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DOCUMENTO FINAL Por ocasião de sua XV Assembléia Geral, o Conselho
Indigenista Missionário, juntamente com o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e
Justiça no Campo, realizaram no auditório da Procuradoria Geral da República,
em Brasília, o Seminário Nacional: “Os Problemas Brasileiros e
Perspectivas (Terra, Meio Ambiente, Economia e Política)”. Preocupados com a situação em que vivem os povos
indígenas, os trabalhadores rurais sem terra, os pequenos agricultores
familiares, os quilombolas e demais povos do campo, apresentamos ao governo e à
sociedade brasileira, propostas para enfrentar os graves problemas que atingem
estas populações. O presidente Lula foi eleito como o primeiro
governo popular depois de 503 anos de domínio absoluto dos poderosos, do
Império e da República, sobre o Estado Nacional. Devido aos seus compromissos
de campanha e à sua origem popular, este governo gerou fortes expectativas na
sociedade no rumo dos resgates das dívidas que o Estado brasileiro possui com
os setores populares e os excluídos de maneira geral. Vivemos um momento extremamente delicado e de
fortes angústias frente à conjuntura nacional e, particularmente, frente às
políticas públicas do atual governo que têm sido voltadas ao sistema financeiro
internacional e pouco direcionadas às grandes questões sociais do país. Estarrecidos, acompanhamos os relatos de todo o
Brasil sobre o aumento da violência contra trabalhadores rurais, quilombolas,
povos e comunidades indígenas. Nestes sete meses de governo, dezoito lideranças
indígenas e vinte e oito trabalhadores rurais foram brutalmente assassinados em
função da luta pela terra. As concessões e vistas grossas feitas ao avanço
indiscriminado da exploração dos recursos naturais preocupam os povos indígenas
e as mulheres e os homens do campo. Pois estes sabem que da preservação do meio
ambiente depende a sobrevivência da vida humana. Ainda assim, indústrias nacionais e multinacionais
insistem em defender dentro do governo seus interesses predatórios, como nos
casos da privatização das águas, o plantio de sementes transgênicas e dos
riscos do “deserto verde”, e programas de gigantesco impacto ambiental, como a
construção de barragens, hidrovias, hidroelétricas e transposição de rios, que
tem tido continuidade. Estes fatos não nos fazem esmorecer e, muito menos,
desistir da luta. É a História e suas contradições que estão em curso e nelas
os povos indígenas, os trabalhadores rurais sem terra, os pequenos agricultores
familiares e seus aliados sempre inscreveram suas lutas e arrancaram suas
vitórias. No presente e no futuro isso não será diferente. Lutaremos para que o governo popular de Lula tenha,
como elemento primordial da sua agenda política, o combate à violência no campo
e o resgate das dívidas com aqueles que sempre foram agredidos, violentados,
usurpados e expropriados pelo Estado Nacional. Para
nós, trata-se de definirmos melhor nossas estratégias e construirmos com maior
clareza nossas alianças. É tarefa urgente aprofundarmos nossa capacidade de
análise, de mobilização social e de intervenção política para recuperarmos a
iniciativa, reafirmando o protagonismo dos setores populares e dos povos
indígenas. Diante do exposto propomos: 1. A criação e implementação de um
Plano Nacional de Reforma Agrária tendo como base a desapropriação dos
latifúndios como o caminho constitucional para garantir a função social da
terra; uma legislação que limite o tamanho das propriedades rurais, através de
emenda constitucional, e o confisco integral de todas as terras onde houver
trabalho escravo, exploração de trabalho infantil, cultivo de plantas
psicotrópicas e daquelas usadas para práticas de contrabando ou adquiridas
mediante práticas ilegais; 2. O planejamento da produção familiar que leve em
consideração as diversidades regionais, sua viabilidade e sustentabilidade
econômica, social e ambiental com linhas de crédito de custeio e investimento
acessíveis, com programas de seguro agrícola e de serviços de assistência
técnica pública, gratuita e de qualidade e com garantia de preços mínimos
justos e de comercialização da produção; 3. Que no decorrer deste governo, as terras indígenas
sejam integralmente demarcadas, de acordo com os limites aceitos pelos povos ou
comunidades indígenas que as ocupam tradicionalmente, conforme determina a
Constituição Federal. E, de imediato, que seja garantida a posse plena das
comunidades indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam, e que se
encontram envolvidas em graves e prolongados conflitos, a exemplo das seguintes
terras: Raposa/Serra do Sol (RR), Caramuru Catarina Paraguaçu (BA), Pataxó da
região do Monte Pascoal (BA), Cerro Marangatu (MS), Guarani do Araça’í (SC),
Xokleng La Klaño (SC), Toldo Imbu Kaingang (SC), Alto Rio Guamá (PA), Xukuru
(PE), Guajá (MA) e Roosevelt (RO/MT); 4. A assinatura de decreto que incorpore ao ordenamento
jurídico nacional a Convenção 169 da OIT, cujo texto já foi aprovado pelo
Senado Federal através do Decreto Legislativo n.º 143, de 20 de junho de 2002; 5. A imediata proteção jurídico-administrativa e judicial
às comunidades indígenas, onde existem conflitos pela posse da terra, bem como
rápido e eficiente combate à violência contra os povos
indígenas e trabalhadores rurais e punição dos responsáveis por esses atos; 6. Respeito aos territórios tradicionais indígenas
onde foram ou estão sendo sobrepostas Unidades de Conservação Ambiental, com
especial observância ao disposto no art. 231, § 6º, da Constituição Federal,
quanto à nulidade imediata e independentemente de declaração judicial ou
administrativa, dos seus respectivos atos de criação; 7. Recomposição territorial das áreas indígenas
atingidas por grandes projetos, a exemplo do povo Tuxá (BA), Avá-Canoeiro (GO)
etc.; 8. Providências deverão ser tomadas para estruturar uma
política indigenista que assegure aos povos indígenas o atendimento de suas
legítimas reivindicações e direitos, de acordo com os princípios norteadores
definidos pela Constituição Federal. E que seja criado um conselho indigenista
com poder deliberativo, do qual participem representantes dos povos indígenas,
das entidades de apoio, da comunidade acadêmica e jurídica, do Ministério
Público Federal e dos ministérios que atuem de forma permanente, através de
órgãos próprios, em ações de proteção e assistência aos povos indígenas; 9. A criação de programa nacional de titulação de terras
de quilombos e de um programa de promoção do desenvolvimento sustentado das
comunidades quilombolas. Por
fim, nos colocamos abertos ao diálogo com vistas à construção de um futuro
digno para a sociedade brasileira e para os povos indígenas. Comungamos dessa
esperança viva e presente em incontáveis companheiros e companheiras de todo o
nosso Brasil. Brasília, 05 de agosto de
2003. |
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