3.6. O
DECRETO AD GENTES SOBRE A ATIVIDADE
MISSIONÁRIA DA IGREJA E O VATICANO II
Paulo Suess
1. RESUMO E OBJETIVO
Resumo
Pelo Vaticano II (1962-1965), a Igreja procurou
assumir perguntas e propostas do mundo moderno. Como traduzir os artigos de fé, os sinais de
esperança e as práticas de solidariedade para os interlocutores “mundo” e
“humanidade” que os consideram, em seu significado simbólico, incompreensíveis,
em seu conteúdo, ultrapassados e, em sua aparência, folclóricos? Os papas João XXIII (Pacem in Terris, 1963)
e Paulo VI (Ecclesiam Suam, 1964) cunharam novos macroparadigmas, como
aggiornamento e diálogo, relevantes para a atividade missionária e sua
interlocução com o mundo e as religiões não-cristãs. Nos processos conciliares
que levaram à redefinição da missão, assiste-se um deslocamento de uma Igreja
que tem missões territoriais, pelas quais faz coletas e pede orações, para uma
Igreja na qual a missionariedade representa uma orientação fundamental de todas
as suas atividades.
Objetivo
O primeiro
objetivo desta aula é acompanhar o processo
histórico que culminou na promulgação do Decreto Ad Gentes em 7 de dezembro de 1965. O segundo objetivo é
sistematizar o pensamento teológico da missão, não só no Decreto Ad Gentes, mas também nos outros documentos
do Vaticano II. O terceiro Objetivo é apontar para a relevância do novo
paradigma missionário que emerge da passagem da missão como atividade
territorialmente limitada para a descoberta da missão como natureza da Igreja.
2. TRÂMITES PRÉ-CONCILIARES
O anúncio do Concílio, na
festa da conversão do apóstolo Paulo, dia 25 de janeiro de 1959, na Basílica de
São Paulo Fora dos Muros, tem um profundo significado simbólico. Data, lugar e
pessoa escolhidos pelo papa João XXIII (1958-1963) apontam para uma Igreja que
inicia uma nova caminhada celebrando a sua conversão, para uma Igreja
apostólica, com responsabilidade salvífica para toda a humanidade, e para uma
Igreja cuja identidade não é assegurada por muros, mas que se encontra a si
mesma, exatamente, “fora dos muros”.
2.1. Comissão Antepreparatória
Quatro meses depois do
anúncio do Concílio, João XXIII instituiu, na festa de Pentecostes, no dia 17
de maio de 1959, a Comissão Antepreparatória para pedir sugestões do episcopado
universal, das Universidades Católicas, das Faculdades Pontifícias, das
Congregações Religiosas e das Congregações Romanas, que depois deveriam ser
sistematizados e encaminhados ao Concílio.
A Comissão
Antepreparatória foi presidida pelo cardeal Domenico Tardini, Secretário de
Estado do Vaticano. Tardini chamou, para secretário dessa Comissão, Pericle
Felici, que mais tarde, como secretário-geral da Comissão Central do Concílio,
se tornou uma pessoa-chave para todo o Vaticano II. Entre o envio da carta
oficial de Tardini, que pediu essas sugestões (19.6.1959) e o fim da consulta
(30.10.1959) decorreu pouco tempo. Em 16 de fevereiro de 1960, Tardini pediu
aos secretários das Congregações Romanas que preparassem até meados de março,
na base do retorno da consulta e do próprio trabalho, propostas que a Comissão
Antepreparatória deveria avaliar. Também a Congregação pela Propagação da Fé, a
Propaganda Fide, constituiu uma comissão interna que elaborou 23
propostas, que entregou em 28 de março de 1960 ao cardeal Tardini (Primeiro Documento). A Comissão
Antepreparatória terminou seu trabalho, em 1º de maio de 1960, com a coleção de
5.515 páginas.
2.2. Comissão Preparatória Central e dez Comissões
A 5 de junho de 1960,
novamente na festa de Pentecostes, João XXIII instituiu a Comissão Central com
dez Comissões Preparatórias e três secretariados que deveriam trabalhar sobre
as páginas até então colecionadas. Os presidentes dessas comissões
preparatórias eram sempre os prefeitos das congregações romanas
correspondentes. Essas presidências asseguravam o papel preponderante da Cúria
Romana sobre o processo preparatório do Concílio. O prefeito da Congregação
pela Propagação da Fé, o cardeal Agagianian, patriarca armênio da Cilícia, foi
nomeado presidente da Comissão das Missões.
A Comissão (Preparatória)
das Missões estava integrada por 22 membros e 32 consultores. Na representação
por nacionalidades sobressaem a Europa e o Norte. A maioria desses
representantes não veio dos “territórios missionários”. Os secretários adjuntos
da Comissão das Missões, S. Paventi e N. Kowalsky, ambos funcionários da Propaganda
Fide, dominaram o processo
preparatório.
A sessão inaugural da
Comissão das Missões aconteceu no dia 24 de outubro de 1960, na Igreja da Propaganda
Fide. Foram instaladas cinco subcomissões com temáticas específicas:
sacramentos e liturgia (1), governo nas Missões e direito canônico (2), vida do
clero e do povo (3), reforma na formação do clero e dos religiosos (4), ajuda
dos fiéis às Missões (5).
Os resultados das
subcomissões foram discutidos em duas sessões plenárias da Comissão
Preparatória das Missões,
a primeira, de 17 a 26 de abril de 1961, e a segunda, de 20 a 30 de novembro de
1961. Para a segunda sessão plenária, uma nova subcomissão redigiu os
diferentes trabalhos das subcomissões, segundo as exigências dos representantes
da Propaganda Fide, em forma canônica de “decretos”, com uma demonstratio
e uma dispositio e, obviamente, em latim.
Numa última sessão dos
secretários das subcomissões com os secretários adjuntos, Paventi e Kowalsky,
no dia 2 de fevereiro de 1962, se conseguiu uma redação final do Prefácio. As
divergências sobre o conceito “missão” eram grandes. Finalmente, no dia 6 de
fevereiro 1962, o Prefácio e os sete esquemas de Decretos estavam
na mesa da Comissão Preparatória Central que os discutiu em várias sessões (Segundo Documento).
Depois das discussões da
Comissão Preparatória Central, o novo presidente e relator dessa comissão,
cardeal Confalonieri, alegou que a maior parte dos Decretos do esquema
“De Missionibus” coincide com documentos de outras comissões e impôs cortes
drásticos. Dos textos apresentados pela Comissão das Missões sobraram, com
algumas modificações, apenas o Prefácio, o primeiro e o último dos sete
esquemas (“Do governo das Missões” e “Da cooperação com as Missões”). Nos dois
capítulos restantes foi inserido um texto sobre o apostolado dos leigos nas
missões, vindo da Comissão Preparatória “De Apostolatu Laicorum” (cf. PAVENTI,
p. 55s). Esse novo minidocumento formou o Schema decreti de missionibus,
no início de junho 1962 (Terceiro
Documento). Não foi enviado à apreciação dos padres conciliares. A questão
da missão não era prioritária para a Comissão Preparatória Central. A Propaganda
Fide lutava por sua própria sobrevivência, que estava ligada à sobrevivência
da abordagem territorial das missões (“ter missões”), centralizadas e
dependentes diretamente de Roma.
3. OS ATORES DO VATICANO II
Cinco atores, com prós e
contras, marcaram o Vaticano II: o Povo de Deus com novas experiências
pastorais (a), o papa João XXIII (b), um grupo de teólogos (c), os padres
conciliares (d) e a Cúria Romana (e).
a) Novas experiências
pastorais no interior do povo de Deus preparavam o clima que fez brotar o
Concílio e o Concílio os assumiu e, no interior de uma nova eclesiologia. Entre
os canteiros de obras pastorais mais importantes da época pode-se elencar:
- A coragem da opção
pelos outros, de um Charles de Foucauld (1858-1916) e dos seus
seguidores nos mais diversos movimentos espirituais e fundações religiosas,
antecipava questões posteriormente articuladas em torno do paradigma da
inculturação.
- A lucidez da opção
pelos operários de um Joseph Cardijn, que em 1924 fundou na Bélgica a Juventude
Operária Cristã (JOC), inspirando a Ação Católica com seu método da “revisão de
vida” (ver, julgar, agir), influenciou profundamente o Concílio, que
conseguiu fazer uma “revisão da vida eclesial”. Posteriormente, a Pastoral da
América Latina e os documentos eclesiais se beneficiaram por muito tempo do
método ver, julgar,agir.
- A criatividade e
tenacidade dos movimentos litúrgico, bíblico e ecumênico abriram perspectivas
para a celebração da vida e para a leitura da palavra de Deus historicamente
contextualizadas num horizonte escatológico de unidade eclesial.
- A sobriedade
missionária do movimento dos padres operários e da Mission de France, o despojamento de um
Abbé Pierre, fundador do movimento dos maltrapilhos-construtores de Emaús, já
apontavam para a opção pelos pobres e pelos que mais sofrem.
b) O papa João XXIII não
é o criador solitário do aggiornamento, mas a sua expressão corajosa.
Muitas experiências proféticas de aggiornamento passaram, antes de João XXIII,
por momentos de suspeita, de proibições e desqualificações eclesiais. Ele tem o
mérito de devolver a voz seqüestrada de muitos profetas e de encorajar teólogos
silenciados. Com coragem profética João XXIII convocou um concílio “fora dos
muros”. João XXIII abriu as janelas para a história da Igreja e para a
realidade do momento presente; descortinou um horizonte de esperança.
c) A coragem da prática
pastoral foi – por longos anos pré-conciliares – acompanhada pela retidão
intelectual de muitos teólogos que resistiram à perda de realidade no interior
da Igreja. Com seu serviço teológico ao povo de Deus, ultrapassaram as
fronteiras do legalismo e puseram a sua vida profissional em risco. Muitos
desses teólogos – Chenu, Lubac, Congar, Rahner, entre outros – chegaram
arrastados na corrente da suspeita e da proibição à porta do Concílio.
d) Durante o pontificado
de Pio XII (1939-1958), havia poucos apelos à participação dos bispos no
governo universal da Igreja. O processo conciliar, a convivência com os
colegas, as conversas em círculos de afinidade pastoral e algumas palestras e
textos de teólogos produziram um clima de abertura e participação entre os
padres conciliares. Com grande maioria, logo na primeira sessão do Concílio, os
bispos rejeitaram seis dos sete esquemas previamente enviados, preparados e controlados por setores da Cúria Romana. Esta
coragem foi o início de uma marcha para “fora dos muros”.
e) Desde o anúncio do
Concílio, a Cúria Romana deixou transparecer uma certa resistência contra a
abertura e o aggiornamento de João
XXIII. O que estava em jogo eram duas eclesiologias diferentes: “Igreja sociedade
perfeita” e “Igreja-Povo de Deus”. Depois da rejeição dos seis esquemas, a
Cúria Romana tentou salvar sua posição através de emendas, pressões sobre o
próprio papa e sobre os padres conciliares. No tempo pós-conciliar recuperou
sua hegemonia através de uma política de análises alarmantes e pessimistas, de
nomeações episcopais e de intervenções em congregações religiosas
(CLAR!), Conferências Episcopais e dioceses, e de um controle rígido de
faculdades e produções teológicas.
Não compreenderia bem o tempo pós-conciliar quem não
visse também, nesse setor curial, preocupações justificáveis. A proposta de
mudanças, pelo Vaticano II, causou inseguranças em muitos pastores. Na era da
incerteza e do desamparo pós-conciliar, pós-1968, pós-Muro de Berlim e pós-moderno,
surgiu a figura carismática de João Paulo II como a promessa de um mundo novo:
jovial e paternal ao mesmo tempo, vindo da aflição eclesial do leste europeu,
socialmente sensível, prometendo certezas através de uma certa rigidez na
aplicação de fórmulas doutrinárias, litúrgicas e vivenciais. Nas fronteiras
incertas entre o real e a sua representação, as viagens de João Paulo II deram
às massas populares o sentimento de estarem em boas mãos.
4. CAMINHO TORTUOSO ATÉ O DECRETO AD GENTES
4.1. Da primeira até o início da terceira sessão
Com a abertura do
Concílio, no dia 11 outubro de 1962, terminou o mandato das Comissões
Preparatórias. Além de alguns Secretariados, o Regulamento do Concílio previu
10 comissões conciliares, cada uma com 16 membros eleitos pelos Padres
conciliares e 9 membros (incluído o respectivo presidente) nomeados pelo papa.
Nessa primeira etapa do Concílio, entre 11 de outubro e 8 de dezembro de 1962,
os Padres conciliares rejeitaram todos os esquemas apresentados, menos o documento
sobre a liturgia.
Ao iniciar o Concílio, o
cardeal Agagianian, da Propaganda Fide,
foi novamente nomeado presidente da Comissão das Missões. Ele elegeu Vítor Sartre e José
Lecuona Labandibar como vice-presidentes e Saverio Paventi como secretário. Durante
a primeira sessão do Concílio, Agagianian e os estrategistas da Propaganda
Fide não convocaram a Comissão das Missões para nenhuma sessão de
trabalho. Na aula conciliar e nos corredores, a Propaganda Fide recebeu
críticas, sobretudo de bispos da África e da Ásia, que propuseram a
transformação estrutural da Propaganda Fide num organismo de apoio econômico, sem poder jurídico.
Depois do primeiro
período do Concílio, o vice-presidente da Comissão das Missões,
Sartre, e o secretário, Paventi, com alguns peritos que moravam em Roma,
reuniriam-se no dia 18 de dezembro de 1962 para dar início a uma série de
sessões de trabalho e discussões em torno de um quarto documento,
que deveria ser enviado para a apreciação da Comissão de Coordenação. Na sessão do dia 22 de janeiro de 1963, Agagianian
deu algumas diretrizes. Incentivou contatos com outras comissões e convocou uma
primeira reunião plenária da Comissão das Missões para o dia 20 de março
1963.
Dia 30 de janeiro de
1963, o cardeal Cicognani comunicou, em nome da Comissão de Coordenação, que os
trabalhos da Comissão das Missões devem prosseguir na base do esquema de junho
de 1962. Portanto, para as reuniões plenárias da Comissão das Missões,
entre os dias 20 e 29 de março de 1963, membros e peritos receberam basicamente
o terceiro documento (Schema decreti de missionibus: De Regimine Missionum e De
Cooperatione Missionali) como base para seu trabalho. Nas reuniões
plenárias da Comissão das Missões houve pouco consenso. Pressionado pelo
tempo, a Comissão aprovou uma estrutura semelhante à do terceiro documento.
O texto desse quarto documento foi, no dia 3 de julho
1963, apreciado pela Comissão de Coordenação, que o devolveu com muitas
críticas. Em seguida, com poucas modificações, foi enviado aos padres conciliares
para ser discutido na segunda etapa conciliar.
Durante o segundo período
do Concílio (29.9.-4.12.1963), novamente surgiram na Comissão das Missões,
agora já em posse das críticas de alguns pareceres dos bispos, divergências
insuperáveis. Nessa segunda etapa do Concílio, a Comissão Teológica decidiu
integrar à “Constituição sobre a Igreja” um capítulo sobre natureza e índole
missionária da Igreja (cf. LG 17). Em 10 sessões plenárias, a Comissão das
Missões produziu com o título “De Missionibus” um quinto
documento, aprovado em 3 de dezembro com ampla maioria da Comissão.[1] Em janeiro de 1964 foi aprovado pela Comissão de
Coordenação e em seguida enviado aos padres conciliares, que deveriam dar um
retorno até 31 de março de 1964. Voltaram 67 propostas para emendas,
configurando um volume de 283 páginas. Cinco apreciações falaram em nome de
suas respectivas Conferências Episcopais. Para o dia 4 de maio de 1964, estava
marcada a próxima sessão plenária da Comissão das Missões.
Antes de a Comissão
das Missões poder apreciar as propostas de emendas dos padres conciliares,
ocorreu – sob pressão do tempo e das prioridades estabelecidas - uma
intervenção administrativa, que obrigou a Comissão das Missões a abrir
mão dos textos elaborados e produzir um sexto documento em forma de uma
declaração de princípios. O que aconteceu?
No dia 23 de abril de
1964, o secretário-geral do Concílio, Pericle Felici, publicou a decisão da
Comissão Central de Coordenação de que, no interesse de uma concentração do
trabalho, todos os textos ainda não discutidos na aula conciliar deveriam ser
resumidos em “Proposições” e “Princípios”. Como Schemata propositionum deveriam, sem
grandes discussões, ser apresentados aos padres conciliares para a votação. A Comissão
das Missões estava diante da tarefa impossível de atender às expectativas
do episcopado, de equacionar as divergências internas e de obedecer à Comissão
Central.
Sob a pressão de redigir
um texto curto, a Comissão das Missões produziu um sexto documento, de poucas páginas, que
recebeu o título “De activitate missionali ecclesiae”. Era composto de
um prefácio e 13 apontamentos para a atividade missionária.[2] No dia 26 de maio de 1964, esse novo documento foi
entregue ao cardeal Cicognani e no dia 3 de julho, enviado aos padres conciliares.
4.2. Paulo VI na aula conciliar e reação crítica
Depois do início do
terceiro período do Concílio (14.9.-21.11.1964), a Comissão das Missões
realizou ainda três sessões, ampliou os 13 apontamentos para 14, incluindo um
item sobre a responsabilidade da Igreja universal com as missões, e preparou o
“Esquema de Proposições sobre a Atividade missionária da Igreja” para a
avaliação e votação na aula conciliar.
No dia 5 de novembro, o
secretário do Concílio, Felici, surpreendeu o plenário com o aviso de que no
dia seguinte, na 116a Congregação Geral, a discussão do esquema
sobre a "Igreja no mundo contemporâneo" (esquema 13) seria
interrompida para se dar início à discussão sobre o esquema De Activitate
Missionali Ecclesiae. O papa participaria dessa sessão. Foi a primeira vez
em que o papa participou de uma sessão ordinária do Concílio. Queria dar um
sinal, mas caiu na armadilha organizacional.
Os leigos, dizia o Papa,
“ofereçam orações, práticas de piedade e auxílios materiais para generosa ajuda
e conforto dos arautos do Evangelho”, que são, supostamente, os padres
missionários. Mantém-se a hierarquia clerical também no interior dos
“territórios de missão”: “sacerdotes” missionários, “auxiliares missionários de
ambos os sexos, catequistas e os que oferecem às Missões auxílios concretos”. O
“Decreto sobre o Apostolado dos Leigos” (AA) procurou corrigir essa visão que
refletiu o convencional estilo missionário da Propaganda Fide
(KLOPPENBURG [org.], 1965, vol. IV, 299s). Logo, não só os bispos-missionários,
mas a maioria dos padres conciliares rejeitariam esse texto-esqueleto, que,
antes de ser derrotado na urna, foi retirado da aula conciliar. As mudanças
precisavam de uma nova fundamentação teológica.
4.3. Rumo à quarta sessão
No dia 16 de novembro de
1964, já no fim do terceiro período conciliar, a Comissão das Missões se reuniu
numa sessão plenária e constituiu uma subcomissão para sistematizar as
contribuições da aula conciliar.[3] No dia 20 de novembro, a
subcomissão se reuniu pela primeira vez. Agagianian mandou avisar que não
aceitaria o padre Congar como assessor da Comissão. A subcomissão justificou a
escolha de Congar, que era da Comissão Teológica do Concílio. Na mentalidade da
Propaganda Fide não coube uma nova eclesiologia. Depois de longas discussões,
Congar foi aceito.
A subcomissão decidiu se reunir de 12 a 27 de janeiro
de 1965, no seminário dos Verbitas de Nemi, com os peritos Congar, Seumois,
Grasso, Neuner e Glazik. Nessa reunião, os membros da comissão estiveram todos
presentes. Dos peritos só faltou Ratzinger, que mandou sua contribuição por
escrito. Schütte, como presidente da subcomissão, apresenta os
quatro projetos existentes. O grupo toma,
basicamente, o texto de Congar, que distingue entre a salvação dos indivíduos,
sem intervenção formal da Igreja, e a Igreja como meio necessário à salvação.
Agagianian, que chega no
dia 12 de janeiro (1965), pronuncia-se novamente em favor do senso estrito da
missão. Para ele, no dizer do padre Congar, o objetivo do documento que os
padres conciliares deveriam aprovar, é, sobretudo, suscitar vocações
missionárias e levantar fundos. No dia seguinte, 13 de janeiro, o grupo se
divide em dois subgrupos. Um discute o Proemium (Introdução), que estará
pronto no dia seguinte, e o outro, com Lecuona, Riobé, Neuner e Grasso,
trabalha sobre o texto de Congar procurando incluir os pontos levantados no dia
anterior. Esse sétimo documento é
dividido em cinco capítulos: 1) Princípios doutrinários; 2) Obra missionária;
3) Os missionários; 4) Organização da atividade missionária; 5) Cooperação com
os missionários (cf. KLOPPENBURG [org.], vol. V, 1966, p. 242). Em junho, o
texto é enviado aos padres conciliares para ser discutido na quarta e última
sessão do Concílio.
4.4.
Esquema dos textos que precederam Ad
Gentes
|
|
NOME CONFIGURAÇÃO |
ELABORADO POR QUEM |
BASE DO DOCUMENTO |
QUANDO (elaborado e entregue) |
DESTINO |
|
1 |
23
Propostas |
Comissão interna da Propaganda
Fide |
- retorno da Consulta da
Comissão Antepreparatória - propostas da Propaganda Fide |
- antes do Concílio -
28.3.1960 |
Subsídio para a Comissão
(Preparatória) das Missões |
|
2 |
Prefácio e sete Esquemas em
forma de Decretos |
- Secretários das cinco Subcomissões - membros da Comissão das
Missões |
- 23 Propostas; - visão institucional e jurídica
da Propaganda Fide; |
- antes do Concílio - 6.2.1962 |
Devolução do Documento (12.5.62)
pela Comissão Central que pede o corte de cinco esquemas |
|
3 |
Prefácio e dois Esquemas de
Decretos sobre as Missões |
Comissão Preparatória das Missões |
A Subcomissão Central impõe o
corte de cinco esquemas do texto anterior |
- antes do Concílio - junho 1962 |
- o Documento não é enviado aos
padres conciliares; - o texto é retomado depois da
1ª sessão do Concílio (dez. 1962) |
|
4 |
Prefácio e dois Esquemas (Missão
em si e Cooperação Missionária) |
- Grupo de Roma, - Comissão das Missões |
Terceiro Texto (Prefácio e
Esquema de Decretos sobre as Missões) |
- entre a 1ª e a 2ª sessão do
Concílio - junho 1963 |
- a Comissão Central de
Coordenação devolve o documento com críticas; - com algumas revisões, antes
do início da 2ª sessão, enviado aos padres conciliares. |
|
5 |
Das Missões |
Comissão das Missões |
- Quarto Texto; - critica da Comissão de
Coordenação - retorno dos padres conciliares |
- durante a 2ª sessão do
Concílio - 3.12.1963 |
- aprovado pela Comissão de
Coordenação (jan. 64); - enviado aos padres conciliares |
|
6 |
Esquema de 14 Proposições sobre
a Atividade Missionária da Igreja |
Comissão das Missões |
Ordem de 23 de abril de 1964: os
Esquemas ainda não discutidos devem ser reduzidos a Proposições |
- entre a 2ª e a 3ª sessão do
Concílio - 26.5.1964 |
- aprovado pela Comissão
Central; - enviado aos padres conciliares
(3.7.64); - recomendado por Paulo VI
(6.11.1964); - criticado pelos padres
conciliares; - retirado antes da votação |
|
7 |
Esquema de Decreto sobre a
Atividade Missionária em cinco capítulos |
- Subcomissão - Comissão das Missões |
- elementos das discussões
anteriores; - Propostas e críticas da 3ª
sessão conciliar - colaboração de nova assessoria |
- entre a 3ª e a 4ª sessão do
Concílio - junho 1965 |
- discussão no 4º período
conciliar (7 a 13.10.65); - votação de sondagem favorável com novas
propostas; - volta para as emendas à
Comissão das Missões |
|
8 |
Decreto Ad Gentes sobre a
Atividade Missionária da Igreja |
- Cinco Subcomissões - Comissão das Missões |
- Sétimo Texto; - 193 propostas de emendas, - 20 sufrágios; - 10 votações sobre as
modificações |
- durante a 4ª sessão do
Concílio - 7.12.1965 |
- influência sobre Medellín,
Puebla, Santo Domingo; - luta pela interpretação |
4.5. Nascimento Ad
Gentes
A quarta e última sessão do Concílio começou em 14 de
setembro de 1965.[4] Entre os
dias 7 e 13 de outubro é discutido o novo texto sobre a atividade missionária.
Cinqüenta padres conciliares tomaram a palavra. Um grupo significativo pediu a
afirmação da necessidade da missão, apesar do reconhecimento da ”possibilidade
de salvação sem conhecimento do Evangelho e sem pertença visível à Igreja” (KLOPPENBURG [org.], vol. V, 1966, p. 243). Pediu-se
também uma sensibilidade especial para a questão ecumênica e as áreas de
convivência com os não-cristãos. Giocondo Grotti, do Acre, chamou a atenção
para o papel dos leigos na missão, e Pedro Arrupe, o superior-geral da
Companhia de Jesus, para a cooperação missionária, para a colaboração com a
construção da paz e para o encontro em direção aos povos afro-asiáticos com
suas culturas e religiões ancestrais. No final desse debate, o texto passou
pela votação de sondagem com uma aprovação de 2.070 contra apenas 15 votos.
Para a próxima etapa, cinco
subcomissões, uma para cada capítulo, trabalharam as sugestões de emendas de
193 padres conciliares. Já um mês mais tarde, nos dias 10 e 11 de novembro, a
Comissão pediu 20 sufrágios sobre partes do texto que receberam muitas emendas (cf. KLOPPENBURG [org.], vol. V, 1966, p. 394ss). A maior
parte das emendas foi aceita. O texto voltou depois à Comissão para a sua
redação final. No dia 30 de novembro de 1965, a Comissão entregou aos padres
conciliares o novo texto, pedindo 10 quesitos sobre as emendas feitas. Antes da
promulgação, no dia 7 de dezembro de 1965, o “Decreto Ad gentes - Sobre
a atividade missionária” recebeu o voto sim de 2.314 padres conciliares, contra
apenas 5 votos não.
No
mesmo dia 7 de dezembro de 1965, foi promulgada a “Constituição Pastoral sobre
a Igreja no Mundo Contemporâneo” (GS), a “Declaração sobre a Liberdade
Religiosa” (DH), poucos dias depois da promulgação da “Declaração sobre as
Religiões Não-Cristãs” (NA, 28.10.65). O lugar do “mundo”, da “missão”, da
“liberdade religiosa” na Igreja foi disputado e discutido até o último momento
do Concílio. E essa discussão continua até hoje pelas
diferentes leituras desses textos em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo
Domingo (1992), e Roma, com o “Sínodo dos Bispos para a América” (1997) e a
“Declaração Dominus Iesus” (2000), que procurou fechar um ciclo. Onde,
para marcar a identidade, o Concílio derrubou paredes e colocou arbustos, a
“Declaração sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da
Igreja”, levantou novamente muros. Mas, a travessia continua, nem sempre em linha
reta.
5. TEOLOGIA DA MISSÃO COMO TEOLOGIA FUNDAMENTAL
A teologia da missão do Vaticano II não nasceu no
canteiro de obras de Ad Gentes. A
Propaganda Fide ainda não admitiu as novas perspectivas da reflexão teológica.
A teologia da missão, no Vaticano II, emergiu de campos teológicos respaldados
por novas práticas pastorais. Emergiram, concretamente, nos campos
eclesiológico-pastorais, litúrgicos e ecumênicos, portanto, das Constituições sobre a Igreja (Lumen Gentium, Gaudium et Spes) e a Liturgia (Sacrosanctum
Concilium), dos Decretos sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio) e a Vocação dos Leigos (Apostolicam Actuositatem), e das
Declarações sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis
Humanae) e as Religiões Não-Cristãs (Nostra
Aetate).
5.1. Por uma leitura intertextual
No conjunto dos
documentos conciliares, configura-se uma seqüência de passos que constituem o
início de uma nova caminhada missionária e missiológica:
1) Deus, que é amor, é
centro, origem e fim da missão da Igreja. A recapitulação do mundo e da
humanidade em Deus é o fim da missão da Igreja.
2) “Deus é amor” (1Jo
4,8.16) significa que Deus é relação. Seu amor transborda, como “amor fontal”,
do qual procede o Logos (o Verbo) e o
Pneuma (o Espírito Santo). Deus se
revelou como Deus-Trindade (AG 2-4).
3) O amor de Deus, sua
“antropia”, se concretiza nas missões do Filho (encarnação) e do Espírito
(doação).
4) Jesus, o Enviado do
Pai, é a Palavra viva de Deus que coloca os discípulos na linhagem da “Missão
de Deus” (Missio Dei). A centralidade
da missão é a centralidade de Deus que é amor que se doou no Espírito, e,
portanto, que está presente no mundo e nas pessoas, sobretudo, nos pobres.
5) A “antropia” de Deus,
seu olhar para a humanidade não é um olhar distante ou distanciado. O olhar de Deus é, ao mesmo tempo um estar, um estar presente no mundo, e um enviar ao mundo. O Concílio traduziu
essa presença de Deus através da palavra “aggiornamento”, fazer-se
presente. O fazer-se presente no mundo contemporâneo, o Vaticano II declarou
uma tarefa eminentemente eclesial e, portanto, missionária.
6) Essa presença de Deus
encontrou a sua expressão nos textos que falam da inserção, da inculturação, da
assunção da humanidade e do seu mundo cultural diversificado (AG 3b, Puebla
400), e da opção pelos pobres (GS 88, AA 8c.d, CD 13a, Medellín XIV 3,9).
Também a metodologia do ver, julgar, agir tem uma conotação trinitária
do aggiornamento: ver com o olhar de Deus, julgar segundo o discernimento do
Espírito e agir segundo o exemplo de
Jesus.
7) A PALAVRA DE DEUS AOS
POVOS (DEI VERBUM AD GENTES, ver gráfico) é o ponto de partida
para a missão da “Igreja - Povo-de-Deus”. Existe “alguma semelhança entre a
união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na
caridade” (GS 24 c). É a Palavra de Deus, a Revelação, que instruiu os fiéis
sobre DEUS AMOR que é DEUS PALAVRA que se fez carne. O rosto concreto do “Verbo
Encarnado é solidariedade” (cf. GS 32).
8) O Verbo que se fez
carne, na plenitude do tempo, é “médico corporal e espiritual” (SC 5a). O fim
último da missão da Igreja é que Deus seja louvado em tudo e em todos. “A
Constituição sobre a Sagrada Liturgia”, o primeiro documento aprovado pelo
Concílio (4.12.1963), através das discussões sobre a língua vernácula (SC 54) e
a integração de elementos culturais da tradição dos povos na liturgia (SC 65),
abriu timidamente caminhos para as discussões posteriores sobre o paradigma da
inculturação.
9) Quando se quer saber
de alguém, quem ele é, pergunta-se: “Você é natural de onde?”. A Igreja, que se
definiu como “povo-de-Deus peregrino” (LG, cap. 2), é “natural” de Deus e se
dirige, em Jesus Cristo, a toda a humanidade. A missionariedade da Igreja é
“natural” por causa de sua origem no amor transbordante de Deus.
10) Jesus enviou seus
discípulos para anunciar a boa notícia da assunção, da recapitulação e da
reintegração da humanidade e do mundo no projeto de Deus (Nova Aliança). A
“Igreja Povo de Deus” vive o envio trinitário no seguimento de Jesus,
anunciando o Reino como meta historicamente relevante e escatologicamente
significativa. O novo Povo de Deus convoca toda a humanidade para o encontro
definitivo com Deus.

11. A relevância
histórica da missão está na sua vinculação com o projeto do Reino, que é uma
proposta de ruptura com sistemas, lógicas, práticas e mentalidades, sem
promessa de perfeição histórica. Essa ruptura é vivida na proposta dialética de
assunção e transformação do mundo (cf. GS 22b; LG 13b; AG 3b, 22a.b; Puebla
400).
12) A Igreja é antes de
qualquer estruturação hierárquica, povo de Deus. Como tal, todos os fiéis
participam do sacerdócio comum (cf. LG 10) e da infalibilidade “no ato de fé”.
“O conjunto dos fiéis, ungidos que são pela unção do Santo (cf. 1 Jo 2,20 e
27), não pode enganar-se no ato de fé” (LG 12). Existe uma responsabilidade
colegiada entre todos os batizados que têm um papel ativo na articulação, no
desdobramento concreto e na propagação da fé (cf. LG 17). A missão visa a povos
adultos na fé e livres no Espírito.
13) O Povo de Deus tem
por “condição a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus”, por “lei” o
mandamento novo e por “meta” o Reino de Deus (LG 9b). O Povo de Deus se
constitui a partir dos pequenos, pobres e excluídos. Na lógica do Reino, os
outros, os pobres e os que vivem na esfera sombria do mundo, são caminhos da
verdade e porta para a Vida.
14) A centralidade de
Deus, sua proximidade com os pobres e sua verdade que liberta, exigem da Igreja
uma natureza profética frente ao antiprojeto do reino do pão não partilhado, do
poder que não se configura como serviço, do privilégio que favorece a
acumulação e do prestígio que organiza eventos de ostentação em vez de
articular processos de transformação. A natureza missionária da Igreja se
desdobra em sua natureza mística (contemplação) e militante (luta). A partir
dos conflitos que envolvem os pobres e os outros, os excluídos e os que sofrem,
compreende-se a missão como militância por um mundo melhor, por transformações
históricas e pessoais.
15) A “Constituição
Pastoral Gaudium et Spes”, com sua abertura e seu otimismo, é que mais
corresponde, entre todos os documentos, às intenções que levaram João XXIII à
convocação do Vaticano II. Expressa a missão universal da Igreja como o Novo Israel
que é constituído de todos os povos e nações e tem uma missão para com toda a
humanidade (cf. LG 13a; 45). Universalidade significa que nenhuma pessoa seja
excluída do amor de Deus. Missão e diálogo são expressões do bem-querer
recíproco, profundo e permanente do Povo de Deus para com a humanidade.
16) A partir da
universalidade, a ação evangelizadora se reveste de formas múltiplas, mas nunca
isoladas ou individualistas (cf. GS 32, PO 7). No interior da “Igreja-Povo de
Deus” haverá, na unidade plural do Espírito Santo, uma certa comunhão e
diversidade de bens, dons e metas.
17) O povo de Deus tem
uma missão pública, histórica e profética, a serviço dos pobres, que é, ao
mesmo tempo, uma missão escatológica. Ele “pretende somente uma coisa:
continuar a obra do próprio Cristo” (GS 3b), que veio ao mundo “para dar
testemunho da verdade” (Jo 18,37) e “para servir e não para ser servido” (Mc
10,45). E este serviço se desdobra no serviço à unidade dos cristãos (UR), à
liberdade religiosa (DH), ao cultivo das relações com religiões não-cristãs
(NA).
18) O povo de Deus é
despojado no seu agir e aberto no seu anúncio. Admite que também fora da Igreja
há salvação (cf. LG 16; AG 7a). O Vaticano II respalda a possibilidade da
salvação aos seguidores de outras religiões (LG 16). Nessa abertura, o diálogo
faz sentido. Deixa de ser uma artimanha estratégica e se torna uma categoria
transcendental de liberdade e libertação.
5.2. À
guisa de conclusão
O Concílio foi um evento
marcado pelo Espírito Santo que expulsou, por um instante, o medo e o comodismo
do povo de Deus, dos teólogos, do papa e dos bispos. O medo, porém, e a vontade
de acomodar-se fora do território dos pobres que a cada dia aumentam, voltaram.
Não são voltas simples ao passado. Ninguém defende hoje, explicitamente, o
colonialismo, o etnocentrismo ou o autoritarismo. Mas, há substitutivos
sofisticados para disfarçar novas colonizações. Um desses substitutivos é o
fundamentalismo que perpassa todas as denominações religiosas. Os antigos fins
prioritários da missão, salvar as almas dos pagãos e implantar a Igreja,
acompanham esse fundamentalismo, não totalmente sem respaldo nos documentos
conciliares. Autoritarismo e tutiorismo institucionais que exigem juramentos de
vassalagem e obediência cega, novamente se instalaram nas relações internas de
Igrejas locais. A regressão a uma fé providencialista e infantil, que
responsabiliza Deus por tudo, está dando as voltas por muitas Igrejas.
Individualismo, corporativismo e consumismo dificultam a opção pelos pobres. A
espectacularização litúrgica e, como falso remédio, o legalismo rubricista
novamente mostram a sua cara.
O
Vaticano II deixou marcas teológico-pastorais, como pontos de partida, para uma
Igreja que se considera por sua natureza missionária, radicalmente local e
universal e que se definiu como povo de Deus, sacramento universal da salvação
e mistério. Assistiu-se nos processos, que forjaram o Decreto Ad Gentes,
a um deslocamento do “ter missões” ao “ser missionário”; o deslocamento de uma
Igreja que tem missões territoriais, pelas quais se fazem coletas e orações
para que possam integrar a humanidade não-cristã na Igreja Católica, para uma
Igreja na qual a missionariedade representa uma orientação fundamental de todas
as suas atividades. A missiologia que era um anexo optativo ao campo da
pastoral, migrou para o campo da teologia fundamental. A natureza missionária
da Igreja significa “responsabilidade para com o mundo” (AG 36b), não de
indivíduos isolados, mas de todo o povo de Deus. Diante do mundo espetacular,
esse povo peregrino, “avançando pela estreita via da cruz” (AG 1c), não admite
cruzadas nem proselitismos (cf. DH 10). Está ao lado dos vencidos, não dos
vencedores.
O
Concílio procurou articular três núcleos missiológicos: o labor missionário
propriamente dito, o diálogo inter-religioso, a colaboração solidária nas
grandes questões da humanidade, e, graças à vontade salvífica universal de
Deus, a salvação além da Igreja Católica (cf. RATZINGER, 1976, p. 46). No fim,
o que salva não é o missionário feito homo faber, mas a graça de Deus. O
Evangelho da Graça pode ser anunciado a todos os povos. O Evangelho da Graça
está presente em todas as formas de doação da vida: no diálogo paciente, na
presença silenciosa e no testemunho, na contemplação e na ação, na caridade e
na justiça, mas, sobretudo na alegria, na simplicidade e na misericórdia. No
anúncio dessa gratuidade da redenção muitos deram a vida. Derramaram seu
sangue, romperam com a lógica de custo-benefício, contextualizaram o Vaticano
II. O Evangelho da Graça anunciado por eles aponta para a possibilidade de um
mundo para todos.
6. TAREFAS E PERGUNTAS
- De
onde vieram os impulsos para o novo conceito de missão?