5.1. A QUESTÃO ECUMÊNICA HOJE
José Bizon
dcj@casadareconciliacao.com.br
1. RESUMO E OBJETIVO
Resumo
O ecumenismo é parte
integrante da ação evangelizadora. De acordo com o Decreto Unitatis redintegratio, todos os
batizados são responsáveis pela reconstrução da unidade. “Todos na Igreja devem se interessar pelo
trabalho da unidade, tanto leigos como pastores. Esse trabalho atinge cada um
em particular, conforme sua capacidade, seja na vida cristã diária, seja nas
pesquisas da teologia e da história” UR § 5.
A paz acontecerá “em
todo universo habitado” quando o
ecumenismo for parte integrante de toda humanidade sem exclusão de raça,
etnia, sexo e religião. Não haverá paz sem Ecumenismo.
Objetivo
O objetivo desta aula é mostrar aos estudantes o desenvolvimento
do Ecumenismo, desde sua origem até os dias de hoje, e seus desafios atuais.
Além de mostrar os desafios, a aula procura estimular a colaboração dos
ouvintes para derrubar as barreiras e muros que nos separam, e construir pontes
para encurtar distâncias na busca da unidade.
2. TODO O UNIVERSO HABITADO
Oikoumene é uma palavra do
vocabulário grego que significa “todo o universo habitado”. Quando penso no
mundo, em cada um dos continentes: Africano, Americano, Asiático, Europeu e na
Oceania, lembro também que cada povo tem sua cultura, seus costumes e suas
tradições. Mas, homens e mulheres são todos seres humanos, habitantes do mesmo
planeta e experimentam a mesma realidade. Apesar das inúmeras diferenças
culturais, religiosas e políticas, há uma unidade: os habitantes do mundo
formam uma só humanidade.
No campo religioso é muito comum
usar a expressão unidade na diversidade; unidade é muito diferente de
uniformidade. No Novo Testamento o termo OIKOUMENE aparece como terra habitada.
“O evangelho do reino será proclamado em toda OIKOUMENE” (Mateus 24,14).
“Naqueles dias, apareceu um edital de César Augusto ordenado que se fizesse o
recenseamento de toda OIKOUMENE” (Lucas 2, 1).
Nos primeiros séculos do
Cristianismo, a palavra OIKOUMENE foi traduzida por ECUMENISMO. E no contexto
religioso ela passou a ser usada para designar a UNIDADE DOS CRISTÃOS. Mas,
“não é correto limitar o uso do termo ecumênico apenas à esfera religiosa da
existência humana. De fato, a unidade dos seres humanos, das nações e de todo o
povo de Deus inclui a dimensão geográfica, cultural e política”[1]
Desde os primeiros séculos também,
a Igreja usou esta palavra para designar a reunião de seus representantes
(bispos), provenientes do mundo então conhecido, chamando-a de “Concílio
Ecumênico”.
“O uso atual dos termos ecumênico
e ecumenismo não é completamente unânime. A Igreja católica romana continuou,
até o dia de hoje, a designar com esse adjetivo os concílios representativos de
sua universalidade. Assim, o Vaticano II, celebrado de 1962 a 1965, é
considerado oficialmente como o 21º Concílio ecumênico”.[2]
Além disso, a Igreja Católica,
hoje, emprega o termo ECUMENISMO exclusivamente ao relacionamento entre
cristãos, entre aqueles que confessam que Jesus Cristo é o Senhor e o Salvador.
E o objetivo central do ECUMENISMO é restaurar
a unidade visível da Igreja.
3. COMPREENDER PARA PRATICAR A
UNIDADE
Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja vem,
incansavelmente, insistindo conosco sobre a importância de compreendermos e de
praticarmos a Unidade tão desejada por Jesus.
O Papa João Paulo II, na sua Carta Encíclica Ut Unum Sint,
sobre o empenho ecumênico, nos diz: “Essa unidade, que o Senhor deu à sua
Igreja e na qual Ele quer abraçar a todos, não é um elemento acessório, mas
situa-se no centro mesmo da sua obra. Nem se reduz a um atributo secundário da
Comunidade dos seus discípulos. Pelo contrário, pertence à própria essência da
Comunidade. Deus quer a Igreja, porque Ele quer a unidade, e na unidade
exprime-se toda a profundidade do seu ágape”
(§ 9).
Muitas pessoas pensam que
ecumenismo é juntar todas as Igrejas numa só, que ser ecumênico ou fazer
ecumenismo é fazer um ajuntamento. Mas, ecumenismo é: buscar a verdade juntos,
lealmente, no desejo sincero de sermos todos (as) cada vez mais fiéis a
Jesus.Alguns acham que é possível deixar de crer no que ensina a sua Igreja
para viver em paz com todo mundo, isto é falso Irenismo. Mas, ecumenismo é:
conversão de coração para reconhecer o que há de bom nas outras Igrejas
cristãs.
Outros fazem de conta que tudo é a mesma coisa, que não há
diferenças nem problemas. Mas, ecumenismo é: alegrar-se com o muito que temos
em comum, em vez de ficar buscando motivo para briga.
Há quem aceite, sem espírito crítico, o que vem de outros
grupos, considerando que todos somos da mesma família cristã. Mas, ecumenismo
é: procurar conhecer as outras Igrejas, sem preconceito e sem ingenuidade
também.[3]
4. DIÁLOGO - UMA DAS EXIGÊNCIAS DA
EVANGELIZAÇÃO
A Igreja Católica Apostólica Romana nos diz que “o diálogo
é uma atitude permanente da Igreja, que encontra fundamento na própria atitude
de Deus para com a humanidade” (PRNM § 56). Dentro da Dimensão de Diálogo é
sempre bom entendermos bem o que nossa Igreja está querendo dizer e para tanto
ela faz a seguinte distinção:
4.1. Ecumenismo é o diálogo com os cristãos, e “dele participam os que
invocam o Deus Trino e confessam a Jesus como Senhor e Salvador, não só
individualmente, mas também reunidos em assembléia...”(UR § 1). Aqui já temos
dois pontos fundamentais para definir o que de fato é ecumenismo: é um diálogo
entre cristãos e é um diálogo comunitário.
“Mediante o diálogo, os cristãos (e outras tradições
religiosas) são convidadas a aprofundar o seu empenho religioso e a responder,
com crescente sinceridade, ao apelo pessoal de Deus e ao dom gratuito que Ele
faz de si mesmo” (PRNM § 56).
4.2. Diálogo Inter-religioso é o diálogo mantido com todos os que
admitem Deus e que guardam, em suas tradições, preciosos elementos religiosos e
humanos.
A Declaração “Nostra Aetate” afirma: “a Igreja Católica
nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nestas religiões... Exorta por
isso seus filhos a que, com prudência e amor, através do diálogo e da
colaboração com os seguidores de outras religiões, testemunhando sempre a fé e
a vida cristãs, reconheçam, mantenham e desenvolvam os bens espirituais e
morais, como também os valores sócio-culturais que entre eles se encontram”.
4.3. Diálogo com a Cultura, ou seja, o diálogo com humanistas. “Ainda
que rejeite absolutamente o ateísmo, a Igreja contudo declara com sinceridade
que todos, homens e mulheres, crentes e não crentes, devem prestar seu auxílio
à construção adequada deste mundo, no qual vivem comunitariamente. Isto
certamente não é possível sem sincero e prudente diálogo”(GS § 2).
Depois de ter usado tantas vezes a palavra diálogo,
gostaria de deixar claro que ele é e está no centro de toda colaboração
ecumênica. O diálogo exige de cada pessoa que se saiba escutar e responder e
ainda mais compreender e fazer-se compreender. “É estar disposto a apresentar
questões e, por sua vez, a ser questionado. É comunicar algo de si e ter
confiança no que os outros dizem de si próprio”. O diálogo ecumênico é uma
forma de se conhecer a Igreja do outro e dar a oportunidade aos outros de
conhecerem a nossa Igreja. É um momento de conhecer o que temos em comum e os
pontos que ainda são diferentes.
5. PONTOS BÁSICOS DO ECUMENISMO
1º - Oração é a alma do ecumenismo, não pode
existir ecumenismo sem oração. É ela que dá vida e dinamiza o diálogo, isto
porque o ecumenismo é uma ação do Espírito Santo. Nossa oração pelo ecumenismo
pode ser pessoal, comunitária e também em grupos de cristãos de diferentes
denominações.
O Decreto “Unitatis Retintegratio”, documento do Concílio
Vaticano II, nos diz que: “para os católicos tem um significado mesmo solene
reunir-se freqüentemente para aquela oração em prol da unidade da Igreja que o
próprio Salvador rezou ardentemente ao Pai, na vigília de sua morte: “Que todos
sejam um” (§ 8). A oração entre cristãos de diferentes denominações é o meio
mais eficaz para pedir a graça da unidade: “onde dois ou três estiverem
reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”, diz o Senhor (Mt 18,20).
2º - Estudo é a dinâmica do ecumenismo. Sem conhecimento não pode
existir um ecumenismo fundamentado na verdade e na caridade. O estudo é uma
forma de se conhecer a Igreja, história e doutrina do outro e dar oportunidade
aos outros de conhecerem a nossa Igreja. Gosto de lembrar sempre que este
conhecimento não é doutrinação, mas é partilha de informação.
O § 5 do Decreto “Unitatis Redintegratio” afirma: “a
solicitude para instaurar a união se impõe a toda a Igreja, tanto aos fiéis
como aos pastores e afeta a cada um em particular, de acordo com sua
capacidade, quer na vida cristã quotidiana, quer nas investigações teológicas e
históricas”.
O estudo comum da Bíblia, é um meio eficaz, que “alimenta
a vida da Igreja de diversas formas e é um instrumento excelente na poderosa
mão de Deus, para que se alcance a unidade que o Salvador oferece a todos”.
(Diretório)
3º - Ação social é o testemunho vivo do trabalho ecumênico, expressão de
solidariedade. Além disto, hoje mais do que nunca, são necessárias parcerias
nos trabalhos sociais, visando o desenvolvimento integral e a libertação de
nossa sociedade. É preciso que haja colaboração entre irmãos e irmãs de
diferentes denominações cristãs nas atividades de promoção humana e de socorro
aos necessitados.
Destes três pontos essenciais para a ação ecumênica,
poderemos dar pequenos passos em direção à realização do grande desejo de Jesus
“que todos sejam um... para que o mundo creia”. Estou certo de que o ecumenismo
está no coração de Jesus.
Concluo, com as palavras do Apóstolo Paulo: “irmãos e
irmãs vivei na alegria, trabalhai para o vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos,
tende muita concórdia, vivei em paz, e o Deus de amor e de paz estará convosco”
(2Cor 13, 11).
6. TAREFAS E PERGUNTAS
6.1. Tarefas pastorais
Penso que os pontos acima mencionados esclarecem qual é a
postura da Igreja em relação ao ecumenismo. Creio também que é oportuno e
necessário fazer algumas recomendações práticas e pastorais.
6.1.1. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - hoje
conhecida mundialmente - a celebração do Advento, a oração pela paz, pela
família, ou os momentos em que a comunidade celebra um evento importante como
formatura, aniversários cívicos, e outros são ocasiões em que a comunidade pode
partilhar suas alegrias, tristezas e esperanças, sempre iluminada pela Palavra
de Deus.
6.1.2. “Considerando que há mal-entendidos nessa área,
cuide-se de incluir na pregação, na catequese e em toda a formação da fé a
perspectiva ecumênica” (PRNM § 140).
6.1.3. “Promover, numa perspectiva ecumênica, um
testemunho comum mediante a oração, semana de oração pela unidade dos cristãos,
ação bíblica conjunta, grupos de estudo e reflexão e, onde for possível,
comissões e conselhos interconfessionais em diversos níveis” (Puebla § 1121).
6.1.4. “Reconhecemos a solidariedade de outras Igrejas,
unimos os nossos esforços aos dos homens e mulheres de boa vontade para
desarraigar a pobreza e criar um mundo mais justo e mais fraterno” (Puebla §
1161).
6.2. Perguntas
- Qual é a diferença entre Ecumenismo e Proselitismo? Os
dois combinam?
- Quais são as Igrejas que fazem parte do Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs? Na sua
região, existe algum organismo ecumênico? Qual? O que ele faz? Mencione
alguns organismos ecumênicos no Brasil e quais são as suas atribuições?
- O Decreto Unitatis Redintegratio, do Concílio
Vaticano II, está completando 40 anos: o que estamos fazendo ou o que
poderíamos fazer para colocá-lo em prática? O que poderíamos fazer para
divulgar entre os católicos a proposta ecumênica?
- Como as orientações oficiais da Igreja sobre o Ecumenismo
têm chegado até nós? Qual seria o caminho para nos mantermos sempre informados?
- Como e onde é realizada a Semana de Oração pela Unidade
dos Cristãos na sua região? Ela tem promovido o Ecumenismo Espiritual?
- O que podemos fazer aqui, em nossa região, em favor do
Ecumenismo e do Diálogo?
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIZON, J.; DARIVA, N.; DRUBI, R. (Orgs). Ecumenismo - 40 anos do
Decreto Unitatis redintegratio (1964-2004). São Paulo: Paulinas, 2004.
BIZON,
J.; DRUBI, R. (Orgs). A Unidade Na Diversidade. São Paulo: Loyola, 2004.
CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). O que é ecumenismo. São Paulo:
Paulinas, 1997.
CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diálogo e ecumenismo. Secretariado
Regional Leste II, Setor Catequese, Caderno Catequético N. 4. Belo Horizonte,
1999.
CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Guia ecumênico. Estudos da CNBB N.
21, 3a ed. São Paulo: Paulus, 2003.
CONSELHO
NACIONAL DE IGREJAS CRISTÃS (CONIC) e CONSELHO LATINO AMERICANO DE IGREJAS
(CLAI). Diversidade e comunhão. Um convite ao ecumenismo. São
Paulo: Sinodal e Paulinas, 1998.
CRUZ, T. M. L. Ecumenismo, conteúdo de catequese?
São Paulo: Paulus, 1996.
HORTAL,
J. E haverá um só rebanho. História, doutrina e prática católica do Ecumenismo,
2ª ed. São Paulo: Loyola, 1996.
[1] Barros, Marcelo. O sonho da paz, Petrópolis, Vozes, 1996, p.38
[2] Hortal, Jesús. E haverá um só rebanho, História, Doutrina, e Prática Católica do Ecumenismo. São Paulo, Loyola, 1989, p. 12
[3] Estes itens referentes ao que é e o que não é ecumenismo foram tirados do livros. O que é Ecumenismo ? Uma ajuda para trabalhar a exigência do diálogo. São Paulo, Paulinas, 1997, pp. 14 e 15.