4.2. MODELOS ECLESIOLÓGICOS
1. OBJETIVO E RESUMO
O objetivo desta aula é ter uma aproximação da Igreja
atual que permita compreender a relação das igrejas particulares com a Igreja
universal e dentro das igrejas particulares uma visão do papel do leigo. Para
isso se recorre à metodologia do modelo, ao apresentarem-se duas formas de
Igreja que hoje se mostram mais presentes: o modelo de Igreja hierarquia e o
modelo de Igreja Povo de Deus. O primeiro salienta a dimensão da verticalidade
e da autoridade institucional na Igreja, cabendo aos leigos um papel de
subordinação. O segundo valoriza a igualdade fundamental de todos em virtude do
batismo, antepondo a base laical da Igreja às funções institucionais. Em ambos
os modelos se estuda a relação entre
Igreja universal e Igreja particular. Busca-se assim superar uma relação de
mera subordinação das Igrejas particulares respeito à Igreja de Roma por causa
de uma intelecção equivocada da relação.
2. ASPECTO METODOLÓGICO
Modelo é um recurso didático para
analisar e interpretar uma realidade de modo simplificado e algo redutor.
Escolhe-se um prisma, um eixo, em torno do qual se estruturam elementos
dispersos de modo que configuram um todo orgânico. Ele serve para entender a
realidade estudada de modo aproximativo. Salienta alguns traços principais da
realidade, deixando outros, também presentes, na penumbra. Sua função
primordial é chamar atenção sobre as características marcantes e não apresentar
um quadro de referência completo e exaustivo da realidade. Não dispensa outras
aproximações complementares, como uma abordagem histórica.
A Igreja católica vive várias
tensões devido a sua natureza própria de uma realidade sociológica e teologal,
respondendo simultaneamente às necessidades e conjunturas históricas culturais
e à intenção de Jesus expressa por sua vida, mensagem e práticas.
Nesta aula veremos dois modelos:
Igreja hierarquia e Igreja Povo de Deus. Dentro deles, destacaremos a relação
entre Igreja universal e Igreja particular.
3. MODELO IGREJA HIERARQUIA
3.1. Em que consiste?
Consiste numa percepção do ser
interno da Igreja e de sua missão a partir da autoridade constitutiva da
hierarquia. A Igreja se estrutura de cima para baixo, de maneira vertical, sem
naturalmente negar a necessidade de uma vida interna de comunidade e de missão.
A coesão interna é vista desde a instituição e a autoridade que a representa.
A preocupação central da unidade
conduz a uma insistência na atuação das autoridades, guardiães da ortodoxia –
isto é da permanência inalterada das verdades reveladas dogmáticas e morais –,
das práticas sacramentais, dos ministérios sobretudo ordenados e de sua forma
organizativa desde os órgãos centrais até as instituições menores locais.
A dupla vigilância da verdade e da
disciplina eclesiástica é exercida com constância e competência pelas
instâncias institucionais, sobretudo romanas, que estão a serviço do ministério
petrino. A Igreja entende-se como uma “sociedade perfeita”, de natureza
original e única, dotada de todos os elementos necessários e suficientes para
cumprir sua missão visível e institucional através dos tempos e lugares, como
um corpo social.
3.2. Suas raízes históricas e constituição
Tal concepção firmou-se a partir
do século XI, mas lança raízes no IV para o V século. No centro desse modelo
está o poder do Bispo de Roma. Santo Agostinho está na sua origem sob o aspecto
teológico. Em tensão com a crise donatista, enfatiza uma compreensão
institucional e hierárquica da Igreja e de todo o Ocidente. A teologia da
história do livro da Cidade de Deus
influenciará fortemente a Idade Média.
O poder romano foi crescendo desde
os papas dos séc. IV/V através das
tensões com os concílios e das lendas do Papa S. Silvestre e da "Doação de
Constantino". Gregório Magno (590-604) tem importância nesse processo,
como o verdadeiro primeiro papa medieval. A Igreja mantém estreita união com o
Estado de modo que no Ocidente ser cidadão era ser cristão, católico e romano.
Tal modelo tem repercussões na liturgia, no canto gregoriano, na prática da
confissão individual, no rigorismo da moral sexual.
A partir de Gregório VII (séc. XI) esse modelo se fortalece, ao
estender o Papa pelo "Dictatus papae" seu poder sobre todo o mundo
com competência ilimitada. A centralização, o legalismo da igreja e sua
ciência do direito canônico, a
politização através do poder eclesiástico e seu domínio sobre todo o mundo, a
militarização com a "guerra santa", a clericalização com um clero
celibatário vão configurando-o. Ele encontra em Tomás de Aquino a grande
síntese teológica.
No século XVI, em reação à
teologia dos reformadores elabora-se uma eclesiologia fortemente calcada na
visibilidade. A posição de S. Roberto Bellarmino (1542-1621) tornou-se
paradigmática ao frisar os aspectos visíveis da Igreja. “Para que alguém possa
ser declarado membro dessa Igreja verdadeira, da qual falam as Escrituras, não
pensamos que dele se peça nenhuma virtude interior. Basta a profissão exterior
de fé e de comunhão dos sacramentos, coisa que o próprio sentido pode
constatar. A Igreja é uma comunidade de homens tão visíveis e palpáveis quanto
a comunidade do Povo Romano ou o Reino de França ou a República de Veneza” ([1]).
O Concílio Vaticano I (1870) desenrola-se num contexto tenso de violentos
ataques à Igreja católica hierárquica com a conseqüente postura defensiva e
restauradora. Por razões históricas, o Concílio não conseguiu levar a cabo toda
a tarefa que se propusera e termina por tratar unilateralmente do poder papal,
separado do conjunto da Igreja. Define o Primado do Romano Pontífice e a sua
infalibilidade. Pio XII termina esse
ciclo, insistindo no aspecto de que o Corpo Místico de Cristo se identifica com
a Igreja Católica Romana. Nesse modelo entende-se de maneira unilateral a
relação entre Igreja universal e Igreja particular.
3.3. Tensão entre Igreja universal e particular
A tensão entre Igreja universal e
particular se vive nesse modelo sob a forma de submissão das igrejas
particulares à Igreja de Roma, como se esta fosse a encarnação da única Igreja
universal. Não se percebia bem a dialética. Gregório VII já se atribuíra o
título de "universalis pontifex" e de "universalis ecclesiae
episcopus", gerando a impressão de Roma ser realmente a Igreja universal e
as igrejas particulares subordinadas a ela. O próprio Paulo VI assina os
documentos do Concílio com o título de "episcopus ecclesiae
catholicae". Esse título permite um duplo sentido. Num primeiro sentido,
vale de todo bispo. Assim um bispo de uma diocese é bispo da igreja católica,
situada na cidade ou região de que é bispo. Ou pode significar que o Papa é o
único bispo da Igreja católica, isto é universal. Nesse sentido, o universal se
identificaria com Roma, que é na mente de muitos membros da Igreja, inclusive
até de bispos, a compreensão do Bispo de Roma.
Essa concepção de que o Bispo de
Roma é na prática o Bispo da Igreja universal teve conseqüências para o
ministério episcopal em toda a Igreja católica. Mesmo que dogmaticamente o
bispo saiba, segundo o ensinamento do Concílio de Trento, que ele recebe o
poder imediatamente de Deus pelo sacramento da ordenação episcopal, na prática
se comporta como se fosse um vigário do Bispo de Roma e dele recebesse o
ministério episcopal.
A linguagem é a grande via dos
equívocos. Como a Igreja de Roma, sobretudo a partir de Gregório VII, se
atribuiu títulos como "caput, mater, fons, origo, fundamentum. basis et
cardo totius ecclesiae" - cabeça, mãe, fonte, origem, fundamento, base e
núcleo de toda Igreja", criou-se o imaginário da onipotência e onipresença
de Roma. Ora esses são atributos universais.
O primado de jurisdição, definido
no Concílio Vaticano I, funcionou na prática como a universalização do modelo
da Igreja de Roma, que é uma Igreja particular, impondo suas particularidades a
todas as igrejas, inibindo ou até mesmo reprimindo a autonomia das igrejas
particulares no campo da liturgia, de tradições doutrinais, de disciplinas
específicas e de tantas outras manifestações de vida das igrejas locais. No
imaginário é como se a Igreja de Roma fosse uma única Igreja da qual as outras
seriam partes subordinadas.
3.4. Relação no interior da Igreja
Esse modelo se reproduz em nível
de diocese e de paróquia. Cada autoridade se entende em relação a seus súditos
como um pequeno papa com poder absoluto e universal. As autonomias desaparecem.
Naturalmente os leigos são a maior vítima de tal modelo. São reduzidos a um
papel de pura obediência e dependência do clero.
Pio X exprimiu de maneira clara
essa consciência, ao afirmar que a vida dos fiéis na Igreja dependia e se
originava da hierarquia. Esta estabelecia as verdadeiras balizas dentro das
quais os leigos se situavam e se entendiam.
“Só na hierarquia reside o direito e a autoridade de orientar e dirigir
[...]. O dever da multidão é deixar-se governar e seguir com obediência a
direção dos que a regem” [2].
Foi necessário esperar o Concílio
Vaticano II para que esse modelo fosse superado no sentido hegeliano de ir para
a frente, retendo os elementos válidos e fundamentais e negando sua
negatividade para alcançar um modelo mais rico e integrado: o modelo Povo de
Deus
4. MODELO POVO DE DEUS
4.1. A virada copernicana
É sabido que o esquema sobre a
Igreja, preparado pela Comissão Teológica pré-conciliar e proposto ao plenário
do Concílio, foi acremente criticado pelos Padres Conciliares, terminando por
sua rejeição como um todo. E elaborou-se então um novo esquema. E em dado
momento houve uma votação decisiva que foi a inversão da ordem de dois
capítulos. O capítulo da hierarquia precedia ao dos leigos. Criou-se então um
capítulo prévio aos dois dedicado ao Povo de Deus em que hierarquia e leigos
foram contemplados na sua unidade anterior. Não se tratava de algo puramente
redacional, mas teológico-simbólico. Primeiro o Povo de Deus que se constitui
pelo batismo, primeiro o sacerdócio comum dos fiéis, também ele fundado no
batismo. A seu serviço está a hierarquia. Está jogada a grande cartada
eclesiológica. Estabelece-se a base laical da Igreja.
4.2. Modelo Povo de Deus
Ele se caracteriza pela base laical e colegial, como
aparece na Lumen gentium. A Igreja é laical no sentido de ser povo de Deus, GaoV tou Jeou, donde vem o termo leigo e o
adjetivo laical. No centro da vida da Igreja está o batismo que nos faz todos
membros iguais de um mesmo Povo de Deus. Sobre tal igualdade fundamental e após
ela, virão as diferenças de ministérios e carismas. Não é a hierarquia que nos
constitui cristãos, mas o nascimento pelo batismo. A autonomia do batizado não
significa independência nem rebelião. Ninguém é independente de ninguém. Todos
temos laços de relação que nos fazem mutuamente dependentes.
O caráter de graça sacramental do poder na Igreja não o
torna absoluto, antes obriga o ministro à consciência de que o recebeu como
graça a serviço de todo o corpo. Ele não é dono da graça que sempre é de Deus.
O batismo na Igreja nos confere direitos e deveres seja
qual for o ofício ou cargo que exercemos. Onde há tais relações não existem
poderes absolutos, já que o poder se defronta com o limite imposto pelos
direitos e liberdade dos outros, concedidos por Deus pela graça batismal.
A base laical da Igreja abre-nos novos horizontes para
pensar a relação entre os fiéis numa igualdade fundamental. E quando emergem as
diferenças por causa dos ministérios e carismas, estas são pensadas em função,
ao serviço da igualdade fundamental batismal. Infelizmente a parte canônica e
legislativa da Igreja ainda não acompanha esse modelo de Povo de Deus.
4.3. Relação entre
Igreja universal e particular
Para responder a mudança na relação entre Igreja universal
e particular, que no modelo hierárquico era de dependência, o Concílio Vaticano
II introduz a categoria "colegialidade". É uma conseqüência da base
laical da Igreja. Se o ser e agir na Igreja parte da igualdade fundamental do
batismo, segue-se que todos são responsáveis por tudo e isso se exprime na
colegialidade.
O Concílio a tratou no último nível da hierarquia da
Igreja: a colegialidade dos bispos com o papa, cabeça do colégio. Nesse nível
existem várias instituições que permitem sua concretização prática: as
conferências regionais e nacionais anteriormente existentes em muitos lugares e
a instituição do Sínodo dos Bispos, criada depois do concílio.
Para que o modelo Povo de Deus se realize, é necessário
que tal colegialidade afete os três centros da Igreja – Roma, diocese e
paróquia – entre si, encontrando formas
de participação. E dentro de cada centro as relações também devem fazer-se em
base à igualdade batismal e à colegialidade de responsabilidade. Em vez da
cabeça de qualquer menor centro eclesial decidir por ela, sentem-se
corresponsáveis por tais decisões os outros membros da comunidade. Todos são
Povo de Deus.
A construção desse modelo pede que a participação nasça no
interior das comunidades menores para ir subindo aos níveis mais altos de
poder. Tal modelo não contradiz o modelo anterior no seu elemento fundamental.
Pois os ministérios que se recebem no interior do Povo de Deus não são
conferidos pela vontade popular, mas pela graça de Deus, transmitida na
ordenação para os ministérios ministeriais.
A Igreja universal é a comunhão de todas as igrejas
particulares entre si e com a Igreja particular de Roma. Cada igreja particular
realiza a totalidade da Igreja católica. Mas ela não é pensável fora da
comunhão com as outras igrejas. A Igreja universal não pode existir em si
mesma, mas somente nas igrejas particulares. Ela é o sacramento universal da
salvação, continuando na história a presença universal salvífica de Jesus
Cristo. E o realiza na mediação das igrejas particulares. A Igreja universal é
a expressão da unidade do plano salvador universal de Deus que se concretiza no
tempo e espaço das igrejas particulares. A Igreja de Roma é sinal e tem um
serviço especial a esta universalidade, mas não é uma igreja universal e sim
particular: tem uma língua, um território, um bispo, pastorais próprias, etc.
4.4. Relações no
interior do Povo de Deus
Nesse modelo o leigo assume mais plenamente sua autonomia
e cidadania na condição de batizado. Não se contrapõe ao clero, porque todos partem
da mesma base comum. Reconhecem-se diferentes serviços no interior da Igreja. O
Espírito Santo está tanto presente no leigo com sua graça e despertando carismas quanto no clero no cumprimento de
seu ministério. Não pode haver contradição no interior do Espírito Santo. Toda
tensão vem da imperfeição de nossa compreensão e do pecado de nossa sede de
poder. O caminho será o reconhecimento da liberdade do Espírito, o diálogo
entre todos, a responsabilidade pela totalidade da Igreja.
4.5. Conclusão
Modelos se escolhem e se constroem. Depois do Concílio
Vaticano II já não tem sentido manter o modelo hierárquico, mas sim construir o
modelo Povo de Deus. Trabalho lento e difícil que não se faz sem tensões e até
conflitos. A confiança está depositada na força do Espírito e no espírito de
responsabilidade de fiéis e membros da hierarquia da Igreja. Só uma obra
conjunta, na força do Espírito Santo, é capaz de construir o modelo Povo de
Deus, cuja base última é laical-batismal e colegial-ministerial.
5. PERGUNTAS E TAREFAS
- Quais são os elementos essenciais que distinguem e que
unem os modelos Igreja Hierarquia e Igreja Povo de Deus?
- Quais os traços fundamentais teológicos que permitem a
superação do modelo de Igreja Hierarquia?
- Que
modelo de Igreja você vivencia
predominantemente na sua Igreja particular?
- Que práticas pastorais você antevê para encaminhar a sua
Igreja particular na direção do modelo Igreja Povo de Deus do Concílio Vaticano
II?
- Identifique diferentes modelos de Missão. Qual é o modelo
eclesiológico correspondente?
- Procure uma metáfora para o modelo de uma Igreja que
vive a sua unidade na diversidade do Espírito Santo.
6. REFERÊNCIAS
BIBLIOGRAFICAS
CONGAR, Yves. L´Église de St. Augustin à l´époque moderne.
Paris: Cerf, 1970.
RIGAL, J. Découvrir l´Église: initiation à
l´ecclésiologie. Paris: DDB, 2000.
LIBANIO, João Batista. Elaboração do conceito Igreja
particular. In: LIBANIO, J. B.; GOETH, V. et alii, Igreja Particular. VI Semana de Reflexão Teológica. São Paulo:
Loyola, 1974, p. 17-59.
LIBANIO, João Batista. Cenários
da Igreja. São Paulo, Loyola, 1999.
LIBANIO, João Batista. Lumen Gentium. Mina inesgotável. In: Vida Pastoral 45, n. 236
(2004), p. 3-8.