Pobres de Roma fazem memória do Pacto das Catacumbas

de Arlindo P. Dias – 10/11/2015

Como parte das comemorações do 50º aniversário do Pacto das Catacumbas, domingo 20 de novembro, um grupo de sem-teto da Caritas de Roma, fará uma visita às catacumbas de Santa Domitilla para recordar o compromisso feito pelos bispos, em 1965.

No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes do encerramento do Concílio Vaticano II, cerca de 40 padres conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Santa Domitilla, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o “Pacto das Catacumbas”.

O documento é um desafio aos “irmãos no Episcopado” a levarem uma “vida de  pobreza”, uma Igreja “servidora e pobre”, como sugeriu o papa João XXIII. Os  signatários – dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais  tarde outros também se uniram ao pacto – se comprometiam a viver na pobreza, a  rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro  do seu ministério pastoral.

Ao longo de 2015, a União dos Superiores e das Superioras Gerais, através de seu serviço de Justiça Paz e Integridade da Criação (JPIC), Serviço de Estudos da Missão (SEDOS) e a Congregação dos Missionários do Verbo Divino, encarregada pela Santa Sé, do cuidado da Catacumba, têm organizado eventos para recordar o compromisso dos bispos.

Um dos membros da comissão organizadora das celebrações, o conselheiro geral dos verbitas, padre Arlindo Pereira Dias explica. “Este gesto tem pelo menos três significados: oferecer aos mais pobres de Roma a possibilidade de uma visita às Catacumbas para se sentirem parte da missão comum da Igreja; agradecer a Deus pelos esforços de centenas bispos, religiosos, religiosas e leigas e leigos que, em todo o mundo, ao longo dos últimos 50 anos, testemunharam e trabalharam por ‘uma Igreja pobre e serva dos pobres’ de acordo com o espirito proposto pelo Concilio Vaticano II; reforçar o apelo do papa Francisco aos cristão de  ‘colocar a nossa vida, estruturas e tempo a serviço dos pobres de hoje, especialmente neste momento na Europa, em relação refugiados e imigrantes”.

As catacumbas são cemitérios gigantescos, subterrâneos, onde gerações de cristãos enterraram seus mortos. As mais importantes estão em Roma, mas as encontramos também em Nápoles, Siracusa, na África, Egito e Ásia Menor. Santa Domitila é uma delas. Os cristãos preferiam sepultar os seus mortos ao invés de incinerá-los como faziam os romanos, pois a tradição bíblica nunca falou em cremação, embora esta seja hoje permitida pela Igreja, desde que não seja para desafiar a fé na ressurreição (cf. CIC §2301).

O grupo dos pobres será acompanhado pelo diretor da Caritas de Roma, dom Enrico Feroci que vai presidir a Eucaristia e várias religiosas e religiosos. Depois da missa haverá uma visita guiada das catacumbas e um almoço na Casa Geral dos Missionários do Verbo Divino, seguido de confraternização e lazer. Dom Enrico Feroci falou sobre a importância do Pacto das Catacumbas e do Ano da Misericórdia proposto pelo papa Francisco.

Entrevista com dom Enrico Feroci, diretor da Caritas de Roma

Qual o significado de celebrar o compromisso de “uma Igreja pobre e para os pobres” nas Catacumbas de Santa Domitilla?

Há cinquenta anos foi assinado o documento chamado Pacto das Catacumbas, no qual se sublinhava a importâncias e a centralidade do tema dos pobres em nossa reflexão e na Igreja. Pensando nesta realidade me vem em mente o gesto que fez São Francisco ao encontrar o leproso, quando o abraçou e o beijou. Não foi um fato exterior, tampouco para mortificar-se ou por que sentisse medo. Ele o fez porque percebia a importância do excluído. Era como se o leproso fosse parte dele mesmo. Portanto, o leproso, o excluído, não era apenas um fato em si mesmo, motivo pelo qual devia estar atento. Ele era carne da sua carne, era a sua realidade. O Pacto das Catacumbas quer nos mostrar que os pobres não são apenas uma realidade sociológica sobre a qual nós temos que estender uma mão. Eles fazem parte de nosso corpo, se eles nos faltam, o nosso corpo se torna enfermo. Por isso, me parece que o Pacto das Catacumbas nos conduz à reflexão sobre o que nos somos e sobre o que é a presença de Deus em nós, na Igreja e no mundo. Trazer os pobres em nosso coração, dedicar-nos a eles é como se nos dedicássemos a Cristo, que está presente neles e também em nós mesmos. Sem eles nos tornamos também nós carentes e pobres.

Preparando o Ano da Misericórdia, que coisas concretas podem fazer os religiosos e as comunidades cristãs para vivê-lo segundo o coração de Deus?

Quando o papa Francisco anunciou o Ano da Misericórdia lembrei-me algumas palavras que são próprias de nossa historia, de nossa tradição bíblica e litúrgica. Existe uma figura muito bonita que é aquela do Goel, isto é, aquele que se oferece para substituir a pessoa da família que contraiu uma grande dívida. Veio-me em mente não apenas a figura de Jesus, que se deu a si mesmo para que fôssemos salvos, mas também a belíssima realidade expressa por São Paulo quando diz que o “meu viver é Cristo!” Ele, pelos irmãos que sentia distante, estava disposto a doar a si mesmo, a sacrificar a si mesmo. Recordo também que surgiram tantos institutos religiosos, como aqueles que se comprometiam a substituir com um dos seus religiosos os presos que foram escravizados. Creio que cada um de nós, diante desta realidade deve se comprometer. Tendo nas mãos o jornal, vendo as situações difíceis, não podemos ficar indiferentes como se fosse algo que não nos toca. Deve nascer dentro de nós uma paixão, um grande sofrimento, uma vez que nossos irmãos estão sofrendo. Este sofrimento nos pertence, a sua dor nos pertence, por isso nosso dever é compreender, dar-se conta, conhecer, não deixar as coisas como estão. E nos empenharmos para que tantos fatos dramáticos não ocorram mais. Mais do que isto, estender nossas mãos para que estes nossos irmãos tenham o suficiente para viver dignamente.