2.4. A MISSÃO EM SÃO JOÃO
Pe. Francisco Rubeaux, omi
1. RESUMO E OBJETIVO
Resumo
A partir do princípio de que só se existe “missão”
quando alguém envia, que alguém é enviado, que alguém é destinatário do envio e
que se tem uma mensagem por parte de quem envia destinada aos destinatários
pelo intermédio do enviado, destacaremos nesta aula que enfocará a “missão” no
Evangelho segundo São João, o Pai que envia o Filho para trazer uma Boa Nova
(Evangelho), vida e vida em abundância, para toda a humanidade. Jesus foi
enviado como Salvador do mundo (João 4, 42). Tentaremos estabelecer uma visão
de conjunto a partir de cada um desses tópicos. Por fim encontraremos uma
síntese elaborada da missão numa análise do prólogo (João 1,1 a 18).
Objetivo
No seu
contexto comunitário (ver as cartas joaninas), o Evangelho segundo São João
poderia parecer, à primeira vista, a memória da pessoa e da prática de Jesus em
vista de uma vivência interna das comunidades. É claro que existe um constante
atrito entre Jesus e as autoridades, atrito que vem clarear os atritos entre as
comunidades cristãs e as autoridades judaicas do tempo. Mas, nesta aula,
gostaríamos de destacar e analisar alguns textos joaninos que são fundamentais
para a missão. João não se preocupa exclusivamente em transmitir o Espírito de
Jesus para uma autêntica vivência cristã. A comunidade se constrói não para ser
um clube dos amigos e amigas de Jesus, mas para que, com o testemunho da
vivência fraterna, o mundo possa chegar a crer (João 13, 34-35 e 17, 20-21). A
comunidade não pertence ao mundo, mas está no mundo e nunca foi intenção de
Jesus tirar os seus discípulos do mundo: “Pai, eu não te peço que os tires do
mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo como eu não sou do
mundo” (João 17, 15-16).
João
está consciente de que não há comunidade de discípulos e de discípulas de Jesus
sem a missão. A comunidade não está voltada para si, mas para o mundo. A
comunidade só existe em função de uma missão que é a sua razão de ser.
2. AMBIENTAÇÃO
2.1.
Conceitos
O termo
“missão” (envio) refere-se, necessariamente, a quatro outros termos. Não há
missão se ninguém envia. É verdade que pode acontecer que alguém se apresente
como “enviado” sem o ser. Aconteceu no Antigo Testamento com os falsos profetas
(Deuteronômio 18,20-22 e Jeremias
14,14). O apóstolo São Paulo na sua segunda carta aos coríntios faz referência
a pessoas metidas a evangelizadoras, missionárias, mas que, na realidade,
pregam a si mesmas (2 Coríntios 4, 2 e 5; 1 Tessalonicenses 2, 4-5).
Em todas as narrações bíblicas, podemos constatar que quem envia é Deus mesmo
(Isaías 6, 8). Pode ser que, em seu nome, outra pessoa envie alguém, mas Deus
permanece sempre a origem de toda missão (envio).
Se alguém
envia, é claro que tem alguém que é enviado. Deus envia os seus mensageiros. O
apelo de Deus chamando para enviar pode ser ouvido, aceito, recusado ou
simplesmente não escutado. Nas experiências bíblicas, temos todos os exemplos
possíveis, desde a espontaneidade de Isaías (“Eis me aqui Senhor, envia-me”
Isaías 6, 8) até a recusa e os motivos de desculpa como Moisés (“Sou gago”,
Êxodo 4, 10) ou ainda Jeremias (“Sou jovem demais”, Jeremias 1, 6-7). Há também
a recusa total como Jonas que recebeu a missão de levar o apelo divino à
conversão em Nínive, que se situa ao leste da Palestina, e embarcou para o
oeste. Uma maneira clara de recusar a missão, pois virou as costas a seu
compromisso.
Se Deus envia,
envia com um objetivo, tem sempre um motivo para o envio. E a mensagem de Deus
é sempre uma Boa Nova (Evangelho), mesmo quando se trata de um apelo à
conversão, pois dela resultará a felicidade e a paz, como afirma o salmista:
“’É de paz que o Senhor Deus nos fala” (Salmo 85, 9).
Enfim, para que
a missão seja completa, levada ao seu cumprimento, necessita de destinatários.
No livro de João, todas e todos são destinatários. Deus não exclui ninguém da
boa mensagem que ele comunica por seu Filho. A todas e todos a mensagem é
transmitida: mulheres e homens, judeus e gregos (gentios), puros e impuros: a missão
é universal.
2.2. Histórico
O livro do
Evangelho atribuído ao apóstolo João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago,
recebeu sua forma final, provavelmente, no fim do primeiro século da E.C. Temos
fragmentos desse livro datados dos anos de 120 da E.C., descobertos no Egito no
século passado: trata-se dos versículos 31-33 e 37-38 do capítulo 18.
Por três vezes, o livro refere-se à expulsão dos
discípulos de Jesus das sinagogas (João 9, 22;
12,42; 16,2). Ora, essa medida
foi tomada pelas autoridades judaicas da Academia de Jamnia (Jabné), após a
destruição da cidade de Jerusalém e do Templo pelo general romano Tito, no ano
de 70 da E.C. Os fariseus, reagrupados ao redor do doutor e mestre, Rabi
Johanan bem Zakkai, reorganizam a vida do povo judeu, agora espalhado por todo
o mundo habitado. Os judeus não formam mais uma nação, pois lhes falta o
principal, que é uma terra, mas continuam um povo e, por isso, precisam se
estruturar, se dar normas e referências, salvaguardar a sua identidade como Povo
de Deus, manter a sua maneira de viver como judeus.
O livro, na sua
elaboração final, ressente-se desse clima polêmico. Frente às comunidades
judaicas de obediência farisaica que estão se organizando, as comunidades do
Nazareno precisam também afirmar a sua identidade. Mas o perigo, frente à
ameaça judaica, é fechar-se para conservar, preservar essa identidade. O livro
de João vai afirmar, alto e bom tom, que para ser uma comunidade de discípulos
de Jesus é preciso ser missionária. Não podem ficar voltados para dentro, têm
de se abrir, ir ao encontro, como Jesus que foi enviado pelo Pai e que enviou
os seus discípulos: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (João 20, 21).
É abrindo para a missão que a identidade da comunidade será fortalecida. Se fechar,
é o perigo, é a asfixia.
3.
MENSAGEM
Vamos agora
retomar cada um dos elementos constitutivos da missão e procurar ver como no
livro de João eles são apresentados. Mais do que uma análise pormenorizada de
textos, tentaremos formar uma visão de conjunto, abordando vários textos em
cada item.
3.1. Quem envia
“Deus amou
tanto o mundo que enviou o seu Filho” (João 3, 16). Esse versículo do terceiro
capítulo de João não deixa nenhuma dúvida quanto à origem da missão de Jesus,
desde já apresentado como Filho.
Antes do envio
do Filho, há no livro de João uma outra pessoa apresentada como enviado: “Houve
um homem, enviado por Deus, seu nome era João” (João 1, 6). João, que nunca é
chamado de Batista no livro do evangelista em questão, e sim de testemunha,
veio com a missão de reconhecer o Enviado de Deus e de apresentá-lo ao povo.
“Aquele que me enviou para batizar com água, me disse: aquele sobre quem vires
o Espírito Santo descer e permanecer é o que batiza com o Espírito Santo. Eu vi
e dou testemunho que ele é o eleito de Deus” (João 1, 33-34). Nesses dois
versículos, temos uma ampla visão do que vem a ser a missão na teologia de
João. O enviado de Deus tem por missão reconhecer uma presença na realidade da
vida e testemunhar essa presença. “Eu vi e dou testemunho”. O conteúdo de sua
missão o precede. Ele não traz nada senão a certeza de que existe uma presença
salvífica que ele deve descobrir e ajudar a descobrir. João veio em nome de
Deus e cumpriu a sua missão, designando a Jesus como aquele que vem batizar no
Espírito Santo. Ele ainda apontará Jesus como o “Cordeiro de Deus”, dando assim
a dois dos de seus próprios discípulos a oportunidade de seguirem a Jesus e de
se tornarem os seus primeiros discípulos. O missionário não trabalha para si,
mas para quem o enviou.
Jesus, aos
poucos, vai se revelando e, ao se revelar, revela quem o enviou. Um trabalho
interessante seria anotar quantas vezes Jesus fala de “quem me enviou” Às
vezes, identifica a pessoa, outras vezes não, mas sempre o contexto permite entender
que se trata do Pai. Ele se identifica
plenamente com quem o enviou: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me
enviou e realizar a sua obra” (João 4, 4). Essa identidade entre o Pai que
envia e o Filho que é enviado é tão profunda que cria uma comunhão de vida e
ação: o enviado faz o que faz quem o enviou e por isso merece a mesma honra:
“Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (João 5, 23).
As obras de
Jesus testemunham quem ele é, mas também o Pai testemunha em seu favor: “Tais
obras eu as faço e elas dão testemunho de que o Pai me enviou. Também o Pai que
me enviou dá testemunho de mim” (João 5, 36-37) “Vim em nome de meu Pai mas não
me acolheis” (João 5, 43).
O Cristo de
João é consciente da missão recebida e de quem a recebeu. “Assim como o Pai que
vive me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim”
(João 6, 57). “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (João 7,
16). “Não vim por minha própria vontade, mas é verdadeiro aquele que me enviou.
Eu, porém, o conheço, porque dele procedo e ele foi quem me enviou” (João 7,
28-29).
3.2. Quem é enviado
Logo no início
da vida pública de Jesus, João dá o seu testemunho, afirmando ter reconhecido o
enviado de Deus. Ele designa Jesus por vários nomes e todos se referem ao
Messias: “eleito de Deus” (“servo sofredor”, segundo Isaías), “Cordeiro de
Deus” (outro nome atribuído ao servo e imagem do Messias, na tradição judaica).
Ele também é aquele que batiza no Espírito Santo. Para João, Jesus ainda é aquele
de quem ele não é digno de desatar a correia da sandália. É uma possível alusão
ao costume de desatar a sandália para lançá-la no terreno do qual a pessoa se
tornava proprietária. João não é o dono da missão, muito menos do povo que
Jesus vem resgatar (o verdadeiro Goél- redentor-resgatador é Jesus). Nesse
sentido. seria a mesma alusão ao amigo do esposo, feita por João em 3, 29-30. O
amigo do esposo era aquele amigo mais íntimo que trazia até o esposo a jovem
esposa.
É possível que
haja uma referência à divindade de Jesus, quando João afirma: “Depois de mim
vem um homem que passou adiante de mim porque existia antes de mim” (João 1,
30). Uma coisa é certa, no livro de João, Jesus é o Messias, o enviado de Deus;
João é uma simples testemunha, como ele mesmo afirma a quem veio lhe perguntar:
“Quem és tu?”, ele respondeu: “Eu não sou o Cristo” (João 1, 20).
É Jesus mesmo
que vai revelar quem é em sua essência profunda, além de sua existência humana.
De fato, ao revelar quem o enviou, Jesus revela-se como o enviado, mas como o
Filho, pois é o Pai quem o enviou. Para os judeus, essa é certamente a
revelação mais chocante, pois entendem muito bem que Jesus se faz o igual de
Deus: “Nós não te lapidamos por causa de uma boa obra, mas por blasfêmia,
porque sendo apenas homem, tu te fazes Deus” (João 10, 33). Jesus realiza a sua
missão tanto pelas palavras, seus ensinamentos, como pelas suas ações: “A
palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou” (João 14, 24). “O
Filho por si mesmo, nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer; tudo o
que este faz, o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o Filho e lhe revela
tudo o que faz” (João 5, 19-20).
A vida plena
encontra-se no reconhecimento de quem é Deus, mas também de quem Ele enviou: “A
vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro, e
aquele que tu enviastes, Jesus Cristo” (João 17, 3).
Enviado do Pai,
Jesus é a plena revelação de quem o enviou: “Quem me viu, viu o Pai” (João 14,
9). Existe uma perfeita identificação entre quem envia e quem é enviado.
Característica típica dessa
pedagogia progressiva na revelação de quem é o enviado de Deus, nós encontramos
no diálogo de Jesus com a samaritana. Esse diálogo torna-se um excelente
exemplo de diálogo missionário. Em primeiro lugar, a mulher espanta-se com o
fato de que um judeu possa falar com uma samaritana pelo fato de ser
samaritana, mas podemos acrescentar pelo fato de ser ela uma mulher e
encontrar-se num lugar público. Depois vai se espantar, perguntando-se se o seu
interlocutor é maior do que o pai Jacó, isto é, é maior do que os patriarcas.
Assim, ela chega a reconhecer nele um profeta, talvez o profeta que os
samaritanos, adeptos do Pentateuco, esperavam como um outro Moisés
(Deuteronômio 18, 18). Ao se declarar como o profeta-Messias, Jesus dá a
entender muito mais, pois afirma: “Sou eu”, que é o nome divino. Recebemos
nessa narração uma grande lição de missiologia por parte de Jesus e das
comunidades joaninas. O missionário parte da realidade preocupante do seu interlocutor
e, aos poucos, o leva à revelação plena.
Por sinal, a
finalidade da escrita do livro de João foi a mesma: “Estes sinais foram
escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo,
tenhais a vida eterna em seu nome” (João 20,31).
3. 3. Quem envia a mensagem?
Essa
identificação entre o enviado e quem o envia intensifica ainda mais quando
consideramos a mensagem da qual o enviado foi encarregado. Jesus afirma: “Eu
vim para que todos tinham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Ora,
essa vida plena, eterna, é a vida mesma de Deus, é participação à comunhão na
vida trinitária. “A vida eterna é que eles te conheçam a ti, o Deus único e
verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (João 17, 3). Essa vida plena
ou eterna que Jesus traz é simbolizada de muitas maneiras no Evangelho segundo
São João.
É a água da
vida, água viva que sacia todo tipo de sede e para sempre (João 4, 4). Essa
água jorra do coração do crente em rios abundantes (João 7, 37-3). Essa água
viva que Jesus oferece é próprio Espírito Santo que ele dá com a sua morte e
ressurreição.
A vida é o pão
descido do céu, maná muito superior ao maná dado por Deus no deserto. É o pão
da vida (João 6, 48-51a).
É a luz que
ilumina e dá a visão profunda das coisas e das pessoas. Quem recebe e segue
essa luz não anda nas trevas (João 9, 39). É vida restituída para quem já
morreu (João 11, 25-27).
A vida é o
próprio Jesus, pois é do seu lado aberto pelo golpe da lança que jorra a água
viva, definitiva, fonte de salvação para quem crê (João 19, 34). Jesus é a
própria mensagem que o Pai nos enviou. Por isso a salvação encontra-se na
aceitação (fé) do enviado de Deus: crer que ele é o Cristo (Messias), o Filho
de Deus, a fonte da fé e, portanto, da vida e da vida plena (João 20, 30-31).
Jesus
identifica-se plenamente com a sua missão, tornando-se Ele a própria missão.
Assim Jesus, enviado do Pai, identifica-se com quem o envia e com a mensagem de
quem o envia.
3. 4. Os destinatários da mensagem
Como já
mencionamos, a mensagem é dirigida a todas e todos, à humanidade na sua
integralidade. Na aula sobre os fundamentos da missão na Bíblia, já foi
mostrado que, no Evangelho segundo São João, existe uma apresentação universal
da missão. De fato, existe o que os biblistas chamam de “inclusão” entre o
início do segundo capítulo do livro de João e o fim do quarto capítulo. O segundo capítulo inicia com a narração das
“bodas de Caná”. Essa narração termina com as seguintes palavras: “Este início
dos sinais, Jesus o fez em Caná da Galiléia...” (João 2, 11). O quarto capítulo termina com estas
palavras: “Foi este o segundo sinal que Jesus realizou ao voltar da Judéia para
a Galiléia (João 4, 54). E foi novamente em Caná da Galiléia (João 4, 46).
Entre essas duas afirmações, Jesus percorreu o caminho que leva da Galiléia
para a Judéia e Jerusalém, caminho da missão realizada, caminho que leva até a
hora da glorificação. Mas como a hora ainda não chegou (João 2, 4), ele volta para a Galiléia. Nesse
percurso, Jesus dá sinais de sua missão, manifesta a sua glória (a glória é o
poder libertador de Deus, como Javé manifestou a sua glória no primeiro êxodo -
Êxodo 15, 21). A glória manifesta, portanto, a libertação que Jesus traz em
nome do Pai.
Nesses três
capítulos, a Boa Nova é apresentada a três grupos de pessoas ou, melhor
dizendo, a três pessoas que representam grupos determinados de pessoas.
Nicodemos representa o judaísmo oficial (Sinédrio, sinagoga, fariseus...). A
samaritana representa o judaísmo heterodoxo, os grupos que interpretam a fé em
Javé, Deus de Israel, de modo muito diferente do judaísmo oficial. Assim, os
samaritanos aceitam unicamente o Pentateuco e têm o Monte Garizim como lugar de
culto e não o templo de Jerusalém. Enfim, o oficial real, provavelmente a
serviço do tetrarca Herodes, um não judeu, um pagão. A cada um a Boa Nova é
anunciada a partir de sua maneira de crer, de viver a sua fé. Essa
universalidade da Boa Nova é também expressa no fim do episódio da samaritana.
As pessoas da aldeia chegam até Jesus, a partir do testemunho da samaritana e o
reconhecem como Messias, “salvador do mundo” (João 4, 42). Podemos constatar
também que a samaritana, assim como João, no início da vida pública de Jesus,
viu e foi dar o seu testemunho aos seus conterrâneos: “Venham ver um homem que
me disse tudo o que eu fiz” (João 4, 29). A missão da samaritana foi conduzir a
Jesus os seus vizinhos e conhecidos a partir do que ela testemunhou. Chegando
junto de Jesus, as pessoas vão por si mesmas acreditar: “Já não é mais por
causa da tua palavra que acreditamos. Nós próprios o ouvimos e sabemos que este
é verdadeiramente o salvador do mundo” (João 4, 41-42).
Há no livro de
João um outro episódio que relata essa universalidade da missão. “Havia alguns
gregos que subiram a Jerusalém para a festa. Disseram a Filipe: Queremos ver
Jesus” (João 12, 20-21). Esses gregos são provavelmente de raça não hebraica,
mas praticantes da religião judaica, eram chamados tementes a Deus ou
prosélitos. Jesus toma consciência de que sua missão vai além do povo da
Palestina, além do povo judeu. “É chegada a hora em que o Filho do Homem será
glorificado... e quando eu for elevado da terra, eu atrairei todos a mim”(João
12, 23 e 32). De novo aqui constatamos que a missão de Filipe é levar os gregos
para Jesus. Eles querem ver Jesus e o apóstolo vai facilitar esse encontro,
como já o fez com Natanael (João 1, 46: “Vem e vê”).
A missão dos
discípulos, portanto, consistirá, essencialmente, em testemunhar o que ouviram
e viram: “O que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e
nossas mãos apalparam da Palavra da vida, nós vimos e damos testemunho” (1 João
1, 1-2). E a missão será permitir que se estabeleça uma relação entre o
evangelizado e Deus. Foi essa a missão de Jesus: “Não mais vos chamo de servos,
porque o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas eu vos chamo de amigos,
porque tudo o que ouvi do Pai, eu vos dei a conhecer” (João 15, 15).
3.5. O prólogo, síntese da missão segundo São João
Se olharmos, em
primeiro lugar, a forma literária dada ao texto (João 1, 1-18), perceberemos
rapidamente que ele está escrito em forma de “quiasma”. Os últimos versículos
do texto retomam a mesma idéia apresentada nos primeiros e assim por diante, os
penúltimos com os segundos, etc. Vejamos:
A Versículos 1 e 2: “No
princípio era o Verbo...”.
B Versículo 3: “Tudo
foi feito por meio dele”.
C Versículos 4 e
5: “Nele estava a vida”.
D Versículos 6
a 9: “Houve um homem enviado por Deus”.
E Versículos
10-11: “Ele estava no mundo”.
F
Versículos 12 e 13: “se tornar filhos de Deus”.
E Versículo
14: “o Verbo se fez carne”.
D Versículo 15:
“João dá testemunho”.
C Versículo 16:
“De sua plenitude recebemos a graça”.
B Versículo 17: “A
Lei foi dada por Moisés”.
A Versículo 18: “Ninguém
jamais viu a Deus.”
Ao começar o
prólogo, o evangelista nos situa no seio da Santíssima Trindade, na comunhão de
Deus: lá está o Verbo, a Palavra, a Ação (DABAR), o Logos, Ele está com Deus,
Ele é Deus.
No fim do
prólogo, voltamos para o seio do Pai, de onde veio a Palavra, o Filho
unigênito: só ele tem o poder de nos falar do Pai, de nos explicar o Pai (exêgêsato=fazer a exegese). A Palavra veio
do Pai e volta para o Pai (João 13, 1). Esse é o percurso missionário de Jesus,
o estatuto teológico da história terrestre de Jesus de Nazaré, o Verbo
encarnado.
A Palavra que
está, desde toda eternidade, junto do Pai, voltando para o seio do Pai, é
Palavra de vida, Ela cria a vida (João 4, 46-54: o segundo sinal em Caná da
Galiléia. “Teu filho vive”).
Essa vida é
poder chegar ao pleno conhecimento de Deus, que é “graça e verdade”. “Graça e
verdade” é tradução grega de “amor e fidelidade”, ou seja, do nome de Deus
“Hesed we ‘emet” (Êxodo 34, 6; Oséias 2, 21-22; Salmo 103, 8).
Jesus veio
(enviado do Pai) para nos transmitir uma boa nova (Evangelho) que não consistiu
numa Lei (Torah), como foi a missão de Moisés, mas veio nos revelar uma pessoa.
Somente o Filho que está, desde toda eternidade, no seio do Pai podia nos
revelar o Pai, como já vimos. Assim, temos quem envia, quem é enviado e a
mensagem a ser transmitida. Os destinatários são todos aqueles que, recebendo o
testemunho do Filho que revela o Pai, vão crer na mensagem e assim poderão se
tornar filhos de Deus: aí está o coração do prólogo, os versículos 12 e 13.
Eles, no quiasma, não têm correspondentes, eles são como o miolo do texto. Às
vezes, pensamos que a mensagem central do texto encontra-se no versículo 14: “E
Verbo se fez carne”. Mas, na realidade, o Verbo se fez carne em função de uma
missão. Essa missão é nos dar a possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus
e, ao mesmo tempo, é a realização da missão. Nisto consiste a vida (João 17,
3): entrar na comunhão trinitária, conhecer a Deus e ao seu Filho que ele
enviou.
4.
PERGUNTAS, TAREFAS, PESQUISAS
4.1. Propostas de aprofundamentos
1. A comunidade joanina (João 13
a 17): o testamento de Jesus.
Após a leitura
desses capítulos, tente responder às seguintes perguntas: em que consiste a missão da comunidade?
A quem se
dirige essa missão?
Quais os meios
que a comunidade recebe para realizar essa missão?
A comunidade é
enviada. O que vai acontecer com ela? Como deve se preparar?
2. Ler o capítulo 1, 19 a 51.
Notar todos os
títulos (nomes) que são dados a Jesus.
O que esses
nomes nos revelam da figura e da missão de Jesus?
É possível
definir quem o enviou e para quê?
3. Ler o prólogo de João 1,
1-18.
Depois de reler
e de definir quem envia, quem é enviado, para que e para quem é enviado, tente
encontrar o desenvolvimento desses pontos no resto da obra de João,
principalmente nos capítulos 1,19 até 12,51.
4. Como a missão parece e é
apresentada no livro da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus (João 18 a 20).
5. Quais são os aspectos
missionários que podemos levantar no capítulo 21 do livro de João?
4.2.Vídeo
O Evangelho segundo São João,
apresentação do Evangelho pelo padre Bertolini, em aulas. Produção da Paulus.
5.
BIBLIOGRAFIA
5. 1
Livros:
Mateos Juan e Barreto Juan, O Evangelho de João. Grande comentário
bíblico. São Paulo, Paulinas, 1989.
Mateos Juan e Barreto Juan, Vocabulário Teológico do Evangelho de João.
São Paulo, Paulinas, 1989.
R.E. Brown, A comunidade do discípulo amado. São Paulo,
Paulinas, 1984.
Rubeaux Francisco, Mostra-nos
o Pai. A Palavra na vida. CEBI 1989.
Cadernos Bíblicos. Ed. Paulus.
O Cristo no Evangelho de João. São
Paulo, Paulus.
Evangelho
segundo São João. São Paulo, Paulus.
5.2. Revistas:
RIBLA: Revista de Interpretação Bíblica Latino- Americana. Petrópolis,
Vozes.
No.
22 Cristianismos originários (30-70
d.C.)
No.
17 A tradição do discípulo amado.