2.2. PERSPECTIVA DA MISSÃO EM PAULO

 

Sergio Bensur

 

 

1. RESUMO E OBJETIVO

 

 

Resumo

Paulo era um judeu de língua grega, formado segundo a tradição palestinense, desempenhou com intensa paixão a sua missão entre os Gentios da Ásia Menor e da Grécia. Cidadão romano desde o nascimento (At 22,29) não foi o 1o missionário de sua época, mas sem dúvida foi o maior, porque era a pessoa mais qualificada para realizar a missão cristã entre o mundo judaico e o mundo greco-romano, pois pertencia a ambos. É claro que não é fácil entender esta figura complexa e ao mesmo tempo fascinante, mas é possível perceber alguns traços fundamentais de sua personalidade e de sua atividade que ele mesmo deixa transparecer em seus escritos. Por este motivo é bom lembrar que as cartas mais importantes foram escritas durante o período mais intenso de sua atividade apostólica. Com efeito, todas essas cartas, a não ser Romanos, foram endereçadas a comunidades que surgiram graças ao esforço e à fadiga do trabalho missionário de Paulo.

 

Objetivo

Sem entrar na complexidade do pensamento teológico de Paulo das “grandes cartas” (Rm; 1-2Cor; Gal), é possível encontrar um testemunho “histórico”muito interessante: a 1Ts fornece uma imagem preciosa, embora limitada, da missão das primeiras comunidades cristãs. Evidentemente Paulo ainda não apresenta a temática teológica das “grandes cartas”, mas mostra dois elementos importantes:

a)   a pregação apostólica usava esquemas catequéticos herdados do judaísmo;

b)   a adesão à mensagem do Evangelho comportava uma aceitação do Deus único e do seu Filho Jesus Cristo, morto e ressuscitado (1Ts 1,9-10).

O texto proposto pertence, portanto, ao 1o documento escrito do NT (50/51dC), é importante porque permite encontrar alguns aspectos da experiência de fé das primeiras comunidades, numa das grandes cidades do império romano, e, ao mesmo tempo, revela a vitalidade do anúncio do Evangelho.

 

 

 

2. TEXTO CENTRAL - 1TS 2,1-12:

ATITUDES APOSTÓLICAS

 

 

É interessante notar que a eficácia do anúncio evangélico só pode ser conhecida pelos frutos que produz. Paulo lembra a atitude dos fiéis que acolhem a Palavra (1Ts 1,6; 2,13.14) e a atitude dos apóstolos que lhes transmitiram  o Evangelho (1Ts 1,5; 2,1-12). O trecho indicado evidencia o 2º aspecto, pois o anúncio do Evangelho, para ser autêntico exige algumas condições.

 

vv .1-2 – O ponto de partida é a recordação do encontro positivo de Paulo e seus colaboradores com os tessalonicenses, logo após a experiência negativa em Filipos (At 16,19-24 fala de insultos, açoites e prisão) onde os missionários sofreram muitas dificuldades.Contudo eles não desanimaram porque encontraram no próprio Deus a coragem de continuar, de fato tinham consciência de serem enviados por Ele. A missão consiste (1) em ter consciência da iniciativa de Deus; (2) em proclamar com franqueza o Evangelho; (3) num contexto de “grandes lutas”.

 

vv. 3-4 – A atividade missionária (“exortação” significa proclamar o Evangelho e as respectivas exigências éticas) é qualificada negativamente porque deve ser realizada (1) sem engano, (2) sem intenções desonestas e (3) sem astúcias. A proclamação do Evangelho não usa nenhuma armadilha para prender os seus destinatários, mas deixa as pessoas livres de aderir ou não. A repercussão  da atividade dos missionários relembra a iniciativa divina: Deus lhes entregou o Evangelho porque os achou dignos para esta missão.Além disso Paulo comprova a gratuidade dessa missão mostrando que as situações difíceis e os sofrimentos enfrentados qualificam os apóstolos como autênticos ministros do Evangelho, com o fito não de agradar aos homens, mas unicamente a Deus.

 

vv. 5-6 – Uma outra série de 3 atitudes negativas não deve afetar a missão dos pregadores do Evangelho: nem a adulação, nem a ganância ou desejo de ter mais, nem a busca de elogios de quem quer que seja! Para comprovar essa dimensão apostólica Paulo apela ao testemunho de Deus, e isso é suficiente para mostrar que eles em Tessalônica não procuraram a aprovação de ninguém, pois a missão tem sua origem no próprio Deus.

 

vv.7-8 – Tudo isso é tão profundo e significativo que eles renunciam até aos direitos e benefícios que a autoridade de “apóstolos” lhes concede. É bom observar que Paulo atribui esse título não somente a si mesmo, mas também a Silvano e a Timóteo, sinal de que no início da década de 50 esse título ainda não indicava somente os “Doze”. Ao peso da autoridade apostólica Paulo opõe uma atitude de ternura materna chegando a ponto de doar não só o Evangelho, ma também a própria vida. Trata-se de um amor desinteressado, profundo e sem medidas que não se identifica com uma simples comunicação de uma mensagem por importante e significativa que seja. Trata-se de uma relação inter-pessoal que envolve ao mesmo tempo mensageiros, mensagem e destinatários.

 

vv. 9-10 – Tudo isso vai além dos puros sentimentos, com efeito, Paulo faz questão de lembrar o trabalho e a fadiga que foram necessários  para o desempenho de sua missão. Esta dimensão qualifica mais uma vez a atividade dos missionários, pois trabalho e fadiga são sinais de gratuidade total para não ser um fardo pesado para ninguém. Eles pregaram o Evangelho “noite e dia” isto é constantemente e sem descanso, sem exigir nada em troca, nem mesmo alimento (cf 1Cor 9). Nessa altura Paulo apela ao mesmo tempo ao testemunho dos tessalonicenses e de Deus para confirmar positivamente o comportamento dos missionários em contraste com o v.3 e os vv. 5-6, qualificando-o de “puro, justo e irrepreensível”.

 

vv. 11-12 – Na parte final, Paulo acrescenta à imagem da ternura materna aquela de  pedagogia paterna para expressar a responsabilidade e a solicitude para que os filhos cresçam e alcancem a maturidade. Do mesmo jeito os pregadores do Evangelho não pouparam esforço para orientar cada um dos fiéis no caminho da vida em sintonia com o chamado de Deus para introduzi-los no seu reino glorioso. Para realizar esta missão usaram todos os recursos disponíveis: exortações no sentido de interpelar os ouvintes no que diz respeito às exigências da fé; encorajamentos para manter viva a esperança eliminando temores e angústias; conjurando/admoestando para tomar livremente uma boa decisão ou para se manter nela com confiança.

 

 

3. CONCLUSÃO

 

 

Em contraste com os pregadores itinerantes da época que iam de cidade em cidade pregando filosofias, doutrinas e religiões esotéricas, Paulo traça um retrato diferente do “mensageiro” do Evangelho segundo as seguintes características:

1.      Coragem,,franqueza, autenticidade (vv.1-2) diante das dificuldades e dos sofrimentos ele tem sua segurança na certeza da presença e da ação de Deus que acompanham a “Missão”.

2.      A motivação (vv. 3-4) fundamental de quem prega o Evangelho está na iniciativa divina, por isso realiza a sua missão sem engano, sem intenções desonestas e sem armadilhas para capturar os ouvintes, unicamente para agradar a Deus.

3.      O apóstolo deve se apresentar efetivamente (vv. 5-6) sem adulação, sem ganância e sem buscar os elogios de ninguém, porque poderia ser considerado um “embusteiro” qualquer.

4.      Renunciando a todo privilégio, inclusive o de apóstolo (vv.7-8) ele deve manifestar uma ternura materna até as últimas conseqüências, estreitando com seus destinatários uma relação humana muito forte.

5.      A missão exige uma disponibilidade total (vv.9-10) em que a fadiga e o trabalho expressam a dimensão de gratuidade constante da pregação do Evangelho. Com efeito, o apóstolo deve ser o primeiro a viver o que anuncia.

6.      O evangelho interpela cada um (vv.11-12), pois como a figura paterna o apóstolo deve saber orientar segundo as diversas circunstâncias, ora exortar, ora encorajar, ora conjurar. A solicitude “paterna” do missionário leva a comunidade a alcançar a maturidade de sua fé.

 

 

 

4. PERGUNTAS, TAREFAS, APROFUNDAMENTOS

 

 

Escolher e analisar outros textos de Paulo enfocando a dimensão missionária:

. Qual é o método missionário?

. Qual é o conteúdo da pregação de Paulo?

. Quais são as exigências para que o anúncio do Evangelho seja eficaz?

. Por que Paulo faz questão de trabalhar para não ser de peso para ninguém?

. Por que a missão não pode esquecer a dimensão comunitária?

 

 

 

5. BIBLIOGRAFIA

 

 

BASLEZ, M-F, Saint Paul, Paris: Fayard, 1991.

COMBLIN, J, Paulo apóstolo de Jesus Cristo, Petrópolis: Vozes, 1993.

COTHENET, E, São Paulo e o seu tempo (Cadernos Bíblicos), São Paulo: Paulus, 1985.

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FABRIS, R, Para ler Paulo, São Paulo: Loyola, 1996.

FABRIS, R, Paulo apostolo dos Gentios, São Paulo: Paulinas, 1999.

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