CEMLA 13: A missão à luz da encarnação

de Cemla – 27/05/2026

De 23 a 27 de fevereiro de 2026, nos encontramos em São Paulo para o 14º Encontro do Centro de Estudo Missionários Latino-Americano (Cemla) para debater e analisar os nossos trabalhos sobre o tema: a missão à luz do mistério da encarnação.

Consideramos esse tema de fundamental importância para reconfigurar a missão do ponto de vista bíblico, teológico, histórico com suas implicações pastorais, eclesiológicas e missiológicas, não somente em vista dos processos de inculturação, de diálogo com as diversas tradições religiosas e de solidariedade com os sobreviventes dos contextos fronteiriços, mas também diante de certa involução das igrejas da América Latina pela ação de movimentos carismáticos e integralistas que impulsionam um clericalismo radical e um monofisismo legalista disfarçado de espiritualidade que afronta a mais genuína fé da Igreja.

Compromisso da prática e da teologia da missão é repropor hoje com decisão o tema da encarnação como antidoto a propostas pastorais desencarnadas, elitistas, autoritárias e autorreferenciais que aparentam dominar o cenário eclesial latino-americano e que pretendem conduzir o povo de Deus por caminhos de ideologização, de submissão e de alienação.

Com efeito, o mistério encarnação revela a divina humanidade de Deus, tornando-se assim elemento norteador para toda a missão da Igreja, particularmente, sob a perspectiva de cinco aspectos fundamentais.

O primeiro é a superação decidida da separação entre profano e sagrado. Na encarnação há o encontro entre o humano e o divino, firmemente afirmado pelos primeiros concílios ecumênicos e proclamado no símbolo apostólico que é o depósito da fé. Tendo o Filho de Deus, consubstancial ao Pai, assumido nossa realidade e nossa história, tornou sagrado o profano e a divisão desses dois âmbitos se tornou obsoleta e sem sentido. Jesus mostrou, em sua prática, que essa dicotomia havia sido abolida. Sagrado é todo ser humano que está acima de qualquer instituição religiosa.

“O regresso ao sagrado e a busca espiritual, que caracterizam a nossa época, são fenómenos ambíguos. Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro” (EG 89).

O segundo aspecto é o ministério de aproximação às realidades humanas: o Filho de Deus se despojou de sua natureza divina (Fl 2,7) para assumir toda natureza humana. Irineu acrescentará que só o que foi assumido pelo Verbo pode ser redimido. Essa aproximação implica uma kenose e um rebaixamento (Fl 2,8), um ir ao encontro e tomar iniciativa:

“A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos” (EG 24).

O princípio da encarnação nos convida sempre a promover uma cultura do encontro, “procurar pontos de contacto, lançar pontes, projetar algo que envolva a todos” (FT 279).

“O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura” (EG 88).

O terceiro aspecto que o mistério da encarnação sugere é a valorização das diversas culturas. O Filho de Deus se encarnou numa cultura específica e numa história peculiar que era a história do povo de Israel. Jesus era um judeu, foi educado como judeu, pensava como judeu, vivia como um judeu; mas seu Evangelho e a sua proclamação do Reino de Deus era para todos os povos sem exclusões. O mistério da encarnação não veio para sacralizar uma cultura como meio de salvação, mas inseriu-se numa cultura para poder comunicar o Evangelho a toda a humanidade. Da mesma forma, os discípulos do Senhor aprenderam logo que o Espírito Santo fará isso com todas as outras culturas:

“Não faria justiça à lógica da encarnação pensar num cristianismo monocultural e monocórdico. É verdade que algumas culturas estiveram intimamente ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento cristão, mas a mensagem revelada não se identifica com nenhuma delas e possui um conteúdo transcultural” (EG 117).

O quarto aspecto é a história: Deus se revelou na história e continua se revelando na história. Ele é o “Emanuel”, o Deus conosco. Isso significa que a partir da lógica da encarnação devemos perscrutar a presença e a vontade de Deus nos sinais dos tempos que a história nos oferece e nos revela. O Deus de Jesus há de ser acolhido na vida e na história, nos nossos irmãos e irmãs, nos pobres e nos outros e no nosso dia a dia. Se a encarnação do Filho indica um evento particular na história, essa encarnação indica também a maneira com a qual Deus quis nos falar e continua nos falando, a maneira com a qual Deus continua sua missão.

Enfim, o mistério da encarnação se revela também na criação que “traz em si uma estrutura propriamente trinitária” (LS 239). A natureza também é sujeito participante de um processo de encarnação do Verbo. De igual maneira à humanidade, “desde o início do mundo, mas de modo peculiar a partir da encarnação, o mistério de Cristo opera veladamente no conjunto da realidade natural” (LS 99).

Essa perspectiva faz parte do patrimônio espiritual cristão (veja o Cântico das criaturas de Francisco de Assis) como também da sabedoria ancestral dos povos originários de Abya Yala, com os quais podemos tecer um diálogo e uma aprendizagem inspiradora. Essa prática implica abrir-se a fontes de conhecimento metaracionais, como a contemplação, a compreensão holística, a experiência comunitária, a pedagogia do encantamento, a mística da resistência etc.

Desta maneira, a missão desafia a lógica utilitarista tipicamente colonial que permeia todas as esferas da sociedade contemporânea. A mercantilização do mundo natural é fruto de um processo contínuo de dessacralização da natureza: deixamos de reconhecê-la como manifestação do sagrado vivo e encarnado na realidade, para concebê-la apenas como recurso natural.

O paradigma da encarnação há muita outras perspectivas criativas a mais a serem exploradas. Aqui citamos algumas; nos textos que publicamos hão de aparecer outras. Uma missão renovada a partir dos principios basilares da fé, através de uma releitura atualizada, se revela em toda sua profecia e provocação.

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