Segundo Núcleo
FUNDAMENTOS BÍBLICOS DA MISSÃO

Marc
Chagall, Bíblia
Sérgio
Bradanini
1.
RESUMO E OBJETIVO
Resumo. A Bíblia, em sua totalidade, aponta para uma dimensão teológica
particular e universal. O Deus que criou a humanidade é o mesmo Deus que elegeu
o povo de Israel. O Deus que “fez sair” Israel do Egito é o mesmo que “fez
sair” os Filisteus de Cáftor e os Arameus de Quir (Am 9,7). Ele é o Senhor de
toda a história e de todos os povos. Nesse horizonte global a eleição de
Israel não estabelece entre Israel
e as nações uma situação de exclusão recíproca, mas coloca os dois numa relação
necessária e bipolar. O povo de Israel desempenha na história a função de
testemunha entre as nações do Deus único; o povo da Aliança continua sendo o
detentor das promessas de salvação para si e para todos os povos. Entretanto,
também os outros povos têm uma própria história dirigida pelo mesmo Deus,
também eles têm uma Lei que não é aquela de Moisés, mas aquela de Noé, também
eles são “sujeito teológico”. O encontro entre Israel e as nações é
importante para reconhecer que também elas possuem uma própria luz, indo na
direção de Jerusalém (Is 60) ou na direção do Messias (Mt 2,1-12), porque para
elas Deus indicou um caminho a seguir (Mt 2,9-10) e nelas estão presentes a
“Semente da Palavra” e o Espírito Santo que enche o universo.
Objetivo. A busca de uma fundamentação
bíblica da “missão” leva antes de tudo a uma tomada de consciência de que a
“igreja” não é nenhum “Novo Israel”, pois este permanece o “povo de Deus” e que
não pode identificar-se com nenhuma nação ou grupo particular porque ela é e continua sendo “Ecclesia ex gentibus” e
não a “Ecclesia gentium”. A igreja também é “povo de Deus”, mas no sentido de
“congregatio fidelium”. Por este motivo a sua relação com os povos deve estar
alicerçada no respeito e na escuta. Tal atitude implica necessariamente uma
profunda valorização das nações e de suas riquezas religiosas e culturais, pois
a igreja recebe a missão de “estar com” elas e não acima delas. Ela é recebe a
tarefa de discernir a Palavra divina presente entre os povos para levá-los ao
encontro do Evangelho de Cristo. A missão da igreja não comporta nenhum plano
global para reunir todos os povos, nem
tem a função de ser juiz entre eles, mas consiste simplesmente em ser “o lugar”
onde todos eles indistintamente possam encontrar e acolher o Evangelho da
salvação.
2. FUNDAMENTOS BÍBLICOS DA MISSÃO
2.1. A missão no Antigo Testamento
2.1.1.
Introdução geral
Para evitar mal-entendidos e eventuais reducionismos,
o AT deve ser levado em consideração como um todo. Isso significa reconhecer
que o AT tem uma palavra e valor próprio e desempenha uma função determinante
em relação ao NT quando porém não se passa por cima de suas características e
peculiaridades. No que diz respeito à questão da “missão” se torna necessária e
imprescindível uma atitude de escuta.
O AT nem sempre pode oferecer as respostas certas
às nossas perguntas e satisfazer as nossas expectativas. Se por “missão” se
entende o fato de dirigir-se aos pagãos com a intenção de comunicar-lhes a
verdadeira fé e de convertê-los ao verdadeiro Deus, então o AT é uma decepção
total porque desconhece totalmente uma missão desse tipo.
Ponto de partida: o verbo hebraico
shalah: enviar/mandar.
É notório que no AT não se encontra o termo
“missão”, mas a idéia está expressa claramente no verbo “enviar/mandar”. O
verbo shalah ocorre 847 vezes e geralmente exprime o fato de
“enviar/mandar” um objeto ou uma pessoa para alcançar um determinado objetivo,
para cumprir uma determinada tarefa ou para cumprir uma ordem.
Sem entrar numa análise detalhada do termo, para a
nossa finalidade podemos levar em consideração alguns aspectos.
1. Há um certo número de ocorrências (cerca de 40)
em que o verbo indica o envio de presentes ou mercadorias (32,19:
presente; 38,17.20.23; Jz 3,15: tributo;1Sm 16,20: Jessé tomou 5 pães, um
odre de vinho, um cabrito e mandou seu filho Davi levar tudo a Saul; 1Rs
15,19; Is 16,1; etc); lançar flechas (2Sm 22,15 = Sl 18,15; Sl 144,6); o
envio das pragas da parte de Deus (Ex 9,19; 23,28) ou de benefícios
(Jl 2,19; Sl 20,3; 43,3; etc). Na maioria das vezes o verbo hebraico indica o “envio
de alguém” com uma função definida: mensageiro (Gn 24,7.40; 32,4;
37,13.14; etc); enviar ‘Palavras’ (Prov 26,6); uma carta
(2Sm11,14;2Rs 5,5)no sentido de enviar uma mensagem.
2. Chama a atenção o fato de que mais ou menos a
quarta parte dos textos tem Yhwh/Deus por sujeito, neste caso o verbo tem o
significado de “enviar/mandar alguém”. Alguns exemplos são
significativos.
a) Deus manda alguém com a função de
proteger: o anjo (Ex 23,20; 33,2; Nm 20,16; etc); pessoas que não têm
necessariamente a função de mensageiros: envia o povo pelo caminho (1Rs
8,44; 2Cron 6,34); José como instrumento da providência (Gn 45,5.7;Sl
105,17); Gedeão como salvador (Jz 6,14) e outros juizes (1Sm 12,11); Saul
o futuro rei libertador dos filisteus (1Sm 9,16); um salvador e defensor
(Is 19,20) e enfim “pescadores e
caçadores” com a tarefa de perseguir os pecadores dispersos (Jr
16,16).
b) Significativo e importante é o “envio” dos profetas,
os mensageiros de Deus. Antes de tudo emerge a figura de Moisés (Ex
3,14-15;4,13.28; 5,22; Nm 16,28-29;Dt 34,11; Js 24,5; 1Sm 12,8; Mi 6,4; Sl
105,26); figuras anônimas (Jz 6,8; Is 42,19; 48,16; 61,1; Mal 3,1); profetas
conhecidos como Samuel (1Sm15,1; 16,1) Natan (2Sm 12,1) Gad
(2Sm 24,13) Elias (2Rs 2,2.4; Mal 3,23) Isaias (Is 6,8) Jeremias
(Jr 1,7; 19,14;25,15.17; etc) Ananias (Jr 28,15) Semeias (Jr
29,31) Ezequiel (2,3.4; 3,6) Ageu (Ag 1,12) Zacarias (Zac
2,12-15; 4,9; 6,15) Semeias bem Delaías (Ne 6,10) e enfim verdadeiros e
falsos profetas(Jr 7,25; 14,14; 23,21.32.38; 25,4; Ez. 13,6; 2Cron
24,19;25,15;etc.).
c) Enfim é preciso lembrar também aqueles textos
que apresentam Yhwh que envia o “espírito” (Jz 9,23= espírito mau; Sl
104,30) a sua “instrução” (2Rs 17,13 = Torah) e a sua “palavra”
(Is 9,7; 55,11; Zac 7,12; Sl 107,20; 147,15.18).
Em geral o AT, evidencia a iniciativa gratuita
e soberana de Yhwh/Deus que “envia” os
profetas como seus mensageiros ao povo de Israel (2Rs 17,13; Jr 7,25;
25,4; 29,19; Zac 7,12; etc.). Isto leva a considerar mais de perto 3 problemas
estritamente ligados entre si: o problema da missão profética, o
problema da relação entre Israel e as nações e enfim o problema da mensagem universal do AT.
2.1.2.
A “missão” dos profetas
“Desde o dia em que vossos pais
saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os
profetas; cada dia os enviei, incansavelmente” (Jr 7,25).
Yhwh, Deus de Israel, manifesta sua solicitude
constante para com seu povo “enviando” os seus servos, os profetas, mas o povo
nem sempre os aceita: desde a saída do Egito e da constituição da Aliança o
povo de Israel não obedece à voz do seu Deus! (Cf Jr 11,7-8). No discurso
pronunciado no templo de Jerusalém, Jr lembra a solicitude divina de
“enviar profetas” (7,25) mas logo em seguida lembra a situação do povo: “eles
não me escutaram nem prestaram ouvidos, mas endureceram a sua cerviz e foram
piores do que seus pais. Tu dirás a eles todas estas palavras, mas eles não te
escutarão” (7,26-28). A tradição bíblica realça freqüentemente este
desprezo da Palavra de Deus e da missão profética: o povo não quer ouvir a
mensagem de Deus pregada pelos profetas (Ez 33,31-32).
Os próprios “enviados” têm a mesma dificuldade: Moisés
exige sinais para dar credibilidade à sua missão (Ex 3,11ss.) tenta rejeitá-la
(Ex 4,13) ou se queixa com amargura (Ex 5,22); Jeremias coloca objeções
antes de aceitar (Jr 1,6), só Isaías se prontifica dizendo: “Eis-me
aqui, envia-me” (Is 6,8).
Em termos gerais os profetas desempenham a missão
de serem portadores da Palavra de Deus numa situação determinada, mas a partir
do contexto da Aliança. Por isso quando o povo esquece a Aliança, Deus “envia”
os profetas para que o povo lembre dos compromissos assumidos e mude o seu
comportamento. Essa mudança de perspectiva chamada de “conversão” convida a
olhar para o futuro de acordo com as promessas de Deus. O fato de Israel ser
depositário das promessas de Deus se exprime através do conceito de eleição
que é uma convicção constitutiva da fé de Israel.
O texto clássico que considera a eleição como ato
gratuito de Deus e que exige reciprocidade da parte do povo é Dt 7,6-8 (VII-VI
séc). Os profetas pré-exílicos conhecem a questão da eleição (Am 3,2) mas a
criticam (Am 9,7) porque cria ilusões perigosas a respeito da salvação do povo.
O Dêutero-Isaías depois da catástrofe do exílio
concentra a sua mensagem nesse tema e o amplia (Is 41,8-13). Ele vê a
realização da eleição no fato de Yhwh ter reconduzido Israel “desde os
confins da terra”. Os 2 títulos anteriormente aplicados ao rei: “Servo e
eleito” (cf Sl 105,6; 78,70; 89,4; 2Sm 7,5) agora o Dt-Is os aplica ao povo
inteiro (Is 42,1) indicando que a
eleição não pode ser separada de missão no mundo. Israel diante das nações é testemunha de Yhwh e tem
a missão de torná-lo conhecido como Deus único (43,10.12;44,8).
2.1.3.
Israel e as nações
Segundo o AT o mundo se divide em 2 partes: de um
lado está Israel, o povo de Deus, e do outro estão as nações (Dt 32,8-9). Não
ignora porém, o parentesco com outros
povos vizinhos: Ismael (Gn 16); Madian (Gn 25,1-6) Moab e Ammon (Gn 19,30-38)
Arameus (Gn 29,1-14) Edom (Gn 36). Sob o ponto de vista da eleição, as nações representam para Israel
uma contínua ameaça política e religiosa.
Ameaça política
Israel
quase sempre está envolvido nas turbulências dos povos que se enfrentam por
questões de prestígio ou pela posse da terra: egípcios, cananeus, madianitas,
filisteus etc. com o resultado de ter hostilidades com os pequenos reinos
vizinhos e a submissão às grandes potências internacionais (Egito Assíria,
Babilônia). O período da monarquia está repleto desses conflitos sangrentos em
que os elementos políticos e religiosos se misturam. Nesse sentido a relação de
Israel com os outros povos se situa no plano de hostilidade.
Ameaça religiosa.
Diante do povo de Deus os outros povos representam
também a “idolatria” que seduz e tiraniza. Israel lembra que seus ancestrais
eram idólatras (Js 24,2) e sofre a mesma tentação ao longo da história.
Freqüentemente se entrega aos deuses cananeus (Jz 2,11s), o rei Salomão
construtor do templo constrói também santuários para os deuses nacionais dos
países vizinhos (1Rs 11,5-8). Durante o período da monarquia os cultos da
Assíria são acrescentados aos cultos cananeus (2Rs 16,10-18; 21,3-7; Ez 8). Na
época dos Macabeus surge a sedução do prestígio e da cultura grega, que Antíoco
IV tenta impor a todos (1Mac 1,43-61). Nessa perspectiva as prescrições severas
de Dt 7,1-8 querem alertar Israel: deve separar-se radicalmente das nações
estrangeiras para não se contaminar. Aliás além disso revela também uma atitude
violenta e agressiva: demolir
altares, despedaçar suas estelas, cortar seus postes sagrados, queimar seus
ídolos (Dt 7,5).
O plano de Deus para as nações não se reduz a
esta posição de hostilidade e de agressividade. Israel sabe que Yhwh é um Deus
universal, pois todos os povos dependem dele: “foi ele que fez os Filisteus
subirem de Cáftor, os Arameus de Quir, como fez Israel subir do Egito” (Am
9,7). Isso exclui
qualquer pretensão de nacionalismo religioso.
Israel lembra também que os valores humanos das nações não devem ser
menosprezados, pois são dons de Deus: entrando na terra de Canaan se beneficiou
de sua civilização (Dt 6,10s) e em cada época é influenciado positivamente
pelas culturas internacionais (1Rs 5,9-14; 7,13s).
As
nações em geral continuam à margem, a não ser quando ocasionalmente praticam um
culto agradável a Deus: Melquisedeq (Gn 14,18ss) Jetro (Ex 18,12) Naaman (2Rs
5,17). Outros personagens se integram
no povo de Israel: Tamar (Gn 38) Raab (Js 6,25) Rute (Rt 1,16) os
gabaonitas (Js 9,19-27) os estrangeiros residentes que se fazem circuncidar (Ex
12,48s; Nm 15,14ss). Estes são sinais da tendência universalista.
2.1.4.
A mensagem universal do AT
A salvação não é uma realidade exclusiva de Israel,
mas a respeito das nações ela é uma realidade futura. Por isso elas virão a
Jerusalém para aprenderem a Torah de Yhwh indicando o “retorno” à paz universal
(Is 2,2-4). As nações se voltarão para o Deus vivo (Is 45,14-17.20-25) e
participarão do seu culto (Is 60,1-16; Zac 14,16). Egito e Assíria se
converterão e Israel servirá de elo de ligação (Is 19,16-25). Pondo fim à
dispersão de babel, Yhwh reunirá em torno de si todos os povos e todas as
línguas (Is 66,18-21) Todos os povos reconhecerão a sua soberania unindo-se ao
povo de Abraão (Sl 47) e todos chamarão a Sião de “mãe” (Sl 87,5). O Servo,
segundo esta perspectiva desempenha uma função de mediador (Is 42,4.6). Assim
no último dia deve existir um único povo de Deus. Se a Torah dá a Israel uma
conotação exclusivista, a escatologia profética abre as portas ao
universalismo.
Depois do exílio há uma alternância entre 2
tendências. A 1a leva ao fechamento porque no passado o contato com outros
cultos causou muitos problemas. Esta é uma razão que explica o clima de intenso
nacionalismo da restauração judaica no tempo de Esdras e Neemias (Esd.9-10; Ne
10; 13). É a leitura da “eleição” como privilégio.
A 2a tendência leva à abertura
aos pagãos: censura o nacionalismo religioso exagerado do livro de Jonas;
concede um estatuto oficial aos estrangeiros que querem se unir a Israel (Is
56,1-8); e enfim o judaismo alexandrino toma a iniciativa de traduzir a Bíblia
para o grego e toma consciência de ser “povo testemunha” no meio das nações (Sb 13-15). É a leitura
da “eleição” como missão.
Dentro
dessa visão geral é preciso descobrir se existe no AT uma perspectiva
missionária propriamente dita. O AT
tem a convicção de que Israel tem uma missão a cumprir em favor de toda a
humanidade?
Para
responder a essa questão geralmente quem é chamado em causa é o Deutero-Isaías.
Ora a
mensagem de consolação desse profeta é dirigida a seus “irmãos” deportados e o
centro de sua pregação é o retorno do povo a Jerusalém!
Os povos pagãos desempenham só uma função marginal:
devem inclinar-se diante de Yhwh e diante de Israel (42,28s). É importante
notar que não há nenhuma tendência a converter as nações (49,13).
Aliás os motivos da atividade do profeta são
outros:
- ele deve lutar contra a dúvida dos ‘seus’ e tem
como único objetivo a libertação do povo de Yhwh;
- Deus quer a salvação dos exilados para manifestar
a sua grandeza (49,26);
- o profeta manifesta tendências opostas: alguns oráculos
visam à destruição dos inimigos (Is 47; 41,7) e outros mostram que os pagãos assistem à salvação de Israel, mas
não participam, são só testemunhas da reabilitação do povo de Yhwh.
- para aceder ao Deus único, Etíopes e egípcios
devem prostrar-se diante de Israel como “escravos” (Is 45,14).
Em
resumo estes poucos traços revelam que o profeta está concentrado na salvação
de Israel, os outros povos só interessam na medida em que ajudam a sua
libertação, nada mais.
Os cantos do Servo (Is 42,1ss; 49,1ss)
parecem apresentar um outro ponto de vista: o Servo é enviado às nações tendo a
missão de fazer conhecer aos gentios o nome de Yhwh. Parece ter que evangelizar a humanidade inteira: graças a
ele “luz das nações” a verdadeira fé seria pregada até às extremidades
da terra. No entanto ele manifesta só o
julgamento que Yhwh pronuncia em favor de Israel. As nações não recebem nenhum
convite à conversão , simplesmente “assistem” ao julgamento divino (42,1). Além
disso o servo recebe o título de “aliança de povo” (42,6; 49,8) mas
nenhuma missão a cumprir. Mais uma vez ele tem a tarefa de fazer conhecer a
obra de Yhwh em favor de Israel. A única coisa que as nações fazem é
reverenciar a intervenção de Deus.
Em geral o AT não parece indicar que Yhwh tenha
exigido do seu povo a missão de evangelizar o mundo. O Dt-Is, por sua vez, não
fornece nenhuma indicação de que Israel tem a missão de pregar o nome de Yhwh
até as extremidades da terra. O AT porém apresenta personagens e situações
abertas à universalidade.
Gn 12,1-4a: Abraão é instrumento da “bênção”
para o mundo. (NB: a dimensão universal do AT não é uma invenção tardia, mas
está presente nos textos mais antigos) Através do patriarca Yhwh procura salvar
toda a humanidade: a ‘bênção divina’ evidencia a função de Israel como “mediador”
de salvação para “todas as famílias da terra”.
Ex 19,4-6: indica a situação de Israel
diante de Yhwh (eleição = dom) e diante das nações (eleição = missão).
O texto é tardio, mas reflete elementos de uma tradição mais antiga. A expressão
“Vós sereis para mim um reino sacerdotal e uma nação santa” indica ao
mesmo tempo a relação especial entre Yhwh e Israel e a relação entre Israel e
as nações: ambas estão sob a soberania divina: “Toda a terra é minha”
(v.5). Nesse contexto aparece claramente que Israel deve exercer entre as
nações a mesma função que o sacerdote exerce no meio do seu povo. A “nação
santa” deve santificar o nome de Yhwh diante do mundo: assim como o sacerdote
representa Yhwh diante do povo, Israel representa a realeza
de Yhwh diante dos povos.
É preciso lembrar que esse contexto é teologicamente muito significativo porque os
conceitos de “eleição e aliança” não só definem a posição de Israel diante de
Deus, mas definem também a sua missão: exigem serviço e obediência
incondicional para a realização do plano de Deus.
Is 19,21-24: é também um texto tardio
que evidencia a “reconciliação” de inimigos tradicionais: Egito e
Assíria “servirão a Yhwh” (v 23). Vai chegar o tempo em que as potências
inimigas se unirão em adoração diante de Yhwh e poderão gozar das suas bênçãos.
Aqui Israel desempenha só a função secundária de ser elo de ligação
entre os vizinhos extremos: a vereda que une Egito e Assíria passa pelo
território de Israel. Nesse sentido ele pode ser “uma bênção no meio da
terra” (v 24). A conclusão é clara: o Egito que para Israel lembra o tempo
da escravidão, e a Assíria símbolo de orgulho e crueldade (cf Is
10,12;14,24-27), prestarão culto a Deus. Israel porém não tem nenhuma função
ativa nisso tudo: é Yhwh quem conduz a história, e Israel só é testemunha.
Jn 4,1-11: Em sua atividade profética Jn
anuncia unicamente a destruição de Nínive e como resultado de sua pregação há o
fato de que os habitantes dessa grande cidade reconhecem o mal que fizeram, mas
não aderem à fé em Yhwh. O conteúdo da pregação de Jn é a infinita compaixão
divina (chave do trecho: 4,2b.11), e o autor insiste em mostrar que ela
realmente não tem limites. Em outros termos, Yhwh tem direito de perdoar mesmo
que o seu profeta/o seu povo não goste disso. No livro de Jn não aparece nem
a conversão de Nínive à fé de Israel, nem uma missão de Israel
para evangelizar os pagãos. Parece que o autor quer corrigir uma interpretação
errada de eleição, para que Israel não se torne um obstáculo na relação entre
Yhwh e as nações.
Is 2,2-4 : no tempo final acontecerá
a reunião dos povos em Sião, o monte de Yhwh, eles virão para ouvir a
Palavra de Deus. Quem toma a iniciativa de reunir as nações em Jerusalém é
Yhwh. Sião só tem a missão de transmitir a Torah e fazer conhecer a Palavra de
Yhwh. Em última análise o conteúdo central do texto anuncia a última revelação
de Yhwh posta em paralelo com aquela do Sinai: como antigamente no monte
Sinai Yhwh transmitiu a Torah ao povo mediante Moisés, assim
nos últimos tempos no monte de Sião Yhwh vai transmitir a Torah às
nações mediante o povo de Israel (cf outros textos que se situam na
mesma linha: Is 25; 60; Ag 2; Zac 14).
Sumariamente é possível destacar três elementos:
1. Israel ocupa a posição de “testemunha” da
soberania universal de Yhwh: antes da assembléia final das nações não há
nenhuma pretensão e nenhuma tarefa de convertê-las.
2. Não é Israel que deve ir aos pagãos mas ao
contrário são eles que se dirigem a Jerusalém, lá onde Yhwh se revela .
3. Os pagãos se encontram com Yhwh através da
mediação de Israel reunido em Sião. Por meio de Israel Yhwh oferece a sua
Torah/Palavra (= comunhão de vida) às nações.
A missão propriamente dita faz parte do último
capítulo da história da salvação: cabe à Igreja (=comunidade escatológica)
desempenhá-la a partir do testemunho do AT. A igreja não pode esquecer
que é Deus quem convoca as nações através do seu povo. Somente a intervenção
divina faz de Israel “luz das nações”.
2.2. A missão no Novo Testamento
É bom
deixar claro desde o começo que o NT não apresenta uma visão uniforme da
missão, mas cada escrito tem sua própria maneira de tratar a questão, de modo
que é preciso tomar consciência de que estamos diante de uma variedade de
enfoques, de modelos e de teologias da missão. Isso nos leva a considerar
sumariamente a perspectiva de cada evangelista.
2.2.1.
A missão em Paulo
O 1o aspecto que chama a atenção é a vocação
de Paulo . O acontecimento de Damasco (At 9;22;26; Gl 1,11-17; 1Cor 9,1-2;
15,8-10) é fundamental para compreender e definir a sua missão. “Deus me
enviou...para proclamá-lo entre os Gentios” (Gl 1,15s). Para expressar a
sua vocação-missão Paulo si identifica com as figuras proféticas de Jeremias e
do Dêutero-Isaías. Na experiência a caminho de Damasco ele descobre Jesus não
só como Ressuscitado, mas como Soberano universal, que oferece a sua salvação a
todos, judeus e pagãos. Esta convicção está na origem de sua missão.
A missão de Paulo é universal. Em Rm 1,1 ele se
apresenta como “servo de Jesus Cristo / apóstolo escolhido para o Evangelho
de Deus” e logo mais adiante afirma ser “devedor a gregos e a bárbaros...” (Rm 1,14); ele coloca o
Evangelho no centro de toda a sua existência e de toda a sua atividade (Rm
1,16s). Nesse sentido ele se considera apóstolo entre judeus e gentios,
mostrando que a sua missão depende totalmente da iniciativa divina. Segundo
Paulo, a partir da Soberania divina: “não há mais distinção entre judeus e
gentios, o mesmo Senhor é o Senhor de todos... (Rm 10,12;
cf Gl 3,28; At 10,36). É
este o “Evangelho” que ele anuncia em sua atividade missionária: a graça de
Deus é a fonte/fundamento da missão.
O texto de 2Cor 5,14-21 apresenta a missão como ministério
de reconciliação. Algumas expressões podem iluminar o modo de Paulo entender
a missão. Em 1o lugar realça a importância da morte e da ressurreição
de Jesus: ele morreu e ressuscitou por todos. Nisso ele encontra o
mais profundo motivo da missão, pois é a experiência do amor de Cristo que o
impulsiona a anunciar o Evangelho (vv.14-15). Em 2o lugar mostra
como isso o transformou em “embaixador de Cristo” ou “ministro
da reconciliação” (vv. 18-20). Em decorrência disso Paulo não tem uma
autoridade e uma mensagem própria, tudo isso lhe foi entregue: o protagonista
de tudo é Deus que age em Jesus Cristo.
Surge então a necessidade de anunciar o Evangelho
(1Cor 9,16): “Anunciar o Evangelho...é uma necessidade que se me impõe:
ai de mim se não evangelizar”. Livre em relação a todos, Paulo se faz
servo de todos (v. 19) e se torna tudo para todos (v. 22) e tudo faz por causa
do Evangelho (v. 23). Ele se dedica totalmente ao Evangelho indo ao encontro
dos outros lá onde eles estão e respeitando o que eles são (judeus, pagãos,
fracos) com a finalidade de “ganhá-los” ao Evangelho. É interessante notar o
contraste entre “livre” e “servo” (v.19): se ele sendo livre se faz servo é
porque tem como modelo o próprio Cristo (9,21: está sob a “Lei de
Cristo”). Por trás disso ele deixa transparecer que na base do seu modo de agir
está o “amor de Deus”. Na exortação aos Gálatas ele se expressa de maneira
semelhante: “Carregai o peso uns dos outros e assim cumprireis a Lei de
Cristo” (Gl 6,2;cf Rm 13,8). Para Paulo o Evangelho de Jesus é destinado a
todos indistintamente e pode ser proclamado com eficácia sem se impor a
ninguém. Dessa forma Paulo não paganiza
os judeus nem judaíza os pagãos, mas leva a ambos ao encontro com Cristo.
Entretanto Paulo está bem consciente de que diante de sua
pregação pode haver rejeição. Para evitar que o Evangelho seja confundido
com uma ideologia ou seja considerado como simples propaganda religiosa, toma
as devidas distâncias do judaismo e do paganismo, porque os primeiros “pedem
sinais” e os pagãos “buscam sabedoria” (1Cor 1,22-24): os
dois nesse sentido não passam de auto-suficiência humana. Com efeito, para o
egocentrismo religioso judaico o Crucificado é escândalo, e para
o egocentrismo intelectual grego é realmente uma loucura. Entretanto
Paulo anuncia que Deus tomou a iniciativa de se revelar através da cruz
do seu Filho.
O conteúdo essencial da missão de Paulo é o mesmo
que recebeu da tradição das primeiras testemunhas: Jesus morto e ressuscitado
(1Cor 15,1-5). Ele fala porém do “seu evangelho” (Rm 2,16; 2Cor 4,3)
para desvincular o anúncio cristão do condicionamento judaico, não no sentido
de abolir todas as diferenças (culturais, sociais e antropológicas: Gl 3,28),
mas no sentido de indicar que elas não determinam mais o sentido e o destino da
vida cristã. Deus não discrimina ninguém e trata todo mundo com absoluta imparcialidade
(cf At 10,34-35). Paulo faz questão de evidenciar que está em jogo a “verdade
do Evangelho” (Gl 2,14), e os Gálatas, ameaçados pela atividade dos
judaizantes são repreendidos por terem passado depressa a um outro evangelho
(Gl 1,6-8).
O livro dos Atos pode dar a impressão de que Paulo seja
quase exclusivamente um pregador itinerante, mas levando em conta também as
informações das cartas paulinas, ele não só funda mas também acompanha o
crescimento cristão das comunidades. Como método missionário ele
escolhe os grandes centros urbanos onde se desenvolve a cultura, o
comércio, a religião, e onde se formam as opiniões e as filosofias. Nesses
centros Paulo funda comunidades cristãs, e dentro delas suscita as lideranças
de modo que o Evangelho se irradie pelas redondezas alcançando os povoados
vizinhos. A partir dos centros de Corinto e de Éfeso funda as comunidades de
Cencréia (Rm 16,1-2) e aquelas de Colossos e de Laodicéia no vale do Lico (Col
1,7; 4,16).
A
missão de Paulo é abrangente e quer alcançar a todos. Para não criar problemas
aos outros ele faz questão de trabalhar com as próprias mãos (1Cor 4,12;
1Ts 2,9); prega antes de tudo nas sinagogas dos centros urbanos onde não
encontra somente os judeus da diáspora, mas também muitos pagãos simpatizantes
do judaismo, mas anuncia também nas casas de Lídia em Filipos, e de
Jasão em Tessalônica, na casa de Áquila e Priscila (1Cor 14,19) e de Tício
Justo e Gaio em Corinto (At 18,7). Nisso ele encontra um ponto de apoio para a
difusão da mensagem cristã,mas leva adiante a sua missão inclusive no lugar
de trabalho (1Ts 2,9.11). Cerca-se de muitos colaboradores organizando o
seu trabalho de forma articulada e eficiente: há um grupo de colaboradores
mais próximo (Barnabé, Silas e Timóteo) um outro grupo goza de mais autonomia
(Áquila e Priscila, Tito) e outros representantes das várias comunidades. No
caso da grande coleta para os pobres de Jerusalém, incentiva as suas
comunidades para que sejam solidárias e manifestem concretamente a unidade da
igreja (Rm 15,25-28; 1Cor 16,1-4; 2Cor 1,16; 8-9;Gl 2,10).
2.2.2.
A missão nos Atos dos Apóstolos
O livro dos At pode ser entendido como o
itinerário da experiência missionária
que leva a mensagem cristã da Palestina, província periférica do império, até
Roma, o seu centro. As cartas de Paulo mostram o nascimento, a formação e o
desenvolvimento das comunidades que são fruto do anúncio evangélico. De forma
sintética assinalamos só alguns aspectos significativos que nos At marcam o
itinerário da missão: a força da Palavra e do Espírito, o Testemunho e a
abertura universal.
A
fonte da missão
Quando Lucas escreve o livro dos At nos grandes
centros urbanos do império já existem grupos ou comunidades cristãs. Para poder
reconstruir sua difusão ele realça 3 elementos importantes:
a) A iniciativa divina é a fonte da expansão do
movimento cristão;
b) Ela se manifesta especialmente nos momentos
cruciais da história: no início os Apóstolos recebem solenemente a
‘missão’; no centro acontece a passagem do mundo judaico ao mundo pagão,
e no fim o desenvolvimento da missão de Paulo tem como meta Roma, o
centro do império.
c) O ‘Programa’ a ser desenvolvido é
anunciado em At 1,8: “Mas recebereis a força do Espírito Santo que
descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judéia
e Samaria e até as extremidades da terra”. Estas Palavras de Jesus antes da
Ascensão serão confirmadas pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes, dessa
forma os Apóstolos recebem a habilitação e a missão de anunciar o Evangelho a
todos os povos. Para Paulo não é diferente, pois na origem da sua missão está a
iniciativa gratuita de Jesus ressuscitado e lhe entrega a tarefa de ser ‘ servo
e testemunha’ (26,16).
Deus é
o verdadeiro protagonista da missão, é a fonte que sustenta e acompanha o
caminho de seus apóstolos, e que habilita Paulo para a missão universal
(9,3-6.15; 22,6-10.14-15; 26,12-18).
Também no caso da 1a missão oficial na
diáspora judaica, em Antioquia fora da Palestina, a iniciativa é do Espírito
Santo que escolhe Barnabé e Paulo (13,2).
No episódio de Cornélio, a presença divina atua em
profundidade na vida dos personagens envolvidos. O testemunho gratuito do
Espírito provoca uma ‘conversão’ também em Pedro que deve abandonar certas
‘amarras’ que o prendem à religião judaica para poder encontrar “humanamente” o
pagão Cornélio (10,44-47). Esta nova realidade deverá ser reconhecida
publicamente pela igreja de Jerusalém: “Também aos pagãos Deus concedeu a conversão
para a vida” (11,18; cfr. 15,8). A reviravolta histórica que produz a
passagem da missão cristã do mundo judaico ao mundo pagão é atribuída unicamente à iniciativa de Deus.
Assim Paulo e Barnabé voltando da 1a
atividade missionária relatam à
comunidade de Antioquia e àquela de Jerusalém “tudo aquilo que Deus
tinha feito com eles abrindo aos pagãos a porta da fé” (14,27;
15,12). Lucas mostra que todos os ‘protagonistas’ da missão atuam segundo um
projeto guiado pela iniciativa divina. A difusão do cristianismo primitivo é
fruto da resposta pronta e generosa dos que foram enviados por Jesus
ressuscitado, os quais atuam sob o impulso do Espírito Santo.
Os protagonistas da missão
Lucas prioriza a iniciativa divina, mas realça
também os protagonistas da missão. Na 1a parte dos At, Lucas dá
grande destaque a Pedro e na 2a parte dá destaque a Paulo.
Pedro atua no ambiente judaico de
Jerusalém e da Judéia e presença de João ao seu lado confirma e
reconhece a sua autoridade de representante dos Doze. Trata-se de uma
responsabilidade eclesial que deve ser exercida em sintonia com a comunidade em
que residem os outros apóstolos (8,14; 11,1-2).
O grupo dos “Sete” também possui seus
representantes na figura de Estêvão e de Filipe. Depois da morte de Estêvão, Filipe
evangeliza a Samaria, a costa ao longo do Mediterrâneo até se estabelecer em
Cesaréia, onde anima uma comunidade contando com a ajuda de suas 4 filhas
“profetisas” (21,8-9). É claro que Filipe não tem a envergadura nem de Pedro,
nem de Paulo, mas Lucas não quer deixar cair no esquecimento este missionário
de segundo plano, e lhe atribui o título de “evangelista” (21,8).
Cristãos Helenistas e que atuam de forma
anônima, percorrem as cidades da Fenícia e anunciam o Evangelho aos pagãos de
Antioquia (11,19-21). Também esta experiência missionária iniciada casualmente
recebe o reconhecimento da igreja de Jerusalém mediante o envio de Barnabé
como delegado oficial (11,22). Barnabé é um cristão da ‘1a hora’ que
recebe a função de ser animador da comunidade cristã de Antioquia, e em seguida
juntamente com Paulo se torna protagonista da 1a atividade
missionária da diáspora.
A partir desse momento surgem outros
colaboradores: basta mencionar João Marcos, cristão de Jerusalém,
filho de Maria que hospeda em sua casa um grupo de cristãos; Silas
também de Jerusalém, Timóteo de Listra (15,37-40; 16,1-3). Além do mais,
Paulo encontra novos colaboradores nas comunidades que ele funda. Lucas admira
principalmente Paulo que numa década consegue criar uma rede de
comunidades cristãs nos principais centros urbanos do império.
Os destinatários da missão
No início dos At fica estabelecido o itinerário da
missão: de Jerusalém até as extremidades da terra (1,8). A abertura
universal aparece logo no discurso de Pedro ao citar Joel 3,5: “Quem
invocar o nome do Senhor será salvo” (2,21), seguindo a perspectiva de
dirigir o anúncio antes aos judeus e depois aos pagãos (3,25-26;
13,26.32-33). O mesmo acontece em 18,6 quando Paulo entra em choque com a
oposição dos judeus da sinagoga. Na parte final dos At uma citação de Isaías
(40,5) confirma e define o horizonte
universal da mensagem cristã: “Foi enviada aos gentios esta salvação de
Deus, e eles a ouvirão” (28,28).
O fato de o anúncio cristão passar do mundo judaico
ao mundo pagão, depende unicamente do projeto divino. Antes de tudo ele
se dirige ao ambiente judaico de Jerusalém, e logo alcança o território da
Judéia e da Samaria; em seguida ultrapassa a mentalidade e o território judaico
com a acolhida do pagão Cornélio na igreja; e só depois deste episódio os
Helenistas se dirigem aos pagãos de Antioquia, onde Paulo e Barnabé vão iniciar
as grandes viagens missionárias no mundo grego.
Segundo esta trajetória a afirmação de Pedro no seu
discurso em Cesaréia ocupa realmente um lugar central: “Na verdade estou me
dando conta de que Deus não é parcial, mas em toda nação, quem o teme e
pratica a justiça lhe é aceito” (10,34).
Na base de tudo está o Ressuscitado, o
Senhor de todos (10,36); é ele que provoca a superação das barreiras nacionais
judaicas. É a fé nele que dá novo alento à missão que tem sua referência
principal na missão histórica de Jesus de Nazaré. Muitos gestos de Jesus
realizados em sua atividade pública são lembrados para que os discípulos sejam
responsáveis de uma missão cada vez mais universal (Lc. 13,29-30; 11,29-32).
Um outro fator de superação é a experiência da
diáspora judaica que tem na sinagoga o seu centro religioso e cultural.
De fato em torno das sinagogas se cria um ambiente de simpatia que leva muitos
pagãos à ‘conversão’. Os primeiros destinatários do anúncio cristão fora do judaísmo
são os pagãos simpatizantes que freqüentam a sinagoga. Desta forma a
experiência da diáspora e o relativo ambiente sinagogal oferecem ao anúncio
cristão o ambiente propício para a sua difusão no império romano.
A finalidade de toda atividade missionária
encontra a sua expressão mais clara e profunda nas palavras que Jesus dirige a
Paulo: “Este é o motivo por que te apareci: para constituir-te servo e
testemunha da visão na qual me viste e daquelas nas quais ainda te
aparecerei. Eu te livrarei do povo e das nações gentias às quais eu te envio
para lhes abrires os olhos e assim se converterem das trevas à luz
e da autoridade de satanás para Deus. De tal modo receberão, pela fé em mim, a
remissão dos pecados e a herança entre os santificados” (26,16-18). Aqui
consiste em anunciar a salvação entendida como passagem das trevas à
luz, da idolatria à fé, do poder de Satanás à soberania de Deus. Pela fé em Jesus se obtém a remissão dos pecados e a herança eterna.
O método missionário apresentado por Lc é o
seguinte: antes de tudo o anúncio da Palavra parte dos fatos e das
expectativas das pessoas, em seguida interpreta estes fatos à luz do
“evento – Jesus” situado dentro do horizonte das promessas proféticas, e
termina com o convite tomar uma decisão concreta de fé e de conversão. Tudo isso ajuda a
construir uma comunidade que seja estável e sólida em sua adesão de fé. Este
método missionário se revela eficaz porque cria uma sintonia com as expectativas
e os problemas das pessoas e do ambiente de modo que a proposta da mensagem
cristã dá um novo significado à vida humana. Nesse sentido o estilo de vida dos
missionários e das comunidades se caracteriza como “caminho” (9,2; 16,17;
19,9.23; 24,22). O encontro com as pessoas, a solidariedade e o diálogo, formam
a trama do itinerário missionário mediante o qual a Palavra de Deus sob o
impulso do Espírito dá sentido às expectativas salvíficas e oferece uma nova
esperança a todos os homens.
2.2.3. A missão no evangelho de
Mateus
Introdução
Com
muita probabilidade os destinatários de Mt são prevalentemente de origem
judeu-cristã pelos seguintes motivos:
1. Mt insiste a respeito do
cumprimento das Escrituras;
2. Jesus é apresentado como “novo
Moisés” sendo portanto fiel à Lei
mosaica;
3. Mt omite a explicação de usos e
costumes judaicos;
4. as discussões entre Jesus e
seus adversários estão baseadas em modelos rabínicos.
Entretanto
é possível notar uma tensão constante na comunidade de Mt. Existe uma
preocupação interna: a atividade de Jesus e de seus discípulos se limita a
Israel; sublinha a validade da Lei mosaica e a necessidade da justiça, o
cumprimento das promessas messiânicas,etc. Ao lado dessa preocupação existe
também uma exigência de abertura aos gentios, para superar as barreiras
culturais e religiosas do judaismo: reivindica a autenticidade da herança
judaica em contraste com o judaismo farisaico, de maneira muito dura.
Dentro
desse horizonte complexo e diversificado é possível notar também uma dupla
visão do processo da história da salvação que pode iluminar a questão da
missão.
1. Antes de tudo Mt apresenta o tempo
da Lei e dos profetas culminando em Jesus que proclama e inaugura o Reino
de Deus. Desde o começo, Mt assinala o cumprimento das antigas profecias (1,22s;
2,5s; 2,15.17-18.23) mas deixa claro que o ministério de João Batista marca a
transição definitiva entre AT e a pessoa de Jesus (cf 11,12-13). Além disso o
início da atividade de Jesus anunciando o Reino (4,7) cumpre as Escrituras
(4,14-16) e mostra que o Reino está em ação (11,2-6; 12,28). Sob este mesmo
ponto de vista, a série de 10 milagres (cap 8-9) tem a função de mostrar que
Jesus cumpre concretamente a sua missão messiânica. No entanto o desfecho da
atividade de Jesus, a morte – ressurreição, está marcado por sinais
escatológicos que acompanham o evento: o terremoto é sinal do julgamento
divino (cf Am 8,9; Jl 3,16 : “o dia de Yhwh”) e a abertura dos túmulos e
a ressurreição dos “justos” do AT é sinal da era escatológica (Ez 37,11-14; Is
26,19; Dn 12,2). Em resumo: assim como no AT os profetas cumpriam a missão
tendo como destinatário o povo de Israel, também Jesus realiza as promessas
proféticas cumprindo a sua missão de proclamar e inaugurar o Reino no horizonte
do povo de Israel.
2. Mt
apresenta o tempo da pregação messiânica da Igreja na perspectiva da
plenitude do Reino. É verdade que os sinais apontam para era escatológica, mas
o fim ainda não veio, ele virá quando “o Filho do Homem vier em sua glória”
(16,27-28; 25,31). Antes disso existe o tempo da pregação messiânica, a qual
deve enfrentar muitas dificuldades: falsos messias. conflitos e guerras,
calamidades naturais, perseguições, desistências, etc. Durante esse tempo “a
boa nova do Reino será proclamada a todas as nações, e então chegará o fim”
(24,4-14). Além do mais esta perspectiva está presente em 4 parábolas
exclusivas de Mt: a parábola do trigo e do joio (13,24-30.37-43), da rede
(13,47-50) das virgens sábias e insensatas (25,1-13) e das ovelhas e cabritos
(25,31-46). No tempo da pregação da Igreja, a missão de Jesus continua
através dos seus discípulos, mas se destina a todas as nações, até quando vier
o Reino definitivo.
A missão de Jesus
Uma das
preocupações de Mt é estabelecer um elo de ligação entre a pregação profética
do AT e a missão de Jesus. Só ele cita explicitamente o AT mediante a ‘fórmula
de cumprimento’ (11 vezes); mostra que
João Batista é ‘o último e maior’ dos profetas (11,9-13) na qualidade de
arauto que ‘prepara o caminho do Senhor’ (3,3;11,10; cf Mc 1,2-3; Lc
3,4-6; 7,27). Como na missão profética, quem envia é o Pai: ele precisa de ‘operários’ (9,37-38) para
‘enviá-los’ em missão: João B.(11,10) Jesus (10,40), profetas (23,37).
Naturalmente o enviado por excelência é Jesus. É interessante
notar que desde o início do Evangelho (1,1), Mt apresenta 3 títulos
significativos que estão diretamente ligados à missão:
1. Jesus (= Yhwh salva) Cristo (=
ungido): os 2 nomes se relacionam com a missão, com efeito 1,21 afirma: Ele (Jesus) salvará o seu povo; e 11,2-3
define Cristo como aquele que deve vir. Para os leitores de Mt o
“ungido” /Messias – Cristo, é um enviado de Deus para cumprir as promessas.
2. Filho
de Davi: mostra
não somente a descendência (cf 1,20: José) mas a missão. De fato no episódio da
entrada em Jerusalém Jesus por 2 vezes é invocado como “Filho de Davi”
(21,0.15) a partir do pano de fundo de Is 62,11 e Zac 9,9: textos que frisam
claramente a dimensão da realeza: Jesus é então o “rei” que tem a missão de
manifestar o Reino.
3. Filho
de Abraão: só
aqui esse título é aplicado a Jesus, e lembra Gn 12,1-4 quando Abraão é chamado
para se tornar “pai de Israel” (3,8-9) e para ser uma bênção para todas as
famílias da terra. Em Jesus o povo de Israel e as nações encontram um ponto
essencial de convergência.
Evidentemente
outros títulos podem apresentar as mesmas características (Emanuel:1,23;
Servo:12,15) ou revelar a identidade de Jesus (Senhor:7,21s;8,21; etc) ou
mostrar o relacionamento com o Pai (3,17; 4,3; etc.; no total 9 vezes como em
Jo).
A
missão de Jesus consiste em “salvar o seu povo dos seus pecados” (1,21):
perdoa os pecados porque veio chamar os pecadores (9,1-9.13). A expressão “seu
povo” indica o destinatário de sua missão: trata-se de Israel, pois 10,5-6
e 15,24 confirmam essa indicação,mas não pode ser entendida de forma exclusiva.
Tanto é verdade que a menção de 4 mulheres na genealogia (1,3-6) assinala que o
“o seu povo” inclui pessoas que não pertencem ao povo judeu (cf Raab e
Rute). A narração da visita dos Magos
(2,1-12) evidencia o contraste entre a acolhida dos pagãos e a hostilidade dos
líderes judeus. Ao longo do evangelho o horizonte se amplia, pois Jesus mostra
“compaixão” pelos excluídos e liberta e cura os mais necessitados, sejam eles
judeus ou pagãos (8,5-13.28-34).
Sumariamente,
a missão de Jesus consiste em ensinar nas suas sinagogas; proclamar o
evangelho do reino; curar todo tipo de doença (4,23; 9,35), cujo resultado
é a inauguração da Nova Aliança do reino para a remissão dos pecados (cf as
parábolas do reino: 13,14-50). A narração da última Ceia de Mt é a única que
inclui a expressão “pelo perdão dos pecados” (26,28).
A missão dos discípulos
A parte
final de Mt apresenta Jesus ressuscitado, revestido de toda autoridade que
envia seus discípulos. Mt 28,16-20 é um texto que pertence à redação do
evangelista, o qual quer fundamentar a sua mensagem a partir de modelos
bíblicos conhecidos pela sua comunidade.
a) Mt provavelmente se inspira
no “decreto de Ciro rei da Pérsia” (2Cron 36,23). Isso não deixa de ter sentido
porque Mt inicia o seu evangelho falando de “origem” (1,1) e o conclui se
referindo ao último versículo da Bíblia hebraica: dessa forma ele indica que a
história de Jesus leva ao cumprimento toda a história do povo de Deus.
b) Nessa última parte do evangelho
estão concentrados os grandes temas apresentados anteriormente. Diante
da tensão entre cristãos de origem judaica que querem se dirigir unicamente às
“ovelhas perdidas da casa de Israel” e os outros de horizontes mais
abertos, a solução proposta pode ser esta: fazer discípulos todos os
povos (sem distinção); introduzi-los na comunidade mediante o batismo; ensinando-lhes
tudo o que Jesus ensinou (vv. 19-20): este seria o programa da missão da
igreja.
Os
discípulos recebem esta missão, porque para isso foram chamados desde o começo
(4,19). Nessa perspectiva Mt apresenta 5 discursos em que Jesus dá a
seus discípulos as instruções necessárias: o sermão da montanha
(5,1-7,29); o discurso missionário (10,1-11,1); o discurso em parábolas
(13,1-53);o discurso comunitário (18,1-19,2); discurso escatológico
(24,4-25,46). Todo esse ensinamento de Jesus tem como ponto central o Reino, e
tem como finalidade à preparação para a missão, por isso Jesus entrega as
“chaves do reino” a Pedro, representante de todos os discípulos (16,17-19)
Sumariamente,
a missão dos discípulos pode ser caracterizada pelas 4 condições oferecidas na
parte final do sermão da montanha: 1. entrar pela porta estreita (7,13-14);
2. produzir bons frutos (7,15-20); 3. cumprir a vontade do Pai (7,21-23); 4.
por em prática as palavras de Jesus (7,24-27).
Todavia
a expressão “Fazei discípulas todas as nações” (28,19) é
exclusiva de Mt (Ocorre só 4 vezes no NT: Mt 13,52; 27,57; 28,19; At 14,21). A
imagem do Mestre que ensina os seus discípulos, freqüentemente usada ao longo
do evangelho, quer evidenciar a continuidade entre a missão de Jesus e a missão
dos discípulos. Em torno desse único imperativo aparecem outros três
compromissos:
1. “andando”: indica a
condição de itinerância que Jesus já apresentou no discurso missionário
(10,1-42);
2. “batizando”: esta
atividade estava limitada à figura de João Batista. Agora o batismo em nome da
Trindade tem a função de introduzir os novos adeptos na comunidade cristã;
3. “ensinando”: atividade
decorrente da missão de Jesus, tem como conteúdo a sua Palavra “para cumprir
tudo aquilo que vos ordenei”. Trata-se de ensinar os outros a como serem
membros da comunidade do Reino.
Enfim a
missão tem um alcance universal (todas as nações) e evoca o começo do
evangelho onde a mesma perspectiva está presente em Jesus chamado de “filho de
Abraão” (1,1), na genealogia (1,3-6) onde há pessoas que não pertencem ao judaismo, e nos Magos, pagãos que visitam o
Messias (2,1-12). Além disso a expressão “fim do mundo” (ocorre só 5
vezes: 13,39.40.49; 24,3; 28,20) indica que a missão dos discípulos continua
até a vinda definitiva do Reino. Na mesma direção vai a promessa “estarei
convosco” que evoca o título “Emanuel” (1,23), e o termo “Galiléia”
(28,16) que lembra o início do ministério de Jesus (4,15: Galiléia dos
gentios!)
Em
resumo a missão de Jesus terminou, mas ele continua presente naquela dos
discípulos.
2.2.4. A missão no evangelho de
Marcos
Introdução
Há dois
temas que perpassam o evangelho de Mc e o seu ensinamento sobre a missão: a perseguição
e o sofrimento de Jesus repercutem na vida dos discípulos. Pelo fato de
Jesus pensar e agir “segundo Deus” (8,31-33) e de fazer a vontade de
Deus (14,35s), ele sofre nas mãos das autoridades políticas e religiosas, e
avisa os discípulos que eles terão que enfrentar dificuldades semelhantes. A
identidade do discípulo comporta renúncias, carregar a cruz e seguir o Mestre
pelo mesmo caminho (8,34). Mc deixa bem claro que se Jesus enfrentou muitas
dificuldades assim vai ser para os seus seguidores: na instrução depois do 2o
anúncio da paixão (9,30-31) afirma claramente que “todos serão temperados no
fogo” (9,49).
Mais
adiante no discurso escatológico, Jesus adverte os discípulos de que as
perseguições, as pressões da parte de membros da própria família e de autoridades
políticas e religiosas, não vão faltar em sua atividade missionária (13,5-13).
É no desempenho dessa missão que eles precisam de coragem, pois “É
necessário que o Evangelho seja proclamado a todas as nações” (13,10).
Provavelmente
Mc escreveu o evangelho num contexto marcado pela perseguição e pelo
sofrimento.
Todavia,
para superar as dificuldades diante de um ambiente repleto de hostilidades Mc
apresenta à sua comunidade a figura de Jesus como “servo” que se
submete livremente à vontade de Deus
(14,35-36) e que dá a vida em “resgate por muitos” (10,45). Do outro
lado o evangelista não tem medo de apresentar as falhas dos discípulos. “A
semente que cai entre as pedras” indica aqueles que não agüentam as provas
e desistem durante as perseguições (4,16-17); freqüentemente Mc frisa a
incompreensão dos discípulos (8,14-21) e a incapacidade de encarar o caminho da
paixão (8,31-33). Na hora da prova eles falham e fogem (14,50) ou negam
(14,66-72: Pedro). Mesmo diante dessas falhas Jesus não os abandona, aliás no
contexto da paixão anuncia um tempo para recompor o grupo disperso (14,27-28).
Depois da Ressurreição os discípulos terão que ser testemunhas, mas sempre num
ambiente hostil (10,39; 13,9-13). Mc mostra que os discípulos podem sofrer a
tentação de desistir, podem falhar e realmente falham, mas apesar de tudo
continuam sendo seguidores de Jesus. Talvez ele queira advertir aqueles que
buscam recompensas e conforto na comunidade cristã, deixando bem claro que o
caminho do discípulo é bem mais árduo do que se imagina.
O ensino missionário de Marcos
Para
indicar a missão Mc lembra várias figuras de “enviados” por Deus:
- João Batista é enviado por Deus para
preparar a vinda do Messias (1,2-3; cf 11,32 em que o povo o considera um
‘profeta’);
2. A parábola dos vinhateiros apresenta os profetas como
servos enviados por Deus
(12,2-5).
- O Filho amado (12,6-11).
- Jesus mesmo se apresenta como enviado
de Deus (9,37) para pregar (1,38), chamar os pecadores (2,17), dar
a vida em resgate por muitos (10,45); ele chama os discípulos para que
fiquem com ele, mas também os envia
como seus apóstolos (3,14; 6,7.30). A partir de sua condição de Mestre
Jesus os autoriza a pregar e lhes comunica o poder sobre doenças e espíritos
impuros (3,14-15; 6,7-13), isto é os habilita para serem pescadores de
homens (1,17).
Muitos
desses aspectos estão presentes nos outros evangelhos sinóticos, porém, Mc
parece enfatizar alguns elementos específicos.
1. A
pregação na Galiléia ocupa um lugar importante em Mc. A proclamação do evangelho
é quase exclusivamente reservada a esta região habitada por uma população
mista. Trata-se de um elemento que desde o começo apresenta a universalidade do
evangelho: observando a atividade de Jesus à beira do lago da Galiléia, é
possível notar que ela inclui judeus e pagãos. Isso já é uma antecipação de que
também a missão da igreja deve tomar o mesmo rumo. A missão na “outra
margem” do lago começa com a narração da tempestade (4,35-41) e continua em
território pagão onde Jesus cura o endemoninhado de Gerasa (5,1-20).
É
interessante notar que este homem quer “ficar com Jesus” do mesmo jeito
que os discípulos (3,14), mas recebe uma missão diferente: “Vai para a tua
casa e aos teus, e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua
misericórdia” (5,19). O ex-endemoninhado se torna o 1o
missionário aos pagãos. A Galiléia como sinal de universalidade reaparece na
parte final do evangelho, quando Jesus durante o caminho da paixão anuncia aos
discípulos que depois da ressurreição os “precederá na Galiléia” (14,28;
16,7). Lá inicia a pregação de Jesus e o 1o encontro com os
discípulos; lá inicia também a missão universal da igreja.
2. O
caminho da cruz revela a identidade dos discípulos. A missão dos discípulos
(pregar o evangelho, expulsar demônios, curar doentes, ensinar e servir) tem
sua origem naquela de Jesus, a qual não pode ser separada do seu destino na
cruz. O caminho da cruz serve como paradigma para todos os seguidores. Na parte
central do evangelho, Mc apresenta o ensinamento de Jesus aos discípulos
logo após os 3 anúncios da paixão, morte e ressurreição (8,31-33;
9,30-31;10,32-34). Isso significa que seguir um Messias que morre na cruz,
comporta renúncia, sofrimento e serviço. Em outros termos cumprir a missão
recebida de Jesus, significa segui-lo e compartilhar com ele o mesmo destino. É
importante notar que para percorrer o caminho da cruz, é preciso “deixar” algo:
Pedro e André deixam as redes (1,18) Tiago e João deixam também os servos e o
pai (1,20) Levi deixa o lugar de trabalho (2,14) Bartimeu deixa o manto
(10,50s). Efetivamente os discípulos que “deixam tudo e seguem a Jesus”
(10,28), recebem o cêntuplo desde já, mas com perseguições (10,30).
3. A
pregação do evangelho às nações é outro grande destaque (13,10). O discurso
escatológico apresenta a missão universal dos discípulos entre a ressurreição de Jesus e a vinda definitiva
do Filho do Homem. Trata-se de um tempo caracterizado pela proclamação e pelo
testemunho, mas é um tempo de grandes turbulências: guerras e tumultos,
terremotos, fome e muito sofrimento (13,7-8), processos e açoites (13,9)
grandes tribulações (13,9-20). Nesse contexto é necessário (expressão
que indica o cumprimento do projeto de Deus) pregar o evangelho às nações,
testemunhá-lo diante de tribunais políticos e religiosos, governadores e reis.
Esta perspectiva da missão aos pagãos foi preparada ao longo do evangelho.
Geralmente em sua atividade Jesus se dirige ao povo de Israel (7,27) todavia,
como foi acenado acima, penetra em território pagão e trata positivamente os
que se relacionam com ele (5,1-20; 7,24-30) e vislumbra uma missão que supera
as fronteiras de Israel (7,27; 12,9; 14,9).
Além do
mais, Mc é o único dos sinóticos a justificar a ação de Jesus no templo
afirmando que “é casa de oração para todos os povos” (11,17). Mediante a
citação de Is 56,7 o evangelista reforça a dimensão da missão universal.
4. Um
fato que pode parecer estranho é que em Mc não há nenhum envio missionário depois
da ressurreição, nem aparições do Ressuscitado. Mc terminando a sua narração em
16,8, omite esses aspectos para reforçar a idéia de que a missão é uma dimensão
importante ao longo de todo o evangelho. Sumariamente é suficiente lembrar
alguns desses momentos:
·
Jesus
chama os primeiros discípulos para torná-los pescadores de homens
(1,17);
·
Ele
constitui Doze para enviá-los a pregar (3,13-15; 6,7-13);
·
Durante
a paixão anuncia para depois da ressurreição, a recomposição do grupo (14,27s).
A finalidade da reconstituição do grupo dos discípulos não é só aquela de
assumir novas responsabilidades, mas é aquela de cumprir o que originalmente
foram chamados a fazer: proclamar a mensagem de conversão e levar as pessoas ao
encontro com Jesus.
·
A
falta de um “envio oficial” depois da ressurreição ilumina a importância do
“seguimento” e do “serviço” que devem ser permanentes. De fato quem quiser ser
discípulo de Jesus deve estar
disponível a tudo: renúncia, sofrimento (carregar a própria cruz), serviço
(8,34; 9,35; 10,42-45).
·
Durante
o desenvolvimento da missão às nações, o noivo está ausente (2,20) por
isso falsos profetas e falsos messias tentam ocupar o lugar de Jesus verdadeiro
messias; os discípulos devem prestar atenção para não serem enganados
(13,5-6.21-22); devem encarar sofrimento e perseguições (13,9-13) e conservar
uma atitude de vigilância permanente (13,33-37).
5. Pode
parecer estranho também o fato de que Mc não evidencia a presença do
Espírito. João Batista anuncia que Jesus vai batizar o seu povo com o
Espírito Santo (1,8) mas lembra só uma vez a sua intervenção: durante as perseguições
ele falará em lugar dos discípulos (13,11; cfr Mt 10,36). Em 12,36 o Espírito
Santo é mencionado como fonte inspiradora de Davi, ao citar o Sl 110. Do outro
lado Jesus mesmo é muito discreto ao realizar os milagres, nunca os realiza
para confirmar a autenticidade de sua pregação, aliás para evitar
mal-entendidos impõe o “segredo messiânico” (1,43s;5,43; 7,36; 8,26). Em todo
caso se trata de sinais que revelam a sua compaixão para com os que necessitam
dele (1,41;6,34).
Enfim a
situação difícil em que se encontra a comunidade de Mc não invalida nem elimina
a importância da missão, aliás é sempre possível a Palavra de Deus cair em
“terra boa” e produzir frutos abundantes (4,20). Com efeito o Reino é como uma
semente que cresce gratuitamente (4,26-29), faz parte da missão apontar sua
presença e testemunhar seu crescimento.
2.2.5. A missão no evangelho de
Lucas