2.3. A MISSÃO NOS SINÓTICOS
Sergio Bensur
1. RESUMO E OBJETIVO
Resumo
os Evangelhos
Sinóticos não apresentam uma visão unitária da “missão”. Embora tendo um pano
de fundo comum cada um deles tem seu próprio jeito de considerar a missão
desenvolvendo uma perspectiva original e peculiar.
Por exemplo, um
aspecto que em Mateus chama a atenção é que a missão de Jesus e da
Igreja está profundamente enraizada nas tradições judaicas (por isso ele dá
muita importância às Escrituras), mas ao mesmo tempo está aberta desde o começo
ao mundo dos pagãos.
Marcos ao contrário mostra a missão de Jesus e dos
discípulos dentro dum horizonte difícil e sombrio: é uma experiência de missão
que deve enfrentar muitas dificuldades e sofrimentos.
Por sua vez, Lucas
em sua ampla obra em 2 volumes – Evangelho e Atos dos Apóstolos – insere a
missão no contexto da “história da salvação”. Ele mostra que a missão de Jesus
de um lado marca o ponto culminante das expectativas messiânicas do povo de
Israel, mas do outro lado inaugura os últimos tempos entregando à Igreja a
tarefa de dar continuidade à missão de Jesus dilatando a sua mensagem até as
extremidades da terra.
Objetivo
Dentro do limite de um “esquema de aula” evidentemente não
é possível levar em conta senão alguns aspectos da “missão” porque o horizonte
dos Sinóticos é amplo, complexo e diversificado. Por este motivo é necessário
de alguma forma selecionar um texto. A análise do texto bíblico escolhido quer
ser simplesmente um instrumento de leitura para mostrar como é possível
reconhecer o enfoque de um determinado evangelista, sem ter naturalmente a
pretensão de esgotar o assunto. Geralmente
Mt é conhecido como o evangelista do “grande mandato” missionário a
partir do final: Mt 28,16-20. No entanto no início da atividade pública de
Jesus é possível reconhecer alguns elementos que determinam o desenvolvimento
da missão de Jesus ao longo do Evangelho.
2.
TEXTO CENTRAL - MT 4,12-25:
INÍCIO
DA ATIVIDADE DE JESUS.
Após a pregação de João batista, o
Batismo (3,1-17) e a superação das tentações (4,1-11) Jesus está pronto para
inaugurar a sua atividade pública a ser desenvolvida em 3 etapas:
1.
Na
Galiléia, Jesus deixa Nazaré para se estabelecer em Cafarnaum, onde proclama o
Reino dos Céus (4,12-17).
2.
A
narração da vocação dos primeiros discípulos assinala desde o começo o núcleo
da “igreja” como comunidade de irmãos (duas duplas de irmãos: Pedro e André,
Tiago e João) (4,18-22).
3.
O
sumário das atividades de Jesus apresenta os temas principais do evangelho
(4,23-25):
Jesus
anuncia (4,17. 23)
Jesus
ensina (4,23; 9,35)
Jesus cura (4,23; 9,35).
Dessa forma Mt realça a tripla MISSÃO
DO MESSIAS: Mensageiro do Reino + Mestre + Salvador (Kérux + didáskalos
+ terapeuta), e a tripla MISSÃO DA IGREJA: anunciar + ensinar +
libertar.
1) 4,12-17: Jesus inaugura o
Reino a partir da Galiléia
O que logo salta aos olhos é o
fato de Jesus iniciar a sua missão depois da prisão de João batista e na região
da Galiléia. Em 1o lugar ele deixa Nazaré (lugar de sua vida,
de seus trabalho e de sua família) para morar em Cafarnaum. Este
elemento é muito significativo porque mostra que Jesus antes de pedir aos
discípulos de deixar tudo para segui-lo, ele mesmo deixa o seu ambiente
particular para se situar num ambiente aberto e universal.
Cafarnaum é um centro importante à beira do
lago onde passa um dos caminhos principais que liga a Galiléia com Damasco,
situado “nos confins de Zabulon e Neftali”: trata-se de uma região onde
vive uma população mista e que, portanto, tem intercâmbio comercial e cultural
com o mundo pagão. É o ponto de referência fundamental da atividade de Jesus.
O
que é interessante notar é que o evangelista mostra que esta mudança de Jesus
de Nazaré a Cafarnaum se realiza segundo o projeto de Deus, por isso Mt usa a
“fórmula de cumprimento” citando a profecia de Is 8,23-9,1. Entretanto ele está
em sintonia com a tradição evangélica comprovada pelos outros evangelistas (Mc
1,21; Lc 4,31; Jo 2,12).
Se
na comunidade de Mt há judeu-cristãos contrários à abertura universal da
mensagem evangélica, o evangelista deixa bem claro que se eles insistirem nesta
posição estão colocando em jogo o sentido profundo da missão de Jesus. Para Mt
Jesus não é só o Messias de Israel, mas é também o Salvador do mundo, pois as
próprias Escrituras indicam que esta perspectiva universal já estava presente
na tradição de Israel.
2) 4,18-22: o núcleo de uma
comunidade de irmãos
A narração da vocação dos
primeiros discípulos revela a presença de um esquema narrativo muito simples
que provavelmente, a partir de recordações históricas, a comunidade cristã
transformou num “modelo” referencial teológico-catequético. Trata-se de duas
cenas paralelas que narram a vocação/missão dos primeiros discípulos (duplas de
irmãos): Jesus caminhando à beira do lago da Galiléia vê alguns homens que
trabalham como pescadores, os chama e imediatamente eles o seguem.
Alguns detalhes chamam a atenção:
a) O
evangelista de acordo com uma visão teológico-catequética dos fatos (não quer
fornecer uma reconstrução histórica exata) insiste na relação pessoal com
Jesus. Em 1o lugar aparece o tema da itinerância de
Jesus: o fato de caminhar à beira da praia lembra o êxodo e a passagem da
escravidão para a liberdade. Em 2o lugar por 4 vezes é
repetida a palavra irmão mostrando desde o começo que Jesus quer
constituir uma “comunidade de irmãos” onde a fraternidade seja a
expressão máxima da liberdade!
b) A
expressão: “vinde atrás de mim” indica antes de tudo a iniciativa
de Jesus: ele não é pura e simplesmente um modelo a ser imitado, mas é início e
o fim do “caminho” além de ser o companheiro da caminhada. Mas
isso revela também a identidade do discípulo, o qual não deve imitar, mas
“seguir” a Jesus que significa literalmente “ir atrás dele!”.
Inclusive o termo “imediatamente”
assinala um momento decisivo que marca uma reviravolta na própria vida (em
seguida haverá: paradas, dúvidas, infidelidades, contradições, etc.). Os discípulos deixam tudo: os meios
de trabalho (redes, barco) patrimônio e família (o pai).
c)
Enfim, a expressão “pescadores de homens” indica que a missão não se
limita ao povo de Israel, mas se estende a todos os povos numa dimensão
realmente universal.
3) 4,23-25: Sumário da atividade de Jesus
O evangelista apresenta o resumo
da atividade de Jesus realçando 3 aspectos: ensinamento + proclamação + curas. Em seguida a narração
desenvolve estes motivos que serão lembrados também no fim desta secção (9,35).
1) O ensinamento de Jesus
evidentemente não é uma palavra qualquer, mas possui uma força e um significado
preciso: apresenta exigências éticas e interpreta a Torah revelada no AT. Com
efeito, mencionando o ambiente da sinagoga Mt quer indicar a ligação constante
com a Escritura e com o lugar onde era lida e proclamada publicamente.
2)A proclamação (anunciando
o evangelho de Deus) é um anúncio alegre que retoma as expressões do
Segundo-Isaías: o profeta anunciava a vinda de um mensageiro que proclama a
salvação (Is 52,7). No texto profético “anúncio alegre” e “reino de Deus”
aparecem juntos, como no texto de Mt. Mais tarde um outro profeta, o
Terceiro-Isaías fala de um misterioso mensageiro divino que exprime
pessoalmente a própria missão nesses termos: “O Espírito do Senhor está
sobre mim...” (Is 61,1). Mt retomando o pano de fundo profético quer indicar
que Jesus é o mensageiro definitivo do Anúncio alegre. Deus
decidiu soberanamente de salvar a humanidade. Com efeito, mais adiante,
respondendo aos discípulos de João Batista Jesus aplica a si mesmo o texto de
Is 61,1 (11,5).
3)As curas. Os gestos libertadores
de Jesus mostram a eficácia e a credibilidade da Palavra. Do outro lado a
Palavra mostra através dos gestos o seu significado autêntico. E evangelho fala
de dimensão “terapêutica” pois de fato as curas são sinais concretos do
cumprimento das promessas messiânicas (10,1.7s.; 11,4-5).
4)Além disso, Mt assinala que a fama
de Jesus se espalha pela Síria ou segundo Mc 1,28 pela Galiléia e regiões
circunvizinhas. Também aqui Mt quer mostrar que Jesus não se limita a um
pequeno grupo, mas a sua mensagem deve alcançar todo o povo e
espalhar-se por toda a região. O último v. retoma a lista das regiões
das quais provinham os ouvintes de João Batista (3,5), mas acrescenta a
Galiléia, cuja importância já foi frisada pela citação de Is 8,23-9,1, e
menciona a Decápole região considerada pagã. O cenário está finalmente
preparado para desenvolver a atividade messiânica de Jesus através da Palavra
(Mt 5-7) e de Gestos libertadores (Mt 8-9).
3. CONCLUSÃO
1)
Jesus
deixa Nazaré para se situar em Cafarnaum num contexto aberto aos pagãos, centro
de referência de toda a sua atividade. Esta mudança é interpretada à luz das
Escrituras (Is 8,23-9,1) e está em perfeita sintonia com os outros
evangelistas.
2)
Mt
deixa bem claro que a missão de Jesus está aberta ao mundo pagão desde o
começo. Quem, portanto, coloca em discussão esta abertura universal aos
Gentios, está colocando em jogo a missão de Jesus e o seu significado
salvífico.
3)
A
narração da vocação dos primeiros discípulos mostra que a missão de Jesus
retoma a tradição bíblica (o tema do êxodo) e revela o seu projeto de
constituir uma “comunidade de irmãos”. Com efeito, no fim do evangelho os
discípulos (igreja) receberão o imperativo de “fazer discípulos/irmãos todos
os povos” (28,19-20), mas desde o início, essa missão universal está
claramente indicada pela expressão “pescadores de homens”.
4)
O
“sumário” (vv.23-25) apresenta os aspectos característicos e fundamentais da
atividade de Jesus: ele ensina a partir do núcleo fundamental da
experiência de Israel: interpreta a Torah de acordo com a comunhão de vida
estabelecida por Deus na Aliança. Por isso Ele proclama o Evangelho de
Deus e realiza gestos de cura.
5)
Enfim
assinalando que o ensinamento de Jesus em palavras e gestos se espalha cada vez
mais, Mt volta a insistir que a missão de Jesus e dos discípulos não se limita
a um pequeno grupo, mas tem desde sempre um alcance universal. Em resumo se
destacam os Temas típicos de Mt:
a.
o
cumprimento das promessas proféticas do AT no NT;
b.
a
abertura aos pagãos;
c.
a
constituição de um “novo” povo de Deus (universal e fraterno);
d.
os
discípulos recebem a missão de levar adiante a mesma missão de Jesus
(pescadores de homens);
e.
a
proclamação do Reino através de gestos de misericórdia para todos os que
sofrem.
4. PERGUNTAS, TAREFAS,
APROFUNDAMENTOS
Escolher e analisar outros textos
dos Sinóticos do ponto de vista da missão de Jesus e da comunidade cristã.
. Qual é a
relação de Jesus com o Judaísmo contemporâneo?
. Como e em
que ele supera a tradição judaica para abrir-se ao mundo dos Gentios?
. Em que
consiste exatamente a missão dos discípulos?
5. BIBLIOGRAFIA
L’EPLATTENIER, C, Leitura do
evangelho de Lucas, São Paulo: Paulinas, 1993.
MATEOS, J - CAMACHO, F, O
evangelho de Mateus, São Paulo: Paulinas, 1993.
MATEOS, J – CAMACHO, F, Marcos, São
Paulo: Paulus, 1998.
OVERMAN, J. A, Igreja e comunidade
em crise, São Paulo, Paulinas, 1999.
OVERMAN, J. A, O evangelho de Mt e
o judaísmo formativo, São Paulo: Loyola, 1997.
SCHNACKENBURG, R, Jesus cristo nos
4 evangelhos, São Leopoldo (RS): Unisinos, 2001.
VV.AA, Evangelhos Sinóticos e Atos
dos Apóstolos, São Paulo: Paulus, 1986.
VV.AA, Leitura do Evangelho de Mt
(Cadernos Bíblicos), São Paulo: Paulus, 1982.