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"Tenha o cuidado de não se sentir estrangeiro Em nenhuma parte do mundo. Eduque seu filho, desde a mais tenra idade No amor aos horizontes largos. Viva em escala mundial Melhor ainda, universal" (Dom Hélder Câmara)
 

Simpósio Missiológico Internacional

OS CONFINS DO MUNDO NO MEIO DE NÓS

São Paulo, 18 a 22 de maio de 1999

Para a América Latina cristianizada, Missão significa memória de um passado colonial ainda próximo e projeto de libertação em curso. Memória e projeto são constitutivos para a caminhada missionária. A memória rompe com a repetição obsessiva e a amnésia traumática do passado. O projeto é a visão de uma outra sociedade que se inspira na concepção das sociedades indígenas. Nelas prevalece a construção da pessoa sobre a produção de bens, o ócio sobre o negócio, a participação sobre a competição, a partilha sobre a acumulação, a liberdade sobre o controle. Nesta outra sociedade em construção todos aprenderam também produzir, não para acumular, mas para o gasto próprio e para distribuir. O enriquecimento através de especulações financeiras, que corrompem as pessoas, nesta sociedade não faz sentido.

A Missão lembra o caminho percorrido. Convoca os peregrinos para a construção de "uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal" (Medellín V/15) que caminha junto aos pobres. Neles "reconhece a imagem de seu Fundador pobre e sofredor" (LG 8). Nessa caminhada, o Ressuscitado se revela como caminho novo. A experiência pascal ilumina a caminhada por instantes. Não transforma as noites dos crucificados em Dia da Ressurreição e as eternas perguntas de Jó sobre o sofrimento do inocente permanecem sem resposta. Mas, a iluminação pascal - primeiro raio de sol que anuncia o fim da noite - muda a visão dos peregrinos. Mudando a visão, transforma a realidade.

A caminhada é configurada por múltiplas experiências. Caminho e Missão se confundem nessas experiências inseridas na história e no dia a dia dos contextos culturais. Experiências são históricas e contextuais. Não valem para todos, nem para sempre. Têm data de vencimento. A vida cresce, o mundo se transforma e o caminho percorrido faz mudar as perspectivas. Por conseguinte, na caminhada se cruzam muitos caminhos. Não existe a hegemonia do caminho único ou da leitura definitiva. Ninguém tem a última palavra. Todos são eternos "mutantes", herdeiros de Heráclito, de Jesus-Caminho e de nômades indígenas. Carregam um devir histórico, um "coração inquieto" (Agostinho) e um ser eterno dentro de si. Cada um é essência divina, atravessado por desejos humanos e empenhado num canteiro de obras deste mundo. Eternidade em construção histórica.

Novas misturas, pontos de vista diferentes e enfoques inusitados lembram a possibilidade de outros caminhos. O caminho domesticado se torna casa de repouso. O caminho é uma escolha. A verdade é uma opção, não uma necessidade. O caminho se faz caminhando. As sendas e as pontes estão para ser construídas. A partilha da experiência entre peregrinos, que chegam dos vales de resistência da vida contra a morte, aponta para novas possibilidades. A partilha desarmada e atenta desmonta a leitura ideológica, heróica ou até depressiva da caminhada. Enfim, quem viu a morte face à face, sabe que a vida pode vencer. Foi-se a inocência e a certeza. A caminhada desestrutura conceitos e representações herdados. O Evangelho desestabiliza as estruturas institucionais e mentais. Faz ver "o esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo (...) em vasos de barro" (2Co 4,6s.). Ser peregrino significa viver em estado de conversão.

Lembrar o caminho e as experiências da caminhada era a proposta de um Simpósio Missiológico Internacional, realizado de 18 a 22 de maio de 1999, em São Paulo. A temática desse Simpósio, “OS CONFINS DO MUNDO NO MEIO DE NÓS”, aponta para os desafios do mundo globalizado: a proximidade dos pobres e dos outros e, ao mesmo tempo, sua exclusão do convívio social. O Simpósio foi convocado pelo curso de Pós-Graduação de Missiologia da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo, em comemoração aos 11 anos de seu funcionamento. Participaram do evento sobretudo os ex-alunos e alguns convidados especiais, que vieram de 18 países e quatro continentes. Vozes autorizadas da Ásia, África, América Latina, América do Norte e Europa apresentam a síntese dos desafios que emergem nos diferentes continentes.

Como pensar a Missão no mundo onde a miséria globalizada é um produto da civilização do mercado, das transações financeiras e da fartura de elites privilegiadas? Onde encontrar o "horizonte regulador" que dá sentido à caminhada? Globalização significa proximidade e distância. Os meios de comunicação forjaram uma humanidade conectada pela palavra, pela imagem e pelos negócios e, ao mesmo tempo, separada por um fosso social entre ganhadores e perdedores. Aparentemente, a globalização facilita a atividade missionária. As viagens a outros países e continentes, hoje, se tornaram bastante cômodas, comparadas com as épocas que levaram José de Anchieta ao Brasil e Francisco Xavier ao Japão. Em caso de qualquer catástrofe, mensagens e sinais de solidariedade podem ser enviados com muita rapidez. Até a "caridade internacional" acaba funcionando razoavelmente.

Mas, o poder da mídia significa também uma nova colonização. Mensagens insistentes e sinais sedutores a serviço do mercado estão 24 horas no ar. Arte e academia são cooptadas pelo mercado total. O mundo dominado pelo capitalismo de cunho neoliberal investe a maior parte de sua criatividade em propaganda, design e marketing. Tudo vale para transformar o próximo em cliente e as relações humanas em relações de mercado. O mercado disfarça o preço, destaca o prazer imediato e apela à libido.

Em contrapartida, a caridade, a solidariedade e a justiça exigem "luta" e austeridade; não conseguem articular seu outfit com prazer, nem seus resultados com rapidez. A mística tem pouca visibilidade. As tentativas miméticas de algumas Igrejas, recorrendo ao showbusiness da fé, são esteticamente desprezíveis, espiritualmente vazias e teologicamente sectárias. Legitimam a violência em curso porque escondem a cruz de Cristo e os rostos dos crucificados. O mercado financeiro não pode ser vencido pelo mercado religioso, mas pela gratuidade da cruz. Jesus de Nazaré, morto na cruz, liberta da necessidades de outros sacrifícios redentores. Redenção e libertação não estão mais sob a pressão da magia ou do rito sacrificial. A gratuidade não entra no circulo vicioso do mercado concorrencial com "melhorias graduais". A gratuidade da cruz articula as relações humanas a partir de uma outra lógica. Além disso, a fé está mais afinada com a escuta do que com a vista, mais com a palavra do que com a imagem. As parábolas têm um caminho longo pela frente; os retratos congelam arbitrariamente um instante da caminhada. As parábolas são exigentes; apelam à ação. As imagens apelam ao prazer, ao consumo e à mímesis. A atitude mimética é tendencialmente violenta porque exige um sacrifício recíproco para manter a diferença ou faz da própria eliminação da diferença o sacrifício mediante a identificação, a incorporação, a imitação ou eliminação do outro. Entre vencedores e vencidos, seja no mercado ou no campo de futebol, existe uma relação mimética. Assim, a globalização, com sua visibilidade e rapidez, simulando baixo custo e prazer imediato no interior de estruturas concorrenciais, colocou a Missão em desvantagem frente aos consumidores da cultura televisiva do mercado.

Como afirmar nesta grande loja mundi de 24 horas, onde tudo tem o seu preço, que a Missão e o Evangelho são algo essencialmente diferente do marketing? Qual é a força do Evangelho junto àquela parcela da humanidade que vive desconectada do progresso e do bem-estar? Em bolsões de miséria, amenizada por obras de caridade e auto-ajuda que varia entre mendicância e violência, lutam diariamente por um pedaço de pão, por um chuveiro para o banho, por padrões elementares de justiça e por "drogas de esquecimento", apelando à sorte, ao milagre ou à cola do sapateiro. Tudo isso desafia a Missão como projeto. Desafia a prática missionária e a reflexão missiológica.

No passado, missionários e missionárias foram acusados de que a universalidade da Missão seria expressão de sua vontade de dominar o mundo. Chegaram aos confins do mundo, graças aos navios de comerciantes, conquistadores e colonizadores. A afirmação da verdade única da fé, acoplada à geografia universal da Missão e à companhia dos exploradores, produziu violência simbólica e prática. O discurso missionário era hegemônico e excludente. Exemplos não faltam. Mas, a universalidade da Missão pode ser compreendida como alternativa à globalização. A Missão é universal, porque não exclui ninguém. Se a Missão fosse geográfica, cultural, étnica ou socialmente limitada, se ela se dirigisse apenas a uma pequena clientela de “eleitos”, seria excludente como a globalização neoliberal. O Vaticano II (1962-1965) e sua inculturação latino-americana em Medellín (1968) articularam a universalidade com a diversidade, a identidade católica com a diferença ecumênica e macroreligiosa.
A Missão em sua contextualidade universal pode ser pensada, assim, como alternativa à colonização cultural e à exclusão social. A alternativa se baseia, primeiro, no princípio fundamental do Evangelho: a prática do amor maior e o anúncio do Reino como "libertação do cativeiro da corrupção" (cf. LG 9); segundo, na compreensão da unidade global como articulação de múltiplos projetos de vida com horizontes diferentes, porém, não eliminatórios, uns frente aos outros; terceiro, na articulação da vida local e do projeto específico com a responsabilidade universal pelo conjunto da humanidade e do planeta terra. Esse projeto da Missão participativa, alternativa, libertadora e inserida ao mundo, pode ser pensado em cinco dimensões simultaneamente presentes: contemplação (1), indignação (2), visão (3), ruptura (4) e articulação (5).

1. Os peregrinos da América Latina contemplam nos crucificados da história seu fundador crucificado e ressuscitado. Em sua Historia de las Indias, Las Casas recorda-se desde a longínqua Valladolid: "Deixei nas Índias Jesus Cristo, nosso Deus, açoitado, afligido, esbofeteado e crucificado, não uma, mas mil vezes, pelos Espanhóis que assolam e dessorem aquelas gentes (...)." A contemplação das vítimas da história é ao mesmo tempo a contemplação de sua resistência contra a morte e a afirmação da possibilidade de uma justiça definitiva, codificada no imaginário da ressurreição. Num ato de justiça definitiva, Deus rasgou a sentença de morte de seu Filho e o ressuscitou. A mística missionária está enraizada nessa realidade do mundo em construção, sem vítimas. O Crucificado rompeu com os sacrifícios humanos e desautoriza qualquer pessoa ou sistema que cria vítimas. Nessa contemplação enquanto resistência contra a morte, a Missão forja o horizonte do sentido. A vida faz sentido, apesar das contingências, das mortes "antes do tempo" e do desespero de muitos.

2. A contemplação cria um descontentamento estrutural com o mundo assim como é; com o mundo que cria vítimas e exclui; com o mundo que despreza a vida dos inocentes e privilegia os violentos. Da contemplação emerge a energia de uma indignação profética. Ela é o antivírus contra o conformismo, a indiferença e o esquecimento. A memória, a contemplação e a indignação são as primeiras pontes sobre o abismo que separa os excluídos do resto da humanidade. Indignação significa compaixão, misericórdia e justiça. A indignação se dirige contra aquilo que pode ser diferente; contra a fome das multidões; contra o conformismo de uma história fatal; contra um providencialismo de um “Deus quer assim”; contra a hegemonia do capital, das armas e da tecnologia a serviço do lucro de poucos. Os pobres e os excluídos desmentem a ideologia neoliberal que apregoa que a liberdade dos mercados beneficia a todos. A desigualdade pode ser crônica, mas não precisa ser perpétua. A história está cheia de possibilidades. A fé inspira sempre novas razões de esperança que podem alimentar a paixão missionária. A indignação preserva a Missão da adaptação e da submissão à falácia da globalização neoliberal.

3. A indignação profética e visionária é marcada pela alegria profunda de poder participar da construção do mundo novo. Missão é visão do horizonte utópico da libertação. A libertação é possível. A justiça de Deus não é a justiça da estátua com olhos vendados. Deus ouve o clamor dos pobres, vê o sofrimento dos migrantes e convoca com a sua palavra os que a confusão babilônica dos macrodiscursos excluiu do convívio social. Missão é visão acoplada à ação. Tudo pode ser diferente. A partilha e a opção pelos pobres apontam para tarefas básicos neste mundo: a redistribuição dos bens feita pelos pobres e o reconhecimento dos outros e das outras em sua alteridade. Essa visão se transforma em ação através da presença no meio dos outros-pobres e através de palavra, profética e misericordiosa, ao mesmo tempo. A Missão produz sinais de justiça e cria imagens de esperança. No mundo, onde os privilegiados perdem o sentido de vida e os excluídos a visão de um horizonte e a força de resistência, o querigma missionário elementar é a esperança.

4. Presença, palavra, sinais, imagens e sonhos não são óleo na máquina do tempo. São areia. O mundo sócio-historicamente construído nunca está livre de alienação e estruturas de pecado. Missão significa ruptura com essa alienação. Meras reformas ou remendos novos em odres velhos não mudam o curso da história. O Reino só pode ser pensado num horizonte asistêmico, além da "utopia" da sociedade consumista, da sociedade produtora de objetos à custa das pessoas. Os sistemas, instituições e organizações sempre estão cheios de contradições. A contradição faz parte do mundo fatual. Os fatos são momentos estagnados de um processo amplo de libertação. A tarefa-pergunta missiologicamente relevante: Como produzir rupturas? Como plantar os sonhos dos pobres e dos excluídos nas rachaduras dos sistemas? Ruptura significa desprogramação, desinstalação, desalienação. Como abrir mão das nossas representações prestigiosas e viver a solidariedade como expressão radical de gratuidade sem retorno? Gratuidade significa não só ruptura com a sociedade domesticada por lucro, competição e controle. A gratuidade rompe com o desejo mimético de incorporação, identificação e reciprocidade. A gratuidade é a condição da não-violência religiosa.

5. Missão é organização e articulação contra a violência da fome, da exclusão e da banalidade do sonho consumista. É possível enredar as esperanças e os sonhos dos excluídos. Mas, ao propor a organização da esperança não se entra de novo num beco sem saída, no beco sistêmico, na forca partidária, na domesticação eclesial e, portanto, na contramão do Reino? O bug missiológico do milênio – o bloqueio da caminhada que apavora os responsáveis pelos relógios - é causado por estruturas piramidais, que travam a comunicação interna e emperram o diálogo ad extra. Essas estruturas são miméticas. Refletem palidamente as estruturas totalitárias da economia do mercado. Nas estruturas piramidais, o pobre é mero receptor de mensagens e o outro é destinatário de comunicados. A inclusão autoritária não representa a alternativa contra a exclusão. A causa dos pobres-outros não exige apenas assunção autoritária ou aceitação através de parâmetros de tolerância e solidariedade no interior do sistema que os expulsou. A energia transformadora não brota da eficácia organizacional ou da univocidade cultural no interior desse sistema.

Os pobres, em sua diversidade, são constitutivos para a organização da esperança do Reino. Para a organização dessa esperança não vale a normatividade da “qualidade total”, que é concorrencial e eliminatória, mas a excelência do pobre e a assunção de sua diversidade na rede de relações fraternas. A exclusão social é a negação da fraternidade. Ao transformar as pirâmides autoritárias em redes de comunicação, acontecerá um novo fluxo energético e pentecostal no interior das Igrejas. Na partilha dos bens e das palavras, na solidariedade com os crucificados, na sobriedade dos peregrinos as Igrejas se renovam constantemente. Seu futuro histórico está garantido através da participação dos outros e dos pobres em sua rede institucional.

Caminhar é a forma mais radical da partilha. Desta caminhada compartilhada todos voltam transfigurados. Não só o Êxodo - a saída emancipatória sem retorno à terra escravizada -, também o Exílio obriga, através da experiência do estranho na terra estranha, a redefinir o próprio projeto, seus meios e fins; redefinir o conceito, o desejo e as imagens. A caminhada relativiza projetos, gramáticas e lógicas. Em cada etapa dessa caminhada voltam antigas e novas perguntas. São sinais da nossa subjetividade em construção e da busca de sentido. Só o sujeito faz perguntas, questiona a si e ao mundo. Afinal, quem somos? A caminhada é um aprendizado para conviver em paz com cada vez mais perguntas. No caminho se perde a ansiedade de encontrar respostas para tudo. Ao sair do "nosso" lugar, mudamos o olhar ao mundo e a perspectiva de vida.

Paulo Suess

 

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