Quarto Núcleo
TEOLOGIA DA MISSÃO

José Comblin
1. RESUMO E OBJETIVO
Resumo. A teologia da missão constitui a verdadeira teologia fundamental, isto
é, a exposição dos fundamentos ou das bases do cristianismo e dos fundamentos
de toda a teologia. Ela fornece o quadro dentro do qual a teologia deve
evoluir, e oferece os princípios que orientam toda a reflexão teológica.
Durante séculos, a teologia fundamental foi identificada com o tratado Da Revelação. Ora, ao colocar a
revelação como conceito básico, o mais abrangente da teologia e o conceito
diretivo de todo o pensamento cristão, os teólogos e a instituição que se
reconheciam nos seus ensinamentos, achavam e ensinavam que o cristianismo era
essencialmente uma doutrina e que esta doutrina vinha de Deus. A teologia
cristã era a exposição das verdades reveladas por Deus. A teologia fundamental
consistia em estudar a maneira como Deus comunicava essas verdades aos seres
humanos. Hoje em dia sabemos que o
cristianismo é muito mais do que uma revelação e que o conceito de revelação é
o menos adequado para expressar de modo sintético o que é o cristianismo. O
cristianismo é a caminhada do reino de Deus, aqui e agora, a história da
relação de Deus com a humanidade, aqui e agora, o que abrange a história humana toda. A teologia não estuda uma
doutrina, mas um movimento, a humanidade em marcha dentro da caminhada do reino
de Deus. Por isso a teologia da missão é a verdadeira teologia fundamental.
Objetivo. O objetivo da missão é a
participação de todos, de cada pessoa e da humanidade tomada como corpo na caminhada
do reino de Deus. A missão não desemboca num puro pensamento, nem num puro ato
de fé numa doutrina revelada. O seu objetivo não é que as pessoas e os povos
reconheçam a verdade da revelação, mas que entrem num agir pessoal e coletivo
realizando pelo seu agir o crescimento do reino de Deus neste mundo. O reino de
Deus é um processo de libertação e a teologia da missão, como a teologia toda,
tem por finalidade a procura do lugar de cada um, de cada comunidade, de cada
povo ou de cada religião, enfim, da humanidade toda nesse processo. Pois cada
um e cada povo são chamados a agir de modo particular, específico, único dentro
do processo em que nada se repete, tudo avança e cada um é original. Não se
trata da submissão de todos de maneira igual à mesma doutrina. O tratado da
revelação era conveniente para uma Igreja imperial, impositiva, autoritária,
mas é totalmente inadequado para a idéia que a Igreja se faz de si mesma hoje
em dia.
2.
TEOLOGIA DA MISSÃO: CONCEITOS BÁSICOS
2.1. Formação da Teologia da
Missão
O passado
Até o século XVI , o conceito de missão aplicava-se
somente às missões divinas, á missão do Filho e à missão do
Espírito Santo. O conceito estava
reservado ao tratado da Ssma. Trindade. No século XVI, os jesuítas
usaram esse conceito para expressar a atividade de expansão do cristianismo no
mundo recém descoberto. Por extensão, o conceito foi aplicado também às
atividades de sacerdotes dedicados à pregação popular de conversão que se
fizeram dentro da cristandade, sobretudo sob o impulso de S. Vicente de Paulo,
fundador dos Padres da Missão (vulgo “lazaristas”): as “Santas Missões”. Este
conceito prevaleceu até 1950, mais ou menos. Durante todos esses séculos, a
missão era uma parte marginal da atividade da Igreja, uma parte orientada para
o mundo exterior, à cristandade. Nem a Igreja, nem a teologia se definiam pela
missão. Todos achavam normal que a Igreja e a teologia se definissem pela
cristandade e suas atividades. 90% dos recursos em pessoas e recursos materiais
estavam dedicados à manutenção da cristandade e, no melhor dos casos, 10% a
“missões”.
Até o século XX, a palavra missiologia era
inexistente e se achava que para os missioneiros a teologia era supérflua. Os
missionários eram pessoas audazes e capazes de enfrentar os perigos do mar, dos
rios, das matas, dos insetos, das cobras e das doenças tropicais. Karl Barth
foi, em 1952, o primeiro que se atreveu a mudar a perspectiva da teologia
fundamental: estabeleceu a continuidade entre a missão de Deus e a missão da
Igreja. A Igreja era vista como realizadora da missão de Deus e não somente
como receptora e divulgadora de uma doutrina sobre Deus e vinda de Deus. Desde
então, a missiologia entrou na teologia, embora pelas portas laterais. Ainda
não é reconhecida nos currículos oficiais que são muito conservadores, e
mantêm, como um fetiche, a estrutura dos séculos passados. De modo geral, a
teologia acadêmica e seminarística é muito lenta para evoluir. Ainda não
integrou a exegese bíblica, nem a história da Igreja, e não integrou a
missiologia dentro da sua estrutura.
Fatos novos
Fatos novos de extrema importância vieram abalar a
tranqüilidade acadêmica dos teólogos. Em primeiro lugar houve, no contexto da
Segunda Guerra Mundial, a tomada de consciência da “morte” da cristandade.
Evidentemente, ela ainda não tinha desaparecido, mas os observadores mais
lúcidos estavam conscientes de que o a cristandade estava atingida de uma
doença mortal. Com essa condição, a Igreja não podia continuar concentrando-se
na manutenção desta cristandade, mas devia olhar para o mundo exterior e
redescobrir que a sua vocação era evangelizar todos os povos e não manter
apenas os restos da cristandade. Desde então, 50 anos de história confirmaram
essa decadência da cristandade tradicional, inclusive o declínio da sua
importância numérica no conjunto da humanidade. Em 1941, o padre Alberto
Hurtado tinha publicado um livrinho com o título provocativo de : ?Es Chile
un país católico?
Um
segundo fato foi a descolonização. Durante séculos a expansão do cristianismo
no mundo se fez dentro da conquista dos outros continentes pelas potências
ocidentais. A evangelização do mundo foi praticado como uma conquista do mundo
pelas Igrejas. As missões foram simplesmente a expansão das Igrejas metropolitanas
e os povos convertidos permaneceram puramente passivos nas mãos de um clero
uniformizado pelo modelo romano. Com a descolonização, as estruturas de
cristandade perderam toda credibilidade nas antigas colônias. O mundo já não
podia ser tratado como uma colônia, nem os cristãos do mundo emancipado como
representantes dos antigos colonizadores. Foi preciso rever completamente o
conceito de “missões”. Durante quase todo esse tempo, a atualização da doutrina
da missão foi feita por representantes dos antigos missionários, ou das
congregações ditas missionárias. A “grande teologia” permanecia impassível.
Ainda hoje, essa é a situação em muitos países. No entanto, os fatos
mencionados obrigam e mudar radicalmente a estrutura da “grande teologia”: deve
estar na base da revisão dos tratados de Deus, de Jesus Cristo, do Espírito
Santo, da Igreja, da Graça, da escatologia, enfim, da totalidade da teologia
que foi ensinada nos últimos séculos.
2.2. Das missões divinas às missões humanas
As
missões divinas
O conceito
de envio ou missão é central no Novo Testamento. Foi sobretudo a literatura
joanina que o usou de modo mais enfático. Jesus ensina que foi enviado pelo Pai
e ensina que, depois da sua morte e ressurreição, o Pai e ele próprio enviam o
Espírito Santo. A noção de missão expressa as relações entre as Três Pessoas
divinas. A missão define todo o ser das Pessoas. Jesus é o enviado do Pai e o
Espírito Santo é o enviado do Pai e do Filho. Os teólogos medievais
estabeleceram um paralelo entre as “procissões” e as “missões” divinas. Assim
como o Filho procede do Pai, Ele é enviado pelo Pai, como se esse envio
correspondesse à sua natureza própria, ou seja, ao seu modo próprio de existir.
Ele é enviado, porque procede. O Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho
porque procede do Pai e do Filho. Convém à sua posição na divindade que Ele
seja enviado pelo Pai e pelo Filho.[1] O
conceito de missão diz algo mais do que o conceito de revelação. A revelação é
a manifestação de uma doutrina. A missão significa uma presença ativa e
permanente do Filho e do Espírito no meio deste mundo, para realizar nele uma
operação que é uma transformação. O Filho e o Espírito vieram para agir, ou
seja, para realizar, como diz Jesus, a obra do Pai.
A entrega da missão aos discípulos
A missão pela qual Jesus foi enviado pelo Pai, Jesus a
transmite aos seus discípulos. “Como o meu Pai me enviou, também eu vos envio”.
O que se comunica não é somente o fato de ser enviado, mas todo o conteúdo do
envio, a obra do Pai que é preciso realizar. O conjunto do Novo Testamento
mostra que Jesus delega toda a sua missão aos discípulos. Essa missão não é
algo além das outras prescrições. Não é um novo mandamento ao lado de outros,
não é outra obra como se houvesse outra ao lado. A missão é tudo, toda a vida
dos discípulos, já que Jesus exige deles a totalidade da sua vida, no tempo, no
espaço, na intensidade. Os discípulos são aqueles que são enviados ao mundo
como presença ativa de Jesus. Por meio deles Jesus realiza a sua missão. Não
quer dizer que Jesus abandona a sua missão e descansa, mas que doravante a sua
missão Ele a realiza usando as pessoas dos seus discípulos. Todas as atividades
dos cristãos são ou deveriam ser parte da missão de Jesus. Esta delegação da missão
dirige-se ao povo inteiro, pois os discípulos são o núcleo inicial do povo. A
missão dirige-se ao povo como coletividade e a cada um dos membros desse povo.
Não há uma ação única do povo da qual todas as ações particulares seriam uma
peça. Cada ação individual tem a sua autonomia e o seu valor próprio. Mas,
todas juntas estão inseridas numa obra comum que é a missão entregue ao povo
como totalidade. Não é uma totalidade de tipo militar ou imperial em que todos
copiam o mesmo esquema de ação e obedecem a um mesmo plano, mas uma totalidade
unida pelo sopro do mesmo Espírito com a maior diversidade de aplicações
particulares. Desde o Concílio Vaticano II, o povo de Deus começou a tomar
consciência de que a Igreja toda é missionária e que ela não tem outra razão de
ser que não seja a missão, isto é, o envio a todos os povos. O documento Evangelii
nuntiandi enunciou esse tema com muita força e desde então todos os Papas e
todos os bispos repetem que a razão de ser da Igreja é a evangelização do
mundo. Na prática, tudo é um pouco diferente. Depois de proclamar que a sua
razão de ser é a missão, continuam administrando as mesmas coisas de sempre
dentro do público tradicional. De qualquer maneira, existe a consciência clara
de que a Igreja se define pela missão.[2]
2. 3. O
que é a missão?
O envio aos pobres
Jesus foi enviado aos pobres. Os Sinóticos mostram-no
vivendo no meio do povo pobre de Galiléia, em disputa permanente com as
autoridades. O evangelho de Lucas está centrado na oposição ricos-pobres e o
Magníficat representa de certo modo a sua síntese. Também as bem-aventuranças
são muito claras. S. Paulo é claríssimo na sua opção. Para ele, a missão dirige-se ao pobres a tal ponto que
quis viver do seu trabalho manual como um pobre. Em João, a vida de Jesus foi
um imenso debate entre Jesus e as autoridades. Os discípulos são os pequenos e
Jesus defende os pequenos contra a dominação dos grandes.
Esta doutrina tão evidente foi esquecida durante quase
sete séculos, mas ela reapareceu nas crises sociais do século XIX. É verdade
que os apóstolos, sacerdotes ou leigos que se lembraram da missão aos pobres
não foram bem tratados pela instituição da Igreja, nem pela burguesia católica,
cuja influência era tão forte na hierarquia. Mas, eles redescobriram o núcleo central
do evangelho.
O Concílio Vaticano II não se atreveu a declarar que o evangelho era a boa nova para os pobres,
apesar das exortações de prelados como o cardeal Lercaro. Porém, na América
Latina, houve o estouro de Medellín, quando as opções pelos pobres feitas por
verdadeiros profetas, bispos, sacerdotes, leigos, mulheres e homens foram
consagradas pela Conferência dos bispos da América Latina. Depois disso houve
Puebla com as suas afirmações contundentes, e muitos documentos do episcopado
latino-americano. Houve sobretudo uma geração de missionários que foram para os
pobres entregar a boa notícia que lhes era destinada. Desde então, a
consciência de que os pobres são os destinatários da missão permanece mais nos
textos do que na realidade, mais nas palavras do que nas ações.
Por
que a missão é envio aos pobres?
Porque
o objeto da missão é para eles uma mensagem de alegria e que não o é para
todos. O objeto da missão é o anúncio da chegada do reino de Deus. O reino de
Deus é a libertação dos pobres: a realização das bem-aventuranças, a realização
das promessas proclamadas por Maria. Um mundo novo está começando. Já começou
com a chegada de Jesus e continuará com a missão dos discípulos. É o advento da
vida. Como diz Jesus às autoridades de Israel: eles só querem a morte, mas Jesus quer a vida
de todos aqueles que as autoridades querem matar. O evangelho de João expressa
essa libertação com imagens muito fortes. O que está acontecendo, o que é a
missão de Jesus é o combate final entre Deus e Satanás. Satanás quer a morte e
seduz por meio de mentiras. Ele atua por meio das autoridades de Israel, os
sacerdotes, os doutores, os poderosos, os fariseus, todos aqueles que exigiram
que Pilatos condenasse Jesus à morte. Todos eles querem a morte, mas Jesus vem
para dar vida a todas essas vítimas. Por um lado estão os poderosos e por outro
lado estão as vítimas dos poderosos.
Esse
reino de Deus é boa nova para todos aqueles que ainda esperavam nas promessas
dos profetas. Pois, a libertação anunciada por Jesus é obra de justiça,
recuperação da dignidade e dos direitos dos pobres, reconquista da auto-estima
depois de tantas humilhações.
A
missão da Igreja é anunciar, proclamar esse evangelho, mas também trabalhar
para esse advento. Pois, Jesus não veio anunciar um milagre, mas a chegada de
uma era nova em que os próprios pobres, animados pelo Espírito de Deus,
poderiam recuperar a vida, recuperar a liberdade, a dignidade humana. O reino
de Deus não vem por milagre, mas pela ação do próprio povo pobre.A missão de Jesus
é essa ação do povo pobre que se liberta. A missão do povo de Deus é entrar na caminhada de libertação
conduzida pela força do Espírito Santo. Por todas essas razões a missão se
dirige para os pobres.
O
amor
O agir do
povo dos seus discípulos pode ser definido pela palavra pela qual Jesus
condensa a sua mensagem no quarto evangelho: o amor. Trata-se, com certeza, de
amar a Deus. Porém, amar a Deus é o próprio de todas as religiões. O que Jesus
vem anunciar é que o amor a Deus é o amor ao próximo. Não há outra maneira de
amar verdadeiramente a Deus que não seja o amor ao outro.O reino de Deus é a
atuação do amor. O amor tem por objeto o outro: o outro é o diferente, o
oprimido, o rejeitado, o excluído, o pobre. Amar aquele ou aquela que não
pode retribuir, aquele ou aquela cujo
nome nunca aparecerá nos meios de comunicação, amar gratuitamente. Nisto Jesus
é muito claro: não é a pessoa que é mais religiosa, que ama realmente a Deus. A
denúncia feita por Jesus dirige-se contra os mais religiosos do seu povo, os
fariseus, os sacerdotes, os doutores: todos eles se acham amantes de Deus. E o
povo achava que os que amavam a Deus eram eles. Jesus veio tirar essa máscara.
Há uma só maneira de amar a Deus que é o amor ao outro.
Amar é
dar vida, ou, pelo menos ajudar a ter mais vida, já que somente Deus dá a
vida.. Amar é fazer com que o outro que não era, seja, que aquele que estava
rejeitado seja aceito, aquele que estava excluído seja incluído.
Jesus
acha que somente os pobres vão poder amar? Exatamente.”eu te louvo, o Pai,
Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e
as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). O Pai revelou o quê? Revelou que o
reino de Deus é o amor, não o sentimento de amor, mas o amor prático que faz
viver. Os ricos não se entregam e não dão nada ou pouco: ficam nas promessas.
As coisas não mudaram desde os tempos de Jesus. Os ricos dão somente para serem
vistos. Dão na medida dos seus interesses, mas a sua generosidade acaba desde o
momento em que os seus interesses estão em jogo. Basta ver como os ricos se
organizam para defender os seus privilégios, desde o momento em que começam a
temer que os pobres adquiram mais força. Desde o momento em que a sua riqueza
está em questão, eles defendem esse dinheiro com unhas e dentes, ferozmente.
Quem quer a justiça, é taxado de terrorista, comunista, ladrão, subversivo,
imoral. Mesmo num caso tão evidente como a reforma agrária, os proprietários
defendem as suas terras, inclusive matando.
Não é
que Jesus queira excluir os ricos por princípio. Pelo contrário, ele propõe o
caminho ao jovem rico. Os ricos devem colocar as suas riquezas a serviço da
vida dos oprimidos e excluídos. Pois as suas riquezas lhes foram dadas para que
sirvam para a promoção de todos. Se não forem usados dessa forma, tornam-se
injustos e ilegítimos.Esse é o agir do reino de Deus. Foi o que Jesus fez, e o
que pediu aos discípulos.
Há uma
forma de amor que é comum a todos. Como dizia S. Tomás: mesmo os criminosos têm
amigos e os ladrões sabem agir por amizade. E até os nazistas que exterminavam
os judeus, protegiam uma família de judeus, o que lhes dava boa consciência. Os
ricos têm “os seus pobres”, oferecem as suas “esmolas” que lhes permitem ter
boa consciência. Mas sempre com a condição de não tocar nos seus bens. Por isso
Jesus sabe que somente o reino de Deus é feito para os pobres e pelos pobres.
O reino
de Deus é uma nova sociedade em que as relações entre os seres humanos sejam de
serviço. Quem vai criar tal sociedade ? Com certeza não serão os privilegiados
da sociedade atual.
O amor
dirige-se a pessoas individuais. Porém, essas pessoas formam grupos,
sociedades: amar é também servir e dar vida às comunidades em todos os níveis,
desde a comunidade de família local até a humanidade total. Há o amor pessoal,
que se dirige a pessoas, há o amor à família, à comunidade, à classe, ao povo,
à raça, há o amor “político” que consiste em estabelecer uma sociedade mais
justa e fraterna.
O amor
é dom de Deus, e esse dom é oferecido a todos. Nem todos o aceitam porque
muitos têm medo. Têm medo de perder a sua vida dando vida a outros. Mas como
diz Jesus quem quer ganhar a vida, vai perder a vida e quem perder a vida para
dar vida a outros, ganhará a própria vida.
A
esperança
O
suporte do amor é a esperança. Se alguém entra no caminho de Jesus, porque é o
caminho do amor, é porque tem uma imensa esperança. Tem a esperança de que o
mundo atual pode mudar. Tem a esperança de que Deus o está mudando. Tem a
esperança de que a ação dos pobres pode mudar a realidade de cada dia, apesar
da incredulidade e do desespero das multidões. Espera contra toda esperança.
Espera porque Deus é o Deus da esperança e se a esperança fosse ilusão, Deus
não existiria. Poderia existir outro Deus, mas não o Deus da Bíblia porque este
é esperança, desde Abraão, passando por Moisés e todos os profetas que falaram
dele. A esperança é paciente. Aprende cada dia que as mudanças são lentas,
parciais, localizadas. O reino de Deus começa em realizações pequenas, pequenas
comunidades, pequenas transformações. Começa já pela conversão de um, e depois
deste, de um número maior. Abraão era único, mas dele nasceu uma progenitura
inumerável. Os pobres fazem a experiência dessas pequenas transformações locais
que lhes permitem viver com alegria num mundo de perversidades e de opressão.
Estas pequenas realizações confirmam as
promessas divinas e mostram que uma mudança está em andamento. Podem entrar
numa vida dedicada ao amor ao próximo porque esperam que com isso irão transformar
o mundo e acelerar a vinda do reino de Deus. A missão tem por primeiro objetivo
despertar a esperança de um mundo diferente que é o reino de Deus na terra.
A fé
O
missionário chama uma pessoa, uma comunidade, um povo para entrar na caminhada
do povo de Deus. Chama pessoas concretas, reais. Chama por um contato direto,
imediato. Não permite que a pessoa se escape indiferente. Dirige um apelo
urgente, sério, forte.A pessoa interpelada sente-se atraída ou não. Pode
resistir durante muito tempo. Pode resistir até o fim da vida. A parábola das
sementes explica isso. Porém, muitos escutam e se sentem interpelados
pessoalmente. Descobrem que o apelo do missionário é um apelo de Deus e que
esse apelo constitui um convite para mudar, entrar, tomar um novo rumo.
A
pessoa chamada precisa pensar que é capaz de entrar nesse caminho, que a força
de Deus não lhe faltará. Precisa crer que o Espírito Santo está nela para viver
no caminho de Jesus. Essa confiança na presença e na força do Espírito para
caminhar no caminho de Jesus, essa confiança radical em sua própria capacidade,
não pela própria força, mas pela força do Espírito, é o que se chama a fé. O
missionário não pode dar a fé a ninguém, porque ela vem do Espírito e da
aceitação do Espírito que é livre e soberana. O missionário não pode impor a fé
e, se a impusesse, não seria a fé, mas uma falsificação da fé. A base da vida
de amor é essa fé verdadeira dada pelo Espírito.
A
conversão
O
anúncio da chegada do reino de Deus, que é o mundo novo, é acompanhado por um
chamado à conversão. ”Convertei-vos” (Mt 4,17). A entrada no reino de Deus
exige uma mudança total, uma mudança de rumo, de convicção e de ação. É uma
reviravolta da existência inteira que Jesus pede. O conjunto do Novo Testamento
expressa o conteúdo dessa conversão.Trata-se de uma conversão pessoal, e de uma
conversão social em todos os níveis da vida social. Pois, a pessoa humana não
vive sozinha. Se ela muda, muda também todo o seu relacionamento e muda a
sociedade. Além disso, o reino de Deus é amor e, por conseguinte, formação de
comunidade. A conversão é também conversão da solidão, do egoísmo para a vida
comunitária, uma vida inserida em inúmeros laços sociais. A conversão inclui
uma mudança das estruturas do mundo. A tradição latino-americana nascida de
Medellín explicitou muito claramente essa conversão da sociedade toda. Na
América Latina, a sociedade é fundamentalmente injusta, como confessou um dia
um presidente muito conservador; a corrupção social é profunda e a Igreja
permaneceu indiferente a ela durante séculos. Daí a urgência da consideração da
conversão social que é mudança radical de todas as estruturas
A
conversão é passagem da morte para a vida. Jesus acusa as autoridades de Israel
de querer a morte (Jô 8,40s.44). Jesus quer a vida e veio para dar vida. O
mundo atual quer a morte de todos aqueles que incomodam. Não o fazem tão
abertamente como o Holocausto, mas usam métodos mais sofisticados: eliminam da
vida social.todos aqueles que não lhes servem mais.[3]
A
conversão é passagem do pecado para a justiça, isto é, a vida boa e correta. O
que é pecado, consta muito claramente das controvérsias de Jesus com as
autoridades do seu povo (Mt 23; Jo 7-8), e dos comentários de S. Paulo,
sobretudo, na carta aos Romanos. O pecado é tudo o que destrói a vida. Para às
autoridades de Israel, pecado é infringir a lei. Para Jesus, o problema não é a
lei. O problema é a vida. Deus quer vida e quem destrói a vida destrói a obra
de Deus. Quem entra no caminho do reino de Deus rompe com tudo o que destrói a
vida; rompe com o seu egoísmo pessoal, com o egoísmo coletivo, o egoísmo da
dominação que configura a sociedade. Entra numa luta contra o pecado que está
nele ou nela, e contra o pecado que está na sociedade humana em todos os seus
níveis.
A
conversão é passagem da lei para a liberdade. Para as autoridades de Israel a
referência suprema é a lei. Porém, nesta lei eles colocam todos os seus
interesses e privilégios. A lei serve para oprimir os pobres e para defender a
corrupção da situação que os privilegia. Ainda hoje é assim: a lei serve para
que os ricos possam defender os seus privilégios, as suas propriedades contra
os pobres, para não ter que compartilhar. A lei castiga os pobres que querem
justiça e dá segurança aos ricos. Para Jesus, somente há uma lei: alei que
manda amar o próximo, querer a vida do próximo. Essa é aquilo que Jesus chama a
perfeição da lei, ou seja, a lei convertida e restituída ao seu sentido
primitivo. Essa é a lei de liberdade.
A
vocação para a liberdade
O
evangelho é o anúncio da liberdade, e este anúncio é também apelo. “Vocês foram
chamados à liberdade”, escreve S. Paulo aos Gálatas (Gl 5,13). Paulo refere-se
em primeiro lugar à lei judaica. Os discípulos de Cristo são chamados a se
libertarem da lei judaica. No entanto, essa mesma libertação está ligada à
libertação do pecado e da morte. A liberdade da morte é vitória sobre tudo
aquilo que leva para a morte. A lei judaica leva para a morte e o pecado
também. A liberdade é poder fazer vida, agir para dar vida; é a capacidade de
poder dar vida.
A
liberdade emancipa de tudo o que impede o amor. Liberta dos laços que impedem
dentro da pessoa: medo de dar, medo do outro, medo de se comprometer, medo de
perder dando aos outros, medo dos outros, das estruturas da cultura, medo inculcado
pela religião. O ser humano sente uma multidão de forças que o impedem ou
limitam a sua capacidade de amar. Jesus chama para ser livre de tudo aquilo. A
liberdade é também a capacidade, a força, a energia, a perseverança para amar
apesar de todas as resistências exteriores, das resistências de outras pessoas
ou das estruturas sociais. Jesus chama a ser livre de todas as ataduras sociais
para poder agir a partir de uma consciência lúcida, sem necessidade de mentir
aos outros ou de se mentir a si próprio. Jesus dá pelo Espírito Santo essa
capacidade, essa força, dá a capacidade de ser livre. A liberdade completa não
se alcança de uma vez. Ela é uma conquista, uma caminhada que coincide com a
caminhada do reino de Deus. Deus reina quando a humanidade está livre.
2.4.
Memória e culto
A memória de Jesus
A
herança de Jesus não é uma teologia ou uma filosofia. Não é simplesmente uma
doutrina religiosa, uma sabedoria de vida ou uma nova lei, isto é, um novo
sistema religioso. A herança é a memória da sua pessoa e da sua vida,
acompanhando os seus discípulos. Jesus prometeu aos discípulos que permaneceria
sempre com eles. Por isso, os discípulos se lembram dele. Jesus está unido à
sua Igreja que é o seu povo, e a cada um dos seus membros. Os discípulos não podem
esquecer-se dessa presença. Ora, o Jesus que nos acompanha é aquele mesmo que
se mostrou na terra. Não é um Jesus imaginado pela sensibilidade religiosa dos
seus fiéis. Jesus é para sempre aquele que esteve na Galiléia e o Jesus da
Galiléia é aquele mesmo que ressuscitou e vive conosco. Ele não mudou. Ele
continua sendo o Messias dos pobres, montado num jumentinho, o filho do
carpinteiro de Nazaré. É ele mesmo que pronunciou as bem-aventuranças. A
ressurreição não o mudou, não fez dele outra pessoa. As sucessivas etapas
culturais deram-lhe diversos aspetos que todos são produtos da imaginação e da
sensibilidade humana, mas são traições do verdadeiro Jesus. Quando, depois de
Constantino, representaram Jesus como imperador, era uma traição, porque nunca
quis ser semelhante a um imperador, e nunca quis agir como um imperador. A
imagem de Jesus não é o imperador, não é o bispo ou o padre: é o pobre. Assim
disse ele mesmo.
Jesus
pediu que se lembrassem dele: foi na última ceia quando fez da ceia pascal de
uma páscoa nova e verdadeira o sinal pelo qual ele queria ser lembrado. Os
discípulos entenderam bem essa vontade de Jesus quando repetiram as palavras e
os atos dele, e, quando as últimas testemunhas já estavam desaparecendo,
puseram por escrito as memórias deles. Os escritos do Novo Testamento procedem,
em última instância, dos discípulos que acompanharam Jesus e tiveram
conhecimento direto dele. Mais tarde, o conceito de “tradição” expressou essa
vontade de guardar fielmente a memória de Jesus. A tradição é tudo aquilo que
nos vem de Jesus.
A
memória de Jesus assume diversas formas concretas. Há a memória individual na
consciência de cada um, iluminada pelas escrituras e pela tradição. Jesus não
quis ser objeto de culto, mas quis ser lembrado. A oração cristã consiste em se
lembrar. Trata-se de se lembrar da presença atual de Jesus e de se lembrar do
seu rosto e do seu jeito de ser tal como os conhecemos pelos evangelhos e pelos
primeiros escritos. Já que as palavras de Jesus eram um apelo e também os seus
atos eram um apelo para todos os tempos, pois tinham alcance universal, a
memória de Jesus não é puramente intelectual, mas ela é abertura,
disponibilidade para escutar e aceitar, como missão própria, tudo aquilo que
Jesus nos lembra. A memória pretende alimentar a ação.
A
memória de Jesus é também comunitária. Desde as origens, os discípulos
reuniram-se para fazer memória. As reuniões continham as duas partes da
memória: a leitura das escrituras e a celebração da ceia. São os dois sinais da
memória de Jesus. No início não há nisso nenhum culto. É a raiz da liturgia
cristã que não é cultual na sua essência, mas memorial.
A
missão consiste também em manter e cultivar a memória de Jesus porque a
conversão é permanente e contínua, e também o amor na caminhada do reino
precisa ser renovado e alimentado. A memória de Jesus prolonga no tempo e na
diversidade das condições o apelo que foi aceito no início.
O culto de Jesus
No
decorrer dos 20 séculos de história do cristianismo, houve um extraordinário desenvolvimento
do culto de Jesus. Jesus foi e ainda é tratado como objeto de culto.
Observadores superficiais poderiam ter a impressão de que o cristianismo é o
culto de Jesus Cristo. De fato, se se consideram as atividades mais visíveis da
Igreja católica, e também as expressões da religião individual, temos a
impressão de que o culto oferecido a Jesus, complementado pelo culto à Maria e aos Santos, constitui a
verdadeira essência do cristianismo. Desta maneira, o cristianismo aparece como
uma religião, paralela a outras religiões que veneram outras entidades com um
culto semelhante.
Jesus
opôs-se sempre a qualquer forma de culto a si próprio. Quis ser seguido e não
adorado. Em lugar do culto quis lavar os pés dos seus discípulos.No dia da
transfiguração não quis que os três se dispusessem a organizar um culto aos
três entes celestiais. Não é aquele que diz: “Senhor! Senhor!”... Nisto Jesus
ficou na tradição dos profetas que protestaram contra o culto organizado pelo
clero judaico. Deus não quer o culto, mas quer justiça e misericórdia. Depois
de ressuscitado, Jesus não quer que Maria Madalena lhe faça um ato de culto.
O culto
a Jesus procedeu da fé trinitária. Uma vez identificado ao Filho de Deus, da
mesma natureza do Pai, Jesus recebeu as mesmas honras e foi associado ao Pai e
ao Espírito Santo nas orações litúrgicas. Jesus conversava com o Pai. Os
discípulos também foram convidados para conversar, já que são filhos adotivos.
Mas, Jesus não promoveu nenhum culto ao Pai, nem aceitou o culto judaico.
O culto
de Jesus desenvolveu-se sobretudo depois da integração do cristianismo no
Império Romano. Ele tomou várias orientações. Em primeiro lugar, houve a
transformação de Jesus em imperador, ou rei. Projetaram nele os atributos dos
imperadores e dos reis e organizaram um culto de homenagem, inspirado nas
homenagens feitas aos soberanos dos impérios e dos reinos daquela época. O
clero transformou-se na corte do rei e dedicou a maior parte do tempo às
homenagens ou atos de culto. O culto de Jesus foi obrigatório nos exércitos
cristãos e na administração imperial. Visto desde o ponto de vista das
autoridades da cristandade, o culto de Jesus transformou-se numa atividade
política de primeira grandeza. Até o fim das monarquias católicas, a
assistência do rei e da corte à missa diária era um ato político fundamental,
porque era uma homenagem do soberano a Jesus, de quem ele recebia a sua
legitimidade. Também essa homenagem ensinava aos súditos do rei o dever de
prestar uma homenagem semelhante ao seu soberano. Os habitantes da cristandade
foram educados para prestar homenagem a Jesus por atos de culto: esses atos
eram obrigatórios porque, como soberano, Jesus tinha direito a eles e podia
exigir esses atos da parte dos seus súditos. Entrou na cristandade o conceito
de obrigação do culto e do culto concebido como submissão a uma obrigação.
Houve obrigação da assistência à missa nos domingos, de receber a comunhão e de
confessar os pecados na páscoa, sem mencionar as obrigações referidas ao jejum
e à abstinência de
carne, atos cultuais também.
Uma
segunda orientação do culto teve a sua inspiração nas religiões populares do
mundo mediterrâneo e, depois disso, dos povos conquistados pela cristandade.
Nessas religiões populares, o culto
consistia em pedir saúde, bens materiais, paz, satisfação das
necessidades básicas, ou seja, a solução dos problemas da vida diária do povo.
Jesus, prolongado por Maria e os Santos, foi o Santo cristão que substituiu as
divindades anteriores e que resolveu os mesmos problemas da vida, mas sobretudo
o problema da saúde.Houve uma exuberante explosão do culto de pedidos que se
mantém até hoje, sobretudo, nas classes populares que ainda não podem
aproveitar as soluções que oferecem as ciências e as técnicas modernas. Jesus é
aquele que intervem, milagrosamente. Jesus é em primeiro lugar milagreiro. Hoje
em dia estamos assistindo a uma nova explosão dessa forma de culto nas
expressões neo-pentecostais tanto no mundo protestante como no mundo católico.
O marketing religioso incentiva ativamente essa forma de culto.
Uma
terceira orientação do culto de Jesus veio da sua introdução no programa das
festas. Todos os povos celebram festas e, de modo geral, as festas estão
associadas a expressões religiosas. As festas não são puramente atos
religiosos, mas elas estão associadas à religião até há pouco tempo. Ora, na
cristandade apareceram muitas festas de Jesus, acompanhadas pelas festas de
Maria e dos Santos. Jesus tomou o lugar das antigas divindades na celebração
das festas. O exemplo típico é a festa de Natal. Aliás, foi o programa
enunciado pelo Papa Gregório Io, na famosa carta aos missionários enviados a
Inglaterra. Jesus torna-se a figura ao redor da qual se celebra a festa. Isto
nos afasta cada vez mais do Jesus do Novo Testamento. Claro está que o clero procurou
purificar de toda infiltração pagã as celebrações das festas. Colocou no centro
os atos sacramentais que impôs. No entanto, os povos nunca deram essa
importância aos atos de liturgia oficial e fizeram a festa à sua maneira.
Aceitaram a disciplina imposta pelo clero, mas sempre procuraram brechas para
expressar o seu próprio sentido. Eles tinham o seu Jesus e cada paróquia tinha
o seu. Houve muitas variedades que podiam dar lugar a rivalidades entre
paróquias.
Por fim
devemos lembrar o culto místico a Jesus. Este culto teve as suas expressões
mais profundas nas expressões religiosas de relacionamento amoroso entre Jesus
e o místico ou a mística. Este culto místico desenvolveu-se de modo espetacular
na idade média e se estendeu mais ainda desde então. Não é aqui o lugar para
interpretar esses fenômenos. Mas é importa salientar que dessas experiências
místicas de algumas pessoas privilegiadas nasceram devoções populares que
tiveram e ainda têm uma imensa extensão. Basta citar a devoção ao Sagrado Coração
de Jesus, a devoção ao Santíssimo Sacramento ou as devoções a Maria.
Considerando
as atividades da Igreja, podemos constatar que em grande parte a missão
consistiu ou consiste na propaganda do culto de Jesus nas suas diversas formas.
Isto não surpreende porque o culto tem imensa importância nas culturas humanas,
mas não deixa de desconcertar um pouco, porque esse culto é tão distante do
Novo Testamento.
Culto e reino de Deus
Existe
uma diferença radical entre o culto ou a religião e a mensagem de Jesus. O
culto e a religião pertencem à natureza humana. São realidades comuns a todos
os seres humanos ainda que possam revestir uma incrível variedade de formas. O
ser humano é religioso de nascença. Com certeza o culto responde a uma necessidade do ser humano. Forma uma parte
importante da vida, ajuda a suportar as tristezas e organiza as alegrias da
vida. Não se pode negar que haja pessoas e grupos de pessoas insensíveis ao
culto, insensíveis à religião. Constituem uma minoria. Até agora é uma minoria
exclusiva do mundo ocidental, mais ainda, do mundo europeu. Quase sempre o
culto ocupa uma parte muito importante nas culturas. A maior parte dos restos
das antigas culturas consta de objetos de culto (templos, estátuas, imagens, altares,etc.).
Apesar da secularização, não parece que o culto esteja condenado a desaparecer.
Em toda América Latina como nos Estados Unidos ele conhece uma nova expansão
graças ao pentecostalismo.
A
mensagem do reino de Deus e a caminhada`que dela procede, não pertencem à
natureza humana. Não é algo inato no ser humano, mas uma realidade que é
preciso despertar. É algo novo apresentado à humanidade por mensageiros
enviados por Jesus. O seu conteúdo não é religioso, porque Jesus não veio nem
fundar uma religião, nem instituir um culto, mas anunciar a idade do amor, a
partir dos pobres e excluídos deste mundo. Jesus veio promover uma
transformação radical deste mundo em todos os seus aspetos, mas nunca
considerou que isso se fizesse por meio de atos cultuais ou religiosos. O que
ele promove, são atos da vida real que mudam realmente e não simbolicamente as
coisas. Não foi homem de símbolos, mas de
realidades concretas e materiais. O seu mundo não são os símbolos, mas
os atos de amor efetivo.
A
relação entre reino de Deus e culto ou religião foi expressada com muita
clareza e de modo contundente por S. Paulo na carta aos Coríntios : “Ainda que
eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse o amor,
seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine. Ainda que eu tivesse
o dom de profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência,
ainda que tivesse toda a fé a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o
amor, eu nada seria. Ainda que eu distribuísse todos os bens aos famintos,
ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, isso nada me
adiantaria” (1Cor 13,1-3). A razão é que todos esses atos religiosos procedem
do inato, do espontâneo e não atingem a realidade última que é o amor, que
somente se pode reconstituir mediante o dom de Deus. Todos esses atos
religiosos podem ser atos de egoísmo, orgulho, afirmação de superioridade.
Jesus traz o dom do amor e sem ele, todo o resto é inútil.Todo o culto a Jesus
é inútil se não se tem amor.
Seria
possível viver todas as devoções a Jesus sem amor ? Evidentemente. A
experiência de cada dia mostra que as pessoas mais devotas não são
necessariamente aquelas que mais praticam o amor ao próximo.
Sucede
que o apelo de Jesus chamando para o reino de Deus se dirige a seres humanos
concretos que são seres religiosos ansiosos por religião, que não podem viver
sem religião. Aliás, todos têm a sua religião e os primeiros discípulos estavam
totalmente impregnados da religião judaica da qual foram se desprendendo pouco
a pouco, mas nunca totalmente. S. Paulo foi a exceção que por isso mesmo
mostrou o caminho. Quando se desprenderam da religião judaica, entraram nas
religiões dos outros povos do Império Romano. Então nasce uma simbiose, uma
convivência com influências recíprocas entre a caminhada do povo de Deus e uma
vida religiosa. O cristianismo age sobre a religião com mais ou menos
intensidade. Há povos cuja religião anterior foi pouco modificada pela
cristianização. Foi o que aconteceu na América com muitos povos indígenas e
muitos escravos importados de África. Mas, também a transformação pode ser
profunda de tal modo que a vida religiosa, feita de símbolos, alimenta e
fortalece realmente a vida de fé, de esperança e de amor. O método preconizado
por Gregório Io somente podia dar lugar a um cristianismo totalmente
superficial; foi o que aconteceu em muitas campanhas de evangelização. Em
muitos casos, a evangelização consistia simplesmente numa propaganda por um
culto e esse culto ocupa o lugar do culto pagão tradicional. O que acontece com
o pentecostalismo pode responder em grande parte a esse esquema. São expressões
naturais típicas da cultura contemporânea que usam Jesus e a sua mensagem como
símbolo, mas o culto consiste em expressões religiosas espontâneas, sem fé,
esperança ou amor no sentido cristão. Podem repetir sem cessar a palavra amor,
mas não lhe dão o sentido que Jesus lhe dava.
O que
encontramos na nossa experiência eclesial de cada dia é uma associação entre
uma religião e a mensagem de Jesus em que cada elemento ocupa uma proporção
variável. Não se pode viver sem religião, mas muitos vivem sem o evangelho
ainda que sejam religiosos. Esta é a situação em que se acha a missão. A missão
precisa ser bem clara, bem distinta da religião para não manter os ouvintes na
ignorância do verdadeiro Jesus. A missão não pode ser propaganda religiosa,
embora essa propaganda seja muito mais fácil e tenha muito mais êxito do que o
anúncio do evangelho. A propaganda religiosa é o caminho largo, agradável,
exitoso. A pregação do evangelho é o caminho estreito. Pois o anúncio do
evangelho obriga os cristãos a uma reconversão permanente da sua vida para que não esteja prisioneira de
uma religião. As pessoas que usam símbolos religiosos cristãos acham, com muita
ingenuidade, que são discípulos de Jesus, mas os verdadeiros discípulos se
reconhecem na prática do amor
Missão e administração
Inúmeras
vezes e de inúmeras maneiras na história, a Igreja Católica quis fazer da
missão e de todo o sistema religioso um só conjunto, como se tudo isso fosse o
cristianismo. Quis todo o sistema num conjunto cada vez mais elaborado de
dogmas, ritos e prescrições jurídicas. Dessa maneira, ela precisou de uma
administração muito desenvolvida. Cresceu e ainda cresce a administração
central em Roma. As dioceses e as paróquias são unidades administrativas. O
clero é, antes de mais nada, um administrador das paróquias ou das dioceses. O
próprio Concílio Vaticano II ainda define o papel dos bispos como
administradores do sistema católico, em mencionar a missão. O clero é
encarregado da administração sem referência à missão. Ultimamente, os
documentos oficiais atribuem aos bispos e aos padres uma missão evangelizadora.
Mas, olhando de perto se constata que o que se chama de evangelização não deixa
de ser uma administração da doutrina, dos sacramentos, e do direito canônico.
A
administração trata de coisas. Ela trata as pessoas como receptores de coisas:
receptores da doutrina, dos sacramentos, das normas jurídicas. A administração
tem por preocupação a continuidade do sistema. Ela é sempre conservadora.É
difícil achar uma administração que queira ou mesmo aceite transformações. Por
isso, as Igrejas do Ocidente tornaram-se extremamente conservadoras. O direito
canônico é o código da administração. Ainda há muitos católicos que acham que a
missão consiste em aplicar o direito canônico.
A
missão não é a transmissão de um sistema religioso, nem a integração das
pessoas num sistema religioso.A missão tem por objetivo comunicar a todos a
mensagem de Jesus, o anúncio de uma libertação, a maior alegria do mundo. A
missão é sempre alegre, mas a administração é, muitas vezes, triste. O que
dizia Nietzsche sobre alegria e tristeza se referia ao cristianismo que ele
conhecia e era triste porque era uma administração.
A
missão é comunicação com pessoas. Consiste em trazer alegria, confiança,
esperança às pessoas. Parte da situação em que cada pessoa está, e, por isso,
apresenta a mensagem de Jesus na sua realidade, a mensagem das bem-aventuranças
no linguajar que cada`pessoa entende. A missão é vocação para a liberdade. Para
a administração, a evangelização sempre é vista como conquista: ela quer
resultados numéricos: mais batismos, mais comunhões, mais livros vendidos, mais
procissões, mais pessoas nas missas e assim por diante.A missão não calcula,
não faz a conta, porque se interessa por cada um e procura a libertação de cada
um: acompanha a caminhada de cada um. Não é conquista, mas dom de vida.
2.5. As
duas vias da missão
A
via do poder
Jesus enviou
os discípulos para a missão sem nenhum recurso, sem reserva de nada, sem
dinheiro, sem força nem militar, nem política, nem cultural, nem religiosa.
Apesar disso, ouvi um dia um núncio apostólico afirmar que sem aliança com o
poder político, a Igreja não pode evangelizar. Outros acham que é o contrário,
que a Igreja não pode evangelizar quando está associada ao poder político.
Essas são as duas vias representadas simbolicamente. Esse conflito entre as
duas vias está dividindo as Igrejas na América Latina. Medellín simboliza uma
parte da Igreja que pretende evangelizar sem poder, mas muitos acham que ela
precisa aumentar cada vez mais o seu poder para evangelizar e esta tendência
está crescendo em forma assustadora.
Na
América Latina, a evangelização foi feita quase sempre com o poder: poder
militar, poder político, poder econômico, poder cultural. Alguns, como
Bartolomé de Las Casas, afirmaram que se podia evangelizar os indígenas sem
imposição, sem pressão, sem força. Eles foram sempre vencidos. Essa opção
influiu muito na história do Continente. Bartolomé mostrou na prática que era
possível, mas foi castigado por ter mostrado que era possível. Os escravos
negros foram batizados por imposição, sem sequer saber de que se tratava. Mas,
uma vez batizados deviam submeter-se a todas as leis da Igreja. Esta origem da
Igreja na imposição intervem muito naquele fenômeno que o CELAM qualificou como
deserção silenciosa das massas. A Igreja perdeu o poder e não consegue mais
impor a sua religião. Seus membros fogem tranqüilamente.
A via
do poder já tinha sido a via dominante na cristandade. Salvo Irlanda, todos os
paises da Europa foram convertidos por imposição. Muitas vezes, foi a conquista
militar que impôs a religião católica. Todos os movimentos que quiseram contestar
esse sistema de imposição foram reprimidos por cruzadas ferozes. Até hoje os
albigenses são testemunhas da terrível cruzada feita pelos barões do Norte da
França contra os hereges do Sul; foi um extermínio sangrento, um roubo total.
Os
conquistadores souberam muito bem que a cristianização não se faz somente pela
força militar, ou seja, pelo puro medo. Acrescentaram dois princípios que
permitiram os êxitos da via do poder.
A
aliança com as elites
Durante
toda a época da cristandade, os missionários seguiram quase sempre a mesma
estratégia. Esta não morreu, ela está recuperando força hoje em dia. Na
conversão dos povos europeus, germânicos ou eslavos, o projeto era converter as
elites em primeiro lugar: os reis, os barões, os chefes de guerra. Constantino
era o modelo. Para isso os missionários mostravam às elites todas as vantagens
que podiam receber da nova religião. Esta conferiria legitimidade e sacralidade
ao seu poder. A Igreja pregaria a submissão ao poder das elites, como obrigação
para os cristãos, sob pena de pecado mortal. De fato, as elites entenderam,
como Constantino tinha entendido, todas as vantagens que podiam receber da
Igreja.
Na
América Latina, o princípio foi aplicado com constância. Os missionários
procuraram dar educação cristã aos filhos dos caciques. Pensavam que, uma vez
que assumiriam a sucessão dos seus pais, os novos chefes converteriam os seus
povos. O que se esperava das elites era que convertessem as massas. Os jesuítas
foram mestres dessa estratégia.
Quando
se fez a separação da Igreja e do Estado pela Republica, os bispos do Brasil
tomaram como meta a reconquista do poder, na sociedade, pela reconquista das
elites e, por isso, os colégios católicos para os filhos das elites foram a
prioridade pastoral quase até às portas do Vaticano II. Sempre se teve a ilusão
de que as elites evangelizariam as massas de dependentes. Mas, as elites não se
importavam pela evangelização. Queriam a submissão das massas e isto lhes
bastava. Para eles, as massas católicas deviam aprender um só dogma: que Deus
quer que eles obedeçam em todo aos seus senhores.
A
aliança com as elites fez com que o clero fosse assimilado às elites. O clero
quis ser reconhecido como a mais alta classe social e esse privilégio lhe foi
reconhecido pelas elites. Desta maneira, a separação entre o clero e o povo
ficou consumada. O clero acostumou-se a agir pela via da autoridade exigindo
dos fiéis a obediência total. Os membros da cristandade deviam obediência ao
clero e à elite nobre. Foi a aliança entre as duas classes superiores da
sociedade. Esta aliança ficou firme até a Revolução Francesa e Roma lhe foi
fiel até Leão XIII. O preço da aliança com as elites foi a transformação do
clero em classe superior na sociedade.
A
política de aliança da cristandade produziu resultados históricos
impressionantes. O clero construiu um conjunto religioso incrível: igrejas,
mosteiros, devoções, arte, festas, Santos para todos os problemas humanos.
Europa é um gigantesco museu da cristandade, visitado por milhões vindo de
todos os continentes. Ninguém aceita o evangelho por ter feito a visita a esse
museu. Roma é por si mesma todo um museu, testemunha da glorificação do Papa e
da Igreja Católica com ele. Ninguém mudou de vida por ter visitado Roma.
Criou-se uma civilização de valor estético inigualável. Foi o triunfo da Igreja
que, na realidade, era o triunfo do clero e não dos operário ou dos camponeses
cristãos. O triunfo foi tão grande que se explica que até hoje o sentimento
dominante no sistema clerica quel é o triunfo. É isso mesmo que torna tão
difícil qualquer mudança. No Concílio, um bispo denunciou esse triunfalismo e
foi aplaudido. Mas logo depois tudo recomeçou como antes.
Dentro
da cristandade houve muita santidade, houve muitas obras de caridade, houve
inclusive reis e rainhas santos. Foram exceções. Se se avalia a cristandade
desde o ponto de vista do evangelho, a impressão é diferente. Nos tempos de
Medellín, muitos bispos e membros do clero ficaram angustiados: Como é possível
que depois de 500 anos de presença da Igreja, o povo esteja vivendo numa
miséria tão grande e que as elites que vivem a nível de primeiro mundo, sejam
tão egoístas? Não foram educadas nos colégios e nas paróquias católicas?
Estiveram, sim, dentro do sistema católico, mas o anúncio do evangelho ficou
longe deles. Eles não têm a culpa, pois os seus educadores não lhes disseram o
evangelho, mas lhes transmitiram o sistema.
No seio
do clero sempre houve uma minoria que não se conformava com o estilo e o método
da cristandade. Houve entre os leigos muitos movimentos que queriam refundar a
Igreja segundo o modelo de Jesus. S. Francisco de Assis foi o exemplar típico
dessa outra vertente da Igreja. De fato, no meio dos pobres do campo ou das
cidades houve muitos homens e mulheres que viveram autenticamente o evangelho
de Jesus e praticaram heroicamente o amor ao próximo. Varias vezes tais
movimentos procuraram convencer ou pressionar o clero, mas quase sempre
fracassaram. Durante séculos pediram uma reforma, mas o que veio foi o Concílio
de Trento e Trento foi um aumento do sistema clerical. O povo de Deus nunca
deixou de existir, mas estava na sombra, entre os pobres, escondidos por trás
do esplendor da Igreja clerical.
A
manipulação da religião popular
Tanto
as elites como o clero sabiam muito bem no fundo que a evangelho é perigoso.
Não foi sem razão que Ch. Maurras, publicista francês incrédulo e de extrema
direita, felicitava a Igreja Romana por ter extirpado da Igreja o veneno
perigoso do evangelho. Pode ser que ele estivesse exagerando. No entanto, durante
a cristandade, o clero e as elites procuraram conter o evangelho dentro dos
limites de uma religião socialmente inofensiva. Os missionários usaram
amplamente esse método. Favoreceram o desejo de fatos maravilhosos. A
cristandade foi povoada de imagens, de Santos e de santuários para a grande
alegria dos povos. Pois os seres humanos precisam de religião, querem uma
religião rica, florida, múltipla, colorida. Tudo isso lhes foi fornecido.
A
religião popular tem outro aspecto: ela é também penitencial. Os seres humanos
têm sentimento de culpabilidade e querem expiar as suas faltas, conseguir o
perdão e estar reconciliados com as forças sobrenaturais. Tudo isso lhes foi
fornecido. Os missionários usaram demais o sentimento de culpa dos povos.
Insistiram nos castigos divinos, alimentaram o medo do inferno, inventaram
mortificações, tudo com a esperança de poder alimentar o sentimento de medo e
de culpa. Aqui mesmo, não faz tanto tempo, que as missões populares estavam
centradas na pregação sobre o inferno.
É
verdade que essa religião popular antiga está em crise. Os modos de expressão
dos nossos contemporâneos são diferentes. As missões tradicionais já não
produzem efeitos. Isto não quer dizer que os povos atuais não querem mais
religião. Na realidade, eles querem uma religião diferente que se expresse numa
linguagem que eles entendam. Daí o êxito das novas religiões que sabem usar as
técnicas psicológicas de manipulação das emoções e dos sentimentos. A religião
antiga usava sobretudo objetos sagrados. A religião nova usa os recursos
psicológicos para despertar emoções e adesões. Os objetos sagrados ainda se
mantêm mas num nível inferior. A manipulação do sentimento religioso confere um
grande prestígio social. Pode conferir um poder político: basta ver a ascensão
política das igrejas pentecostais no Brasil. Confere também um grande poder
econômico. Basta ver o poder econômico das novas Igrejas, como a Igreja
Universal do Reino de Deus ou a Igreja Internacional da Graça de Deus. A
religião ainda é uma grande fonte de poder.
O
problema é que o triunfo da religião popular pode estar acompanhado por um
vazio de cristianismo. O cristianismo não rende poder. A busca do triunfo leva
o clero a negligenciar tudo o que é cristão para se dedicar às atividades
religiosas que dão resultados visíveis. Foi o problema da antiga cristandade.
Ainda é o problema de hoje.
A
tentação do poder
A
tentação do poder é permanente em todas as instituições. Em Israel, Samuel fez
uma advertência solene ao povo que queria um rei, ou seja, um poder. Toda a
história de Israel foi a história dos compromissos dos dirigentes da nação com
o poder, inclusive, o poder imperial dos conquistadores. Mesmo nos tempos de
Jesus, os sacerdotes estavam de conivência com os Romanos e o rei Herodes não
era nada mais do que um títere nas mãos dos Romanos.
Jesus
conheceu a tentação do poder. Foi a grande tentação da sua vida e os
evangelistas apresentam essas tentações em forma muito forte. Satanás usa até
os discípulos para serem tentadores e Jesus teve que repreender, duramente,
Pedro que lhe representava de novo a grande tentação. A história da cristandade
mostra até que ponto os chefes da Igreja, o clero, cederam à tentação do poder.
Hoje em dia, no Vaticano II, a Igreja fez profissão solene
de abandonar o poder e o próprio Papa foi levado a renunciar a tríplice coroa
que foi o distintivo do seu poder durante os séculos da cristandade.
Oficialmente, a Igreja renuncia ao poder. Na prática, a coisa não é tão
simples. Na Argentina, durante o regime militar, um militante cristão perguntou
um dia a um bispo porque o episcopado argentino não denunciava as atrocidades
cometidas pelas forças armadas argentinas. O bispo respondeu: “Seria romper com
as forças armadas”. Para ele, essa era uma justificação suficiente. Para a
Conferencia Episcopal Argentina, a aliança com o poder militar que incluía o
poder político e econômico, era a prioridade. A prioridade era o poder. Depois
disso, que credibilidade ainda podem ter quando pretendem falar em nome de
Jesus? Jesus rompeu com o poder militar e com os outros poderes. Provavelmente,
esse prelado achava que hoje em dia Jesus está aí para ser adorado, mas não
para ser seguido.
Houve a
geração de Medellín que, de fato, na prática deixou o poder, e por isso foi
perseguida, caluniada, castigada. Desde então as coisas mudaram. Na América
Latina a opção preferencial pelos pobres foi abandonada, oficialmente, pelo
documento final do Sínodo da América. Em lugar dos pobres, o Sínodo definiu,
como prioridades, os meios de comunicação e as universidades. Mídia e
universidades são os dois canais de ascensão para o poder. O Sínodo fez
solenemente opção pelo poder. Ainda bem que um sínodo não representa o povo de
Deus. O povo de Deus pode continuar assumindo a opção pelos pobres, ainda que muitos
dos prelados a tenham abandonado. Um documento sinodal não obriga em
consciência, e não deve ser assumido pelo povo, sobretudo, quando é contrário
ao evangelho..
Hoje em
dia (2004), a opção pelo poder cresce vertiginosamente na Igreja. A Igreja
Católica está passando por um processo de deserção silenciosa. Muitos acham que
a resposta é reforçar a instituição pela conquista do poder. Acham que o poder
será capaz de frear ou de inverter esse processo histórico. Daí uma exaltação
do poder e uma insistência nos resultados quantitativos. Basta lembrar a
satisfação de tantos diante dos triunfos mediáticos do padre Marcelo Rossi que
é emblemático. O que é preciso considerar, não é o fato do padre Marcelo Rossi
que faz todo o bem que pode. O estranho é a alegria de bispos e de grande parte
do clero diante desse fato. Os movimentos que mais crescem, são aqueles que se
dedicam a um poder crescente, financeiro, político, econômico, cultural, como,
por exemplo, o Opus Dei ou os Legionários de Cristo. Muitos têm a impressão de
que esses movimentos são representativos pela marcha da Igreja Católica de
hoje, enquanto a geração de Medellín, com a opção pelos pobres, está sendo
esquecida.
A
via da fraqueza
O segundo
modelo é a via sem poder, ou seja, sem poder humano e somente com o poder de
Deus. Essa via sem poder foi apresentada pelos evangelhos com muita ênfase.
Jesus não tem nada. Envia os seus apóstolos sem nada. S. Paulo mostra no seu
caso de que maneira atua o missionário na prática das grandes cidades gregas.
”Estive entre vós cheio de fraqueza, receio e temor; minha palavra e minha
pregação nada tinham da persuasiva linguagem da sabedoria, mas eram uma
demonstração de Espírito e poder” (1Cor 2,2-4). “Trazemos este tesouro em vasos
de argila” . Sabemos da importância que S. Paulo deu ao seu trabalho manual.
Ele, com o seu trabalho manual, se situava na classe dos trabalhadores manuais.
Chegando a uma cidade, ele ia morar no meio dos trabalhadores manuais, no meio
dos pobres. Esta situação material é decisiva porque uma pessoa acaba pensando
como pensa o bairro em que está. Paulo situa-se naquilo que chamaríamos hoje de
periferia da cidade. Ele evangeliza de baixo para cima. Durante todos os
séculos da cristandade até o século XX o clero quis evangelizar de cima para
baixo. Mons. Expedito Medeiros, pároco de S. Paulo de Potengi (RN), durante 53
anos, e iniciador das comunidades de base no Brasil, gostava de contar como foi
enviado pelo seu bispo dom Marcolino para S. Paulo de Potengi. O bispo disse:
“Expedito, lembre-se: você é autoridade!” Ser padre era ser autoridade. Nesse
caso, a evangelização viria pela autoridade, de cima par baixo. Ao mesmo tempo,
o bispo recomendava”: “Uma só recomendação, Expedito: fique bem com o prefeito,
com o delegado e com o juiz. Quanto ao resto, você se vira”. Era exatamente o
programa executado durante séculos. Mons. Expedito contava isso brincando,
porque ele tinha feito a experiência de que a evangelização se faz a partir dos
pequenos.
Somente
os pequenos anunciam o evangelho vivido por eles mesmos. Eles falam da sua
vida, da sua conversão, do seu compromisso com Jesus. As autoridades anunciam
uma doutrina oficial, mas não falam de si mesmos, não falam da sua experiência
de vida. O argumento da autoridade não é: “faça como eu”. O padre poucas vezes
pode dizer isso. Os pobres podem dizer. Por isso eles têm credibilidade.
Na
América Latina, houve a geração de Medellín que partiu da convicção de que a
evangelização se faz de baixo para cima, sem poder, sem pressão, sem
constrangimento, sem apelar para desejos humanos, mas contando com a força do
Espírito. Na pobreza dos meios, pode-se falar de Jesus como do mestre a ser
seguido, não simplesmente como objeto de culto. Quem tem o poder somente falará
do poder de Jesus, do culto que se deve a Jesus. A via do poder reduz a
existência humana de Jesus, reduz a sua humanidade a um puro símbolo. A via sem
poder apresenta o Jesus que realmente viveu aqui nesta terra, sabendo que ainda
é o mesmo e que o que ele quer é o seguimento e não o culto.
É
verdade que sem poder, os missionários encontram hostilidade, críticas,
denúncias, incompreensão. Assim foram todos os da geração de Medellín. Assim
tinham sido os primeiros missionários dos primeiros anos da conquista, quando
se opuseram aos crimes dos conquistadores. Esses frades repetiam o que tinham
aprendido dos movimentos de pobreza dos séculos XII e XIII, particularmente dos
Fundadores dos Mendicantes. Apesar do prestígio do poder, apesar da tentação
sempre oferecida pelos poderosos, sempre aparecem cristãos que não aceitam as
tentações e acham que os ensinamentos de Jesus ainda valem nos nossos tempos.
Durante
séculos, o clero esperou que as elites muito católicas, formadas nos colégios e
nas paróquias, fossem evangelizar os pequenos, e isto nunca aconteceu. Os
pobres cristãos da América Latina não foram evangelizados pelos proprietários,
ou pelos donos da terra, do poder, das minas ou do governo. Foram evangelizados
por espanhóis pobres ou portugueses pobres que acompanharam os conquistadores
para as tarefas materiais. Como sempre, foi uma evangelização dos pobres pelos
pobres. Além disso, os sacerdotes administram os sacramentos, mas a
evangelização não é deles, salvo algumas gloriosas exceções.
A
missão não pode evitar a opção: pelo poder ou sem poder. Quem não faz opção
clara pelos pobres, com certeza, já fez opção pelo poder, ainda que não queira
confessá-lo, mas a sua ação, ou melhor dito, a suja ausência de ação fica muito
cheia de significado. Se o seu discurso é falar muito para dizer nada, a
situação está muito clara: opção pelo poder! Se o discurso for contundente
porque fala da vida dos homens e das mulheres para eles e elas, há opção pelos
pobres.
2.6.
Historicidade da missão
As
condições históricas
A
missão começou na terra de Israel. Segundo Lucas ou João, ela teria começado em
Jerusalém. Segundo Mateus e Marcos, ela começou na Galiléia. Ela deve ter
começado simultaneamente em Jerusalém e na Galiléia. Então começou a dispersão,
lenta primeiro e mais acelerada depois. Os apóstolos não eram nem geógrafos,
nem estrategas. Não elaboraram nenhum plano. Seguiram os caminhos abertos.
Viram onde estavam as portas abertas. Não puderam evangelizar o mundo inteiro
de uma vez. Paulo teve um pouco a ilusão de percorrer o mundo inteiro com a sua
viagem a Espanha. Mas, os missionários tiveram que descobrir um Império imenso
feito de 50 povos. Depois da primeira geração, a missão não foi feita em
primeiro lugar por missionários enviados oficialmente. A mensagem de Jesus foi
levada por comerciantes, viajantes, soldados itinerantes. Viajava-se muito no
Império Romano. Tudo foi feito pelas estradas existentes. A missão foi feita
sem plano preconcebido, de acordo com as possibilidades de cada um.
Condições físicas
Ninguém
ainda tinha feito a ligação entre Eurásia e América. Não havia caminhos para ir
até o Extremo Oriente desde a Palestina. Alguns foram para a Pérsia e dai
puderam seguir até a Índia. Na China, os nestorianos devem ter chegado já bem
tarde, nos séculos IX ou X. Na África negra chegaram no século VI, vindo do
Egito. Arábia estava perto, mas não parece que Mohamed tenha conhecido o
cristianismo. Depois das conquistas muçulmanas, no Oriente Médio e na África do
Norte, a cristandade foi cercada e foi-lhe muito difícil enviar alguns
aventureiros para o outro lado do Islã, “a terra do presbítero João”, mito
famoso na idade média.
As condições políticas
A terra
de Israel estava dentro do Império Romano. Por isso a missão estendeu-se ao
Império Romano e permaneceu dentro dos limites do Império na sua quase
totalidade até o século VIII, quando Carlos Magno fez a conquista da Germânia.
Uma vez que o cristianismo se tornou religião oficial do Império, a entrada nos
países inimigos foi mais difícil. Milhares de mártires morreram no Império
persa por causa da guerra entre Roma e a Pérsia. Ainda hoje, a missão cristã é
quase impossível em todo o mundo muçulmano por causa das guerras incessantes
entre a cristandade e o Islã. Foram 1400 anos de guerra. Isto torna o diálogo
muito difícil. Muitos países entraram na cristandade como conseqüência da
conquista militar: os povos germânicos e eslavos, os povos da América e grande
parte da África. Os que resistiram à conquista, resistiram também à religião dos
conquistadores, como na China ou no Japão. De qualquer maneira, a colonização
deixou uma implantação forte do cristianismo na América, nas Filipinas, na
Sibéria. Houve tentativas de missão entre os mongóis na idade média. Mas era
preciso contornar todo o mundo muçulmano, e, finalmente, boa parte dos mongóis
entrou no Islã.
Condições culturais
Certas
culturais mostraram-se mais abertas e outras mais fechadas, não somente por
razões políticas, mas por razões culturais. Alguns povos puderam achar que
podiam combinar a sua própria cultura com o cristianismo e outros não.O
cristianismo encontrou um terreno muito favorável na África, mas muito mais
difícil na Ásia, por causa da resistência de religiões mais antigas e
amalgamadas com culturas milenares. A rigidez do sistema católico tornou o
diálogo mais difícil. Depois de Trento, o catolicismo se fechou num sistema
rigoroso de dogmas, ritos e leis que constitui um obstáculo maior para a
missão. Pois, a missão da Igreja pede ao mesmo tempo a conversão ao evangelho e
a aceitação de todo o sistema religioso da cristandade ocidental. Em muitos
casos, o próprio cristianismo desaparece debaixo da abundância de formas
culturais do sistema católico. Ninguém consegue mais reconhecer a mensagem de
Jesus debaixo de um revestimento tão sólido.
Condições internas
Há
épocas em que a Igreja tem mais consciência missionária e outras épocas em que
essa consciência diminui. Depois do cisma protestante, muitas energias foram
gastas no conflito entre católicos e protestantes. A luta contra os hereges foi
a primeira prioridade e a missão vinha só em segundo lugar. Depois da Revolução
Francesa, a prioridade foi a defesa da cristandade contra a ofensiva da
modernidade (liberalismo, socialismo, comunismo). Somente uma pequena
porcentagem de recursos pessoais e materiais foi orientada para obras
missionárias. As circunstâncias eram excepcionalmente favoráveis, graças aos
descobrimentos e à invenção de tecnologias que facilitavam as viagens e as
comunicações. Isto não foi aproveitado por causa da guerra religiosa. Hoje em
dia, a missão quase que desapareceu. Supostamente, a Igreja está instalada e
fundada em todos os países. Quanto à evangelização dos povos que não entraram
nesses pequenos núcleos eclesiásticos, pouquíssimas são as pessoas que se
dedicam seja a um diálogo religioso, seja a uma inculturação. O que sobra dos
institutos missionários dedica-se à administração dos pedaços de cristandade
que foram fundados. Por exemplo, na América Latina essa missão é praticamente
ausente. América Latina envia missionários para administrar os pedaços de
cristandade que há na África, mas não há nenhuma preparação para levar a
mensagem cristã ao Extremo Oriente ou ao mundo muçulmano. A maioria dos
católicos está na América Latina, mas a mentalidade é de cristãos que recebem
da Europa, não de cristãos que levam a sua fé para essa imensa maioria da
humanidade que ainda não recebeu a boa notícia. Fala-se muito em missão, mas
tudo fica no discurso. Claro está que essa não é prioridade em Roma e as
Igrejas locais aguardam que o Papa dê um sinal positivo, o que ainda não
aconteceu. Durante 25 anos, a Igreja católica ficou olhando para si própria
como num mundo fechado. Até quando ?
Os
modos da missão
Os
modos de expressão variam de acordo com a evolução das culturas e estas variam
de acordo com a evolução dos meios de comunicação. Nas origens, a comunicação
do evangelho deve ter sido feita segundo o modo da conversa. Jesus não faz
discursos, mas emite sentenças, conta histórias, enfim, usa o estilo das conversas
nas portas das casas ao anoitecer. Sucedeu que a missão entrou no Império
Romano, isso é, dentro da cultura grega. Esta criou o discurso. Desde então, o
discurso foi um modo fundamental de transmissão, sobretudo por parte do clero,
quando o clero foi letrado. Porém, não se desenvolveu igualmente em todos os
séculos. Na idade média, com 90% da população morando no campo e analfabeta, o
discurso ocupou pouco espaço; o clero não pregava. O que predominou foram as
conversas, ou a narração dos milagres nos santuários, a história dos Santos
feita de maravilhas, um estilo que ainda permanece hoje nos povos analfabetos.
Na
Reforma do século XVI, o discurso voltou a ser importante. Os protestantes
colocaram o discurso no centro das suas atividades religiosas e também na
Igreja católica o discurso foi importante. Houve uma longa época em que a
oratória sagrada ou a eloqüência sagrada eram a matéria mais importante da
formação sacerdotal. Hoje em dia, o discurso está em franca regressão. Voltamos
ao reino das imagens, mas com meios técnicos infinitamente superiores. Com as
imagens há a música. As letras das músicas atingem a juventude, mas nenhum
discurso. A comunicação é pontual: provoca sensações rápidas, slogans, palavras
repetidas sem parar. A atenção a um discurso elaborado é cada vez mais difícil
e reservada a uma elite intelectual sem penetração nas massas. A missão precisa
conhecer os meios de comunicação da época em que se realiza. Não adianta usar
meios de comunicação aos quais ninguém mais presta atenção.
De
qualquer maneira, o argumento mais forte foi sempre e ainda será para sempre a
própria vida do missionário, o seu modo de ser e de viver. Pode expressar-se
muito mal, mas se a vida dele ou dela fala, a mensagem passa. Pode nem sequer
saber a língua dos seus interlocutores, os povos entendem: entendem a linguagem
do amor. O discípulo de Jesus transmite a boa notícia pela sua vida, porque a
sua vida aparece como boa notícia. A sua chegada já é uma boa notícia .
3. PERGUNTAS, TAREFAS E VIDEOS PARA DEBATES,
APROFUNDAMENTOS E PESQUISAS
3.1. Perguntas
-
Qual
é o lugar dos pobres na missão?
-
Qual
é a diferença entre religião e seguimento de Jesus?
-
Qual
é a mensagem de Jesus?
-
Qual
é a diferença entre memória e culto de Jesus?
-
Em
que consiste a conversão?
-
Qual
é a diferença entre a via de poder e a via sem poder?
3.2. Tarefas
-
Quais
foram os temas principais da doutrina de Vaticano II sobre a missão?
-
Quais
foram os temas novos de Medellín em relação com a missão?
-
Quais
foram as vias da missão seguidas na América`latina?
3.3. Vídeos
- PEQUENA GRANDE IRMÃ. (Alberta Girardi). Série –
Lição e Vida. 28mn. Rede Rua de Comunicação [“testemunho profético a
serviço do projeto de Jesus de Nazaré].[4]
- NA FILEIRA DOS EXCLUÍDOS. Padre Alfredinho. 50mn.
Série Lição de Vida. Rede Rua de Comunicação.
4. REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
4.1. Bibliografia geral
ALVES
DE MELO, Antonio. Evangelização no Brasil. Dimensões teológicas e desafios pastorais. O debate teológico e
eclesial (1952-1995). Roma: Pontifícia Universitá Gregoriana,
1996.
BOSCH, David J. Missão
transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. São
Leopoldo/RS: Sinodal/EST, 2002.
CLAI. Missão,
unidade e identidade da Igreja. Processo
Regional de Reflexão para a Quarta Assembléia Geral do CLAI. Quito:
CLAI, 2000.
COMBLIN, José. Teologia da missão. Petrópolis:
Vozes, 1980.
DONEDA, Alberto. Iglesia
en camino. 2000 años de
historia de la misión. Quito, 2000.
DONEGANA,
Constanzo (org.). Terceiro milênio. O desafio missionário. São Paulo: Ave Maria, 1999.
LAS
CASAS, Bartolomé de. De unico vocationis modo. Obras completas. Vol. 2., Madrid: Alianza, 1990.
MÜLLER, Karl. Teologia da missão. Petrópolis: Vozes, 1995.
PONTIFÍCIAS
OBRAS MISSIONÁRIAS/CNBB, Tornar-se próximo. A missão além-fronteiras. Brasília: Pontifícias Obras
Missionárias/CNBB, 1999.
RICHARD,
Pablo. Morte das cristandades e
nascimento da Igreja. Análise histórica e interpretação teológica da Igreja
na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1982.
SUESS,
Paulo (Org.). Os confins do mundo no meio
de nós. Simpósio missiológico internacional. São Paulo/Quito: Paulinas/Abya
Yala, 2000.
VV.AA. La misión en el umbral del tercer
milenio. Simposio latinoamericano
de misionología. Cochabamba/Buenos Aires: UCB/Verbo
Divino/Guadalupe, 2000.
4.2. Documentos eclesiais
CONCÍLIO VATICANO II, Decreto Ad Gentes. 1965.
PAULO VI, Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi.
1975.
JOÃO PAULO II, Carta encíclica Redemptoris Missio. 1990.
CONCLUSÕES
DA II, III, IV CONFERÊNCIA DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO (Medellín, Puebla,
Santo Domingo)
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Rumo ao novo milênio. Projeto de
evangelização da Igreja no Brasil em preparação ao grande jubileu do ano 2000.
São Paulo: Paulinas, 1996 (Série Documentos da CNBB 56).
PROCURADORIA DAS MISSÕES: MISSIONÁRIOS DO VERBO
DIVINO (Org.). As missões católicas.
Pronunciamentos dos Papas desde Leão XIII até João Paulo II, e documentos do
Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1980.