFIA

 

 

ASURMENDI, J.M, Isaias 1-39, (Cadernos Bíblicos), São Paulo: PAULUS, 1980.

BRIGHT, J., História de Israel, São Paulo: PAULUS, 2003.

KAISER, W. C, Mission in the Old Testament. Grand rapids, MI, Baker Books, 2001.

MARTIN-ACHARD, R., Israël et les nations. La perspective missionaire de l’Ancien Testament, Paris-Neuchatel: DESCLAUX & NESTLÉ, 1959.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DIAZ, J.L, Profetas. Comentario, Vol I, Madrid: Cristiandad, 1980.

SENIOR, D.; STUHLMUELLER, C, Os fundamentos bíblicos da missão, São Paulo: Paulinas, 1987.

ZENGER, E. (et alii), Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, LOYOLA, 2003.