Missão e Cultura 2: a metamorfose da missão

de Rafael Lopez Villaseñor - 10/12/2025

Com grande alegria, apresentamos a nova edição da Revista Missão & Culturas, intitulada “A Metamorfose da Missão a partir do Vaticano II”. Ao celebrar os ses-senta anos da conclusão do Concílio Vaticano II e do decreto Ad Gentes, torna-se necessário uma releitura da missão eclesial à luz das profundas transformações culturais, sociais e religiosas que marcaram os últimos tempos. Esta edição propõe a reflexão de diversos autores sobre os caminhos missionários percorridos pela Igreja, destacando as reinterpretações teológicas, pastorais e espirituais que redefiniram o sentido da missão no mundo contemporâneo. As mudanças de época conduziram a Igreja a uma revisão de si mesma e de sua presença no mundo, convidando-a a discernir novos modos de anunciar o Evangelho, sem perder o vigor e o dinamismo que caracterizam sua missão.

Ao falar em metamorfose da missão, os diversos artigos apresentados contextualizam a teologia missionária como um processo dinâmico e contínuo de transfor-mação da própria estrutura eclesial da missiologia. Os textos propõem uma leitura bíblica das primeiras comunidades cristãs e evidenciam a passagem de um modelo histórico de missão, frequentemente associado ao colonialismo, para uma missão fundamentada no diálogo, na transformação social, na encarnação e na solidariedade. Portanto, o missionário, ao inserir-se em uma nova cultura que o recebe, é desafiado a crescer, a deixar-se transformar pelas novas experiências e a incultu-rar-se. Sessenta anos após a promulgação do Ad Gentes, permanecem ainda muitos apelos e desafios no caminho da conversão missionária e sinodal, que continuam a exigir abertura, discernimento e compromisso com a missão universal.

Em 25 de janeiro de 1959, o Papa João XXIII, de feliz memória, estava reunido com um grupo de cardeais para anunciar a decisão de convocar um Concílio. Foi o primeiro passo de um amplo processo de renovação e atualização da vida eclesial e missionária. O anúncio, inesperado e surpreendente, causou impacto em pra-ticamente todos os ambientes eclesiais e sociais, ainda marcados pelo clima da Guerra Fria e por uma mentalidade satisfeita com um catolicismo centrado em certezas dogmáticas. Essa iniciativa despertou novas esperanças e ampliou horizontes. Finalmen-te, em 8 de dezembro de 1965, concluíam-se os trabalhos do Concílio Vaticano II. Entre as Constituições, Decretos e Declarações promulgados, foram dezesseis Documentos Oficiais. O Decreto Ad Gentes teve um longo processo de formação, entretanto, destaca-ram-se as novidades da atividade missionária da Igreja, que inaugurou uma verdadeira metamorfose na compreensão da missão e orientou o futuro da ação missionária.

Antes do Concílio Vaticano II, a missão tinha como finalidade “plantatio Ecclesiae” (implantar a Igreja), tornando-a visível, estável e solidamente estruturada nos chamados “territórios de missão”, nas regiões onde a presença eclesial ainda não se consolidara. A missão era geográfica, quase sempre unida ao colonialismo e entendida como condição necessária para a salvação das almas, com uma visão que, embora tenha favorecido a expansão do cristianismo, mostrava suas limitações diante das transformações históricas, especialmen-te no século XX. Havia essa perigosa identificação entre missão e colonialismo, em que a Igreja deseja se distanciar, era necessário ser superada essa identificação, reconhecendo-se a dignidade, autonomia e a riqueza cultural dos povos evangelizados.

O Concílio Vaticano II contribuiu decisivamente para superar a visão colonialista ao propor uma teologia da missão a partir da Trindade. O documento Ad Gentes apresentou o desígnio salvífico universal de Deus: “a Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo” (AG, 2). A missão da Igreja, que emerge de sua origem e estrutura trinitária, em favor da plenitude da vida de todos. Nesse horizonte, afirma-se que a Igreja é missionária por sua própria natureza (AG, 2). Passou-se, assim, de uma Igreja que tinha missões para uma Igreja que é missionária em sua essência, cuja origem da missão é o próprio Deus. A partir desse pressuposto, se entendeu que a Igreja não tem uma missão, ao contrário, a missão tem uma Igreja, entendendo que a missão precede a Igreja.

O Vaticano II emergiu como resposta às profundas transformações da modernidade e às novas configurações da experiência humana. Diante de um mundo cada vez mais secularizado e plural, a Igreja sentiu a urgência de repensar sua missão. Documentos como Gaudium et Spes e Ad Gentes expressaram a passagem de uma eclesiologia centrada na autodefesa institucional para uma Igreja em diálogo e serviço com o mundo. A “autocompreensão missionária” da Igreja foi reformulada, isto é, já não se trata de uma expansão territorial, mas de um testemunho de fé encarnado nas culturas, atento às alegrias e esperanças da humanidade (GS, 1).

O Concílio também inaugurou uma nova etapa da missão ao propor o diálogo ecumênico, inter-religioso e cultural como caminho privilegiado de evangelização. Reconheceu-se que também fora da Igreja acontece a Salvação, que “Jesus Cristo é o mediador e a plenitude de toda a revelação” (DV, 2), nesse sentido, afirmou-se também o valor da busca sincera da verdade presente em outras tradições religiosas e nos diversos âmbitos da experiência humana. A missão passou, então, a ser compreendida não como imposição, mas como encontro e diálogo que reconhece a ação do Espírito de Deus além das fronteiras visíveis da própria Igreja. A questão da salvação fora dos limites visíveis da Igreja levou a uma releitura teológica profunda da missão. O Concílio afirmou que “os que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam sinceramente a Deus, podem alcançar a salvação” (LG, 16). Tal afirmação não anulava a importância da mediação sacramental que “conferem a graça” (SC, 59; AG, 9) e manifestam a pertença ao Corpo de Cristo. Inclusive, a tensão criativa entre a universalidade da salvação e a mediação eclesial desafia continuamente a reflexão missionária contemporânea.

Na atualidade, a missão ad gentes, embora tenha perdido a conotação geográfica tradicio-nal, conserva sua pertinência teológica. Num mundo marcado pela indiferença religiosa e pelo ateísmo prático (GS, 7), inclusive em países de antiga tradição cristã da Europa, toda realidade humana se torna “terra de missão”. A missão ad gentes mantém sua razão de ser não por exclusivismo, mas porque a salvação, embora seja universal, tem em Cristo sua fonte e, na Igreja, seu sinal visível (RMi, 9 e 10). A universalidade do anúncio evangélico fundamenta-se na proclamação de um Deus único, que deseja reunir toda a humanidade numa comunhão de amor.

O desafio contemporâneo da missão consiste em reafirmar as convicções cristãs sem cair no fundamentalismo, muito presente em alguns setores na atualidade. Em um mundo plu-ral, secularizado e em constante transformação, a missão exige discernimento, respeito e criatividade. A fidelidade ao Evangelho passa pelo diálogo intercultural e interreligioso com o mundo de hoje. A Igreja é chamada a testemunhar que o Espírito Santo sopra onde Ele quer, e que, antes mesmo da chegada do missionário, o Espírito já se encontra presente nas outras culturas e religiões nas “sementes do Verbo” (LG, 2).

De acordo com o Papa Francisco, de feliz memória, a missão hoje acontece na dinâmica paradigmática, colocando em chave missionária todas as atividades das comunidades eclesiais (EG, 15). Trata-se de uma Igreja missionária em saída e de portas abertas (EG, 46), entendida como comunidade eclesial que se dirige às periferias humanas e existenciais, voltada para os pobres, os afastados e os que sofrem. O Papa Francisco afirmou que é preferível “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG, 49). Assim, todos os cristãos estão chamados a sair do comodismo, assumindo uma atitude missionária permanente, na qual o espaço privilegiado da missão nasce nas próprias comu-nidades paroquiais, convidadas a viver a missão universal.

Enfim, desejamos a todos uma boa leitura e aprofundamento da teologia da missão com um renovado ardor missionário. Cada artigo aqui reunido é fruto da pesquisa, reflexão, ex-periência e compromisso com a missão Universal, sempre com um espírito de comunhão, sinodalidade, solidariedade e partilha. Que o Espírito Santo continue a impulsionar-nos com a missão universal, “até os confins da terra” (At 1,8).

 

Faça o download do Numero 2 da Revista Missão e Cultura